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Poder

Bolsonaro entrega extratos bancários após STF autorizar quebra de sigilo

Operação policial contra Jair Renan mostra que exemplo se aprende em casa

Publicado em 25/08/2023 1:03 - Wanderley Preite Sobrinho, Aguirre Talento e Leonardo Sakamoto (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apresentou ontem ao STF os extratos bancários do período em que foi presidente.

A decisão de enviar voluntariamente os extratos ocorre uma semana depois da quebra de seu sigilo bancário autorizada pelo STF na investigação sobre o recebimento e venda de joias.

O que aconteceu?

Extratos foram apresentados “de forma espontânea”. Ontem, a defesa do ex-presidente apresentou ao ministro Alexandre de Moraes uma petição em que afirma apresentar os documentos “de forma espontânea” a fim de evitar a movimentação da máquina pública para apurar os dados bancários de Bolsonaro. O UOL teve acesso ao documento. A colunista Mônica Bergamo, da Folha, havia antecipado a movimentação da defesa de Bolsonaro.

Para evitar vazamentos, os advogados também pedem que Moraes decrete sigilo sobre o processo. “Não obstante, informa que está à disposição da Justiça para quaisquer esclarecimentos acerca de sua movimentação bancária”, diz a petição a que o UOL teve acesso.

Em que pese a ausência de qualquer intimação que permitisse a confirmação de tal determinação, o peticionário comparece de forma espontânea aos presentes autos, para apresentar seus extratos bancários, do período em que atuou como Presidente da República, afastando a necessidade de se movimentar a máquina pública para apurar os dados bancários em questão. – Trecho da petição

Michelle não entregou seus extratos. Autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes (STF) no dia 17 de agosto, a quebra de sigilo também inclui a conta bancária da ex-primeira-dama, mas esses documentos não foram entregues neste momento.

De acordo com a defesa, os maiores gastos de Bolsonaro se referem a vendas de um carro e de uma moto aquática, além do ressarcimento de despesas médicas.

O objetivo da decisão é saber se o dinheiro da venda das joias chegou ao ex-presidente. A medida foi solicitada após uma operação da PF no último dia 11, que mirou um suposto esquema de desvio e venda no exterior dos bens dados de presente à Presidência da República em missões oficiais —como os conjuntos de joias recebidos da Arábia Saudita.

Bolsonaro não entregou os extratos bancários de 2023. Embora exista a suspeita de que algumas joias tenham sido negociadas no ano passado, há fortes provas de que relógios de luxo foram vendidos este ano, ou seja, fora do período dos extratos entregues, que se limitam ao período entre 2019 e 2022.

As suspeitas da PF apontam que os recursos gerados com as venda dos bens eram repassados a Bolsonaro em dinheiro vivo. Outros indícios da participação do ex-presidente se deve ao fato de as joias serem levadas ao exterior durante viagens presidenciais em aviões da FAB.

Os valores obtidos dessas vendas eram convertidos em dinheiro em espécie e ingressavam no patrimônio pessoal do ex-presidente da República, por meio de pessoas interpostas e sem utilizar o sistema bancário formal, com o objetivo de ocultar a origem, localização e propriedade dos valores. – Trecho da manifestação da PF ao STF

O que disse a defesa de Bolsonaro

Após a operação da PF, a defesa de Bolsonaro afirmou o seguinte na semana passada:

A defesa do Presidente Jair Bolsonaro voluntariamente, e sem que houvesse sido instada, peticionou junto ao TCU — ainda em meados de março, p.p. —, requerendo o depósito dos itens naquela Corte, até final decisão sobre seu tratamento, o que de fato foi feito.

O presidente Bolsonaro reitera que jamais apropriou-se ou desviou quaisquer bens públicos, colocando à disposição do Poder Judiciário sua movimentação bancária.

Operação policial contra Jair Renan mostra que exemplo se aprende em casa

Bolsonaristas nas redes sociais dizem que a Polícia Federal está perseguindo a família do ex-presidente ao tratar de joias, golpes, pandemia, rachadinhas. Para mostrar que isso não é verdade, Jair Renan, filho 04 de Bolsonaro, é um dos alvos de operação da Polícia Civil do Distrito Federal, na quinta (24), que investiga um grupo envolvido em estelionato, falsificação de documentos, sonegação, lavagem de dinheiro.

