21/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro cria novo modelo de enriquecimento: ‘Pixcaretagem’

Ex-presidente enganou a malta de ‘patriotas’ que o segue com a conversa de que não poderia pagar multas no valor de menos de 1 milhão de reais: os trouxas acreditaram

Publicado em 31/07/2023 12:37 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) - Edição Semana On

Divulgação Antonio Cruz - Abr

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Estufando o peito como uma segunda barriga, Bolsonaro agradeceu no sábado os depósitos de R$ 17,2 milhões que recebeu dos seus devotos. “Muito obrigado a todos aqueles que colaboraram comigo no Pix há poucas semanas”, disse ele, realçando que “quase um milhão de pessoas colaboraram”.

O capitão apareceu de surpresa num encontro de mulheres presidido por Michelle Bolsonaro, em Florianópolis. Entre risos, saboreou o resultado da coleta: “Dá para pagar todas as minhas contas e ainda sobra dinheiro para tomar um caldo de cana e comer um pastel com dona Michelle”.

Ficou entendido que aquela conversa toda, o patriotismo transbordante, a defesa incondicional da família, a ânsia por liberdade, a entrega altruísta ao bem público, tudo isso é impulsionado pela mesma invariável mola sedutora: o dinheiro.

Os críticos ficam aí falando mal de Bolsonaro. Mas, na verdade, o personagem só merece pena. Sofre uma perseguição judiciária implacável. Está certo, dá dinheiro. Dá muito dinheiro. Dá dinheiro demais. E essa é uma de suas misérias, porque se o mito não mantiver a engrenagem política que lhe rende lucros exorbitantes será um fracasso.

Muitos políticos vivem com lucros exagerados. Mas Bolsonaro é prisioneiro do exorbitante. Defensor ardoroso do patriotismo e da instituição familiar, o capitão uniu o inútil ao agradável. Ensinou aos seus garotos, desde o berço, o valor do amor à pátria. Assim que cresceram, os rapazes seguiram o exemplo do pai.

Casaram-se com a pátria e foram morar no déficit público. De rachadinha em rachadinha, os Bolsonaro enriqueceram convertendo o erário numa prótese de suas residências. A inelegibilidade criou uma oportunidade para que o patriarca exercitasse sua criatividade empreendedora.

O histórico de Bolsonaro não combina com o normal. Ele não pode se dar ao luxo da normalidade. É como os portadores de doenças raras, que não podem respirar oxigênio. O mito pertence à categoria dos políticos obrigados a viver dentro de bolhas que os preservem da atmosfera convencional. Ele precisa de um suprimento regular da sua substância vital: a exorbitância.

Todas as multas impostas pelo Judiciário a Bolsonaro por não usar máscara em suas aparições públicas em São Paulo durante a pandemia somam R$ 936.839,70. Por enquanto, o infrator não pagou um mísero tostão. Com a conta bancária tisnada pela exorbitância, o beneficiário das doações viu-se submetido ao inconveniente de aplicar o excedente.

Relatório do Coaf informa que os recursos foram abrigados em títulos de Certificado de Depósito Bancário (CDB) e Recibo de Depósito Bancário (RDB), modalidades de investimentos de renda fixa. Submetida à rentabilidade proporcionada pela taxa de juros anual de 13,75% a exorbitância torna-se um pouco mais exorbitante.

A pedido do jornal O Globo, o economista Paulo Henrique Pêgas, professor de Ciências Contábeis do Ibmec-RJ, contabilizou o rendimento líquido do capitão. Descontado o Imposto de Renda, as aplicações renderiam algo como R$ 147 mil mensais — ou mais de R$ 4 mil por dia. Estão assegurados o caldo de cana e os pasteis.

Ás da rachadinha, uma perversão cujo diminutivo atenua a sonoridade de um crime que o Código Penal batiza de peculato, Flávio Bolsonaro realçou a magnitude da rachadona das doações: “Sabe o que assusta?”, indagou o primogênito. “O tamanho da vaquinha espontânea feita por milhões de brasileiros ao presidente mais popular do país para ajudá-lo a pagar multas milionárias por estar na linha de frente na pandemia salvando vidas e empregos”.

O patriarca, com os botões saltando da camisa, capricha na retórica da vitimização. “Triste é o país em que as autoridades do Judiciário punem os seus cidadãos não pelos seus erros, mas pelas suas virtudes. Me tiraram o direito político, mas isso não nos abala, temos milhares de sementes pelo Brasil e essa nova força que aparece com vontade de vencer é muito grande”.

Os