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Poder
País paralelo do capitão no WhatsApp precisa de cadeia para ficar perfeito
Publicado em 25/08/2022 11:30 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On
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O presidente da República saiu, na quarta (24) em defesa de empresários bolsonaristas que foram alvo de operação da Polícia Federal, autorizada pelo STF, em meio à investigação do financiamento de ataques à democracia. Mostra-se, assim, preocupado com o patrocínio às micaretas golpistas que ele planeja para o 7 de Setembro.
Para tanto, cutucou os signatários da carta e do manifesto pela democracia e em defesa do sistema eleitoral brasileiro, que foram lançados na Faculdade de Direito da USP, em 11 de agosto, reunindo sociedade civil, acadêmicos e empresários.
“Somos ainda um país livre. Eu pergunto a vocês: ‘O que aconteceu no tocante aos empresários agora?’ Esses oito empresários. Dois eu tenho contato com eles, o Luciano Hang [Havan] e o Meyer Nigri [Tecnisa]. Cadê essa turminha da carta pela democracia? A gente sabe que, época de campanha, continuam lobos em pele de cordeiro. Acreditar que eles são democratas e nós não somos? Cadê a turminha da carta pela democracia?”, afirmou em comício em Betim (MG).
Como escrevi aqui, nesta terça, a operação da PF é fundamental para entender se há ricos empresários apoiando ações antidemocráticas a serem realizadas no Bicentenário da Independência da mesma forma que houve aqueles que as bancaram no 7 de Setembro do ano passado. De aluguel de ônibus para transporte de manifestantes, fornecimento de carros de som e produção de material de divulgação – além de impulsionamento dos convites em redes sociais.
Vale ressaltar que golpismo deve ser investigado e, caso detectado, desarticulado no momento em que está sendo construído. Da última vez, isso não foi feito, e tivemos uma noite que durou 21 anos.
Por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, além de mandados de busca e apreensão, também ocorreram o bloqueio de contas bancárias, a suspensão de contas em rede sociais, a quebra de sigilo bancário e a tomada de depoimentos.
Entre os alvos da operação, além de Hang e Nigri, estão José Isaac Peres (Multiplan), Ivan Wrobel (W3), José Koury (Barra World Shopping), André Tissot (Grupo Seerra), Marco Aurélio Raimundo (Mormai) e Afrânio Barreira (Coco Bambu).
A série de reportagens de Guilherme Amado, Bruna Lima e Edoardo Ghirotto, no portal Metrópoles, mostrou as entranhas do grupo “Empresários & Política”, confirmando que uma parte da elite econômica está agarrada ao capitão não apenas para garantir vantagens econômicas, mas por cumplicidade ideológica. No grupo, houve de tudo, de defesa de golpe de Estado até sugestão de compra de votos.
A pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, Moraes arquivou o inquérito dos atos antidemocráticos que corria no Supremo, em 2021, e atingia em cheio apoiadores e aliados do presidente Jair Bolsonaro, inclusive empresários. Mas determinou a abertura de uma outra investigação sobre a existência de uma organização criminosa que opera na disseminação de notícias falsas na forma de milícias digitais.
As ações contra os empresários beberam nesse inquérito e também devem subsidiá-lo. Caso a investigação descubra que houve transferência de recursos ou pagamento de fornecedores, os empresários devem ser corresponsabilizados pela violência gerada. A ação, em si, contudo, já tem poder de reduzir o financiamento a um 7 de Setembro golpista.
Aras, amigo de Nigri e aliado de Bolsonaro, entrou em embate público com Moraes por conta da operação da PF.
É pitoresco, por fim, que o presidente da República chame “a turminha da carta pela democracia” para ajuda-lo no momento em que seus aliados empresários são investigados por atacar a democracia. Convoca, assim, quem defende a tolerância para ajudar a garantir tolerância à intolerância.
Basicamente apela para o “paradoxo da tolerância”. O problema é que se uma sociedade tolerante aceita a intolerância como parte da liberdade de expressão ela pode vir a ser destruída pelos intolerantes. Como analisou o filósofo Karl Popper, a liberdade irrestrita leva ao fim da liberdade da mesma forma que a tolerância irrestrita pode levar ao fim da tolerância.
E defesa de golpe e de golpistas é algo que não pode ser tolerado, pelo bem da tolerância e da democracia.
País paralelo do capitão no WhatsApp precisa de cadeia para ficar perfeito
Há um Brasil paralelo nos fundões do WhatsApp. Nele, Bolsonaro disparou nas pesquisas. Abriu 45 pontos de vantagem sobre seu principal rival. Os vilões Fachin, Barroso e Xandão —sob influência de Lula, Zé Dirceu e PCC— tramam impugnar a chapa de Bolsonaro. O Brasil alternativo do aplicativo convive também com o risco de “roubo na apuração” das urnas. As Forças Armadas “estão em cima”. Mas o povo precisa sair às ruas no dia 7 de Setembro para exigir “voto auditável”. Do contrário, o Brasil virar um novo membro do “bloco comunista da América Latina.”
O Brasil bolsonarista do WhatsApp não é novo. Trata-se do mesmo conto do vigário de 2018, com ajustes no enredo. Mantém-se inalterado em 2022 o propósito de ludibriar o eleitorado. A diferença é que agora, graças a uma parceria da Folha com a Quaest, o jornalismo invade o território da mentira antes da abertura das urnas. O noticiário proporciona à Justiça Eleitoral a oportunidade de oferecer ao bolsonarismo a única coisa que falta para transformar o país paralelo das redes sociais num território perfeito: a cadeia.
Em outubro do ano passado, a um ano das eleições de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu o golpe eletrônico de 2018. Mas livrou a chapa Bolsonaro-Mourão da cassação. Limitou-se a avisar que puniria eventuais reincidentes. Atual presidente do TSE, Alexandre de Moraes participou do julgamento. Sabia que presidiria as eleições deste ano. Ao votar informou qual seria o destino daqueles que repetissem a bruxaria: “Irão para a cadeia.”
A reportagem publicada pela Folha fornece material para uma boa investigação policial. Informa que as mensagens que recriam o Brasil fictício são disparadas de delimita 540 números de telefone. O conteúdo ecoa manifestações do presidente da República, dos filhos e dos aliados. Relator no Supremo Tribunal Federal dos inquéritos sobre notícias falsas e milícias digitais, Moraes colecionou dados sobre a operação e o financiamento do empreendimento que industrializa a mentira.
A 39 dias da eleição, Moraes e seus colegas precisam mostrar que não vendiam terreno na Lua quando sinalizaram que seria curto o prazo entre a reincidência do crime e a chegada dos criminosos à cadeia.
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