Chamado de “comparsa” na nota da polícia à imprensa, ele teve apreendido o celular e um HD. O instrutor de tiro de Jair Renan, Maciel Carvalho, é velho conhecido da polícia e foi apontado como mentor do esquema.

O filho 04 já se envolveu em outros BOs, como nas vezes em que usou o sobrenome para agir como lobista em Brasília. O então ministro do Desenvolvimento Regional, e, hoje, senador, Rogério Marinho, confirmou, que recebeu Jair Renan e representantes de uma empresa em audiência. Detalhe: o encontro foi solicitado pelo gabinete do papai após intermediação do rebento.

Realizado em novembro de 2020, a reunião havia sido trazida a público pela revista Veja. Segundo a revista, a tal empresa, Gramazini Granitos e Mármores, patrocinava a Bolsonaro Jr Eventos e Mídia, de Jair Renan. Ao contrário dos irmãos Flávio, Carlos e Eduardo, ele ainda não entrou para a política. Não oficialmente, pelo menos.

O ministro disse à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados que a empresa queria falar sobre uma “inovação tecnológica” na área habitacional. Disse que não conhecia Jair Renan e que não se constrangeu com a presença dele uma vez que “entrou calado e saiu calado”.

Mas o importante já estava “dito”: uma empresa conseguiu acesso privilegiado a um ministro através de um sobrenome. E um sobrenome sentou-se no gabinete do ministro, com todo o seu peso.

Uma startup de Ceilândia que tente uma reunião no governo do DF para ocupar um escritório no estádio Mané Garrincha ou um empreiteiro honesto e morador da periferia da capital paulista, que tenha excelentes ideias para economizar na reciclagem de materiais de construção, teria a mesma facilidade de acesso ao poder que o 04?

Bolsonaristas que tanto reclamaram das relações entre o empreendimento de um dos filhos de Lula com corporações que tinham interesses nas gestões petistas, responderam diante da notícia do 04: “E o PT?” Considerando que o Partido dos Trabalhadores e o ex-presidente e sua família já foram longamente criticados por isso, inclusive com ações na Justiça, a pergunta agora é outra: “E o Jair?”

Não à toa uma empresa do 04 foi alvo de investigação por tráfico de influência.

Ele também circulava livremente e secretamente pelas dependências do governo do Distrito Federal para defender interesses pessoais. Muitas vezes sem deixar rastros, o que não combina com transparência.

Por exemplo, a Secretaria de Esportes e Lazer do DF admitiu à Justiça que não tem registros de uma reunião que ocorreu entre ele e a então secretária e hoje vice-governadora, Celina Leão (PP), em 22 de setembro de 2020, segundo reportagem de Wanderley Preite Sobrinho, no UOL. O tema seria e-sports. Depois, virou “visita de cortesia”.

Não teria sido única visita. O advogado Marivaldo Pereira, hoje secretário nacional de Acesso à Justiça do governo Lula, demandou informações via Lei de Acesso à Informação.

Na época, o governo distrital se negou a fornecer os registros de entrada e saída de Jair Renan. Depois, decretou sigilo sobre o que foi discutido e quem participou do encontro. Daí esquentou a chapa ao dizer que não prestaria informações porque isso poderia “colocar em risco a segurança do Estado e a do próprio Presidente da República” – na época, seu pai.

O que foi conversado nos encontros que era tão sigiloso a ponto de colocar em risco a segurança nacional?

Quem representava Jair Renan na época em que era acusado de tráfico de influência era o advogado Frederick “Compro Rolex” Wassef.

O clã Bolsonaro nunca compreendeu a necessária separação entre cargos públicos e interesses privados, prova disso é o mais recente escândalo sobre joias doadas ao Brasil, surrupiadas por Jair e vendidas por seus assessores a ricaços nos Estados Unidos.

Aliás, integrantes da CPMI dos Atos Golpistas tiveram acesso a um e-mail mostrando que Jair Renan foi autorizado a selecionar e retirar presentes que foram destinados à Presidência da República. Presentes, como as joias.

Os Bolsonaros não são os únicos políticos ao adotarem esse comportamento, óbvio, mas insistem nele com frequência. Isso faz com que as ações de Jair Renan sejam entendidas não como um desvio pontual, mas como mais uma evidência de um problema estrutural, que começava na família e se esparramava pela República.

Como já disse aqui, para um presidente que defendeu a “meritocracia” para que pobres acessassem benefícios sociais, é bastante constrangedor ver que, no caso de sua família, a meritocracia não se dá através de conquistas derivadas do esforço pessoal, mas do sobrenome. Para o clã Bolsonaro, a meritocracia é hereditária. E as instituições da República, o seu playground.

Os Bolsonaro, uma família-empresa do balacobaco

Pais não escolhem filhos. Filhos não escolhem pais. Mas Bolsonaro escolheu os dele: Flávio Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro. E rejeitou Jair Renan Bolsonaro. Certa vez, referiu-se a Laura, sua única filha, como uma “fraquejada”.

Rogéria, a primeira mulher de Bolsonaro, é mãe dos três zeros – Flávio, Carlos e Eduardo. Ana Cristina Valle, a segunda mulher, é mãe de Jair Renan. Os quatro estão enrolados com a Justiça. Michelle, a terceira mulher, é mãe de Laura.

Se perguntarem a Michelle se Bolsonaro é um bom pai, ela certamente responderá que sim, é um ótimo pai, embora muito ocupado. Se perguntarem às outras, dirão que não, ou nada dirão. Rogéria comeu o pão que o diabo amassou nas mãos de Bolsonaro.

Separada do marido, mas com o apoio dele, elegeu-se vereadora no Rio de Janeiro. Ao tentar se reeleger, Bolsonaro escalou Flávio para derrotá-la, mas ele não topou. Então, convenceu Carlos a ser candidato, e o filho derrotou a própria mãe.

Escalada por Bolsonaro, Ana Cristina, mãe de Jair Renan, cuidou do esquema da rachadinha nos gabinetes de Flávio e de Carlos. Saiu-se bem. Mas brigou com o marido, ou ele com ela. Então foi trocada por Fabrício Queiroz. Hoje, mora na Europa.

Ana Cristina quis fazer carreira política em Brasília. Alugou (ou comprou) uma mansão e fez Jair Renan se aproximar do pai presidente. Ana Cristina recebeu doações para sua campanha. Desistiu depois. Não devolveu as doações. É mal de família.

Sem ter modelos melhores, Jair Renan mirou no pai e nos irmãos que sempre mantiveram distância dele, e começou a fazer negócios. Mandou às favas a história de escrúpulos. Escrúpulos só atrapalham. Jair Renan mudou-se para Camboriú, Santa Catarina.

Arranjou um emprego à beira mar. Planeja ser candidato a vereador. Esbalda-se em festas com tudo pago. Afinal, era o filho do presidente da República. Passou a assediar mocinhas com o apelo que lhe parecia irrecusável: “Sou filho do presidente…”. Foi.

Jair Renan foi alvo de uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal que apura crimes de estelionato, falsificação de documentos, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. Ele se diz tranquilo. Nunca foi tranquilo. Já cuspiu no rosto da mãe.

O pai não saiu em defesa de Jair Renan; já saiu e sairá em defesa de Flávio, seu herdeiro político, de Carlos, o filho que mais o preocupa por sua instabilidade emocional, e de Eduardo, que substituiu como ideólogo da família o finado Olavo de Carvalho.

Flávio, ao seu modo às vezes bruto, saiu em defesa de Jair Renan:

“Pelo que eu conheço do Renan, ele não tem a menor capacidade de fazer [o que a polícia lhe atribui]. Está trabalhando. Me causa estranheza porque é uma pessoa que não tem onde cair morta e está sendo investigada por lavagem de dinheiro.”

Se o irmão não tem onde cair morto, por que Flávio, dono de uma mansão de 6 milhões de reais em Brasília, não o ajuda? Por que Carlos e Eduardo não o ajudam? Por que Bolsonaro, 17 milhões de reais mais rico com as doações via pix, não ajuda o filho?


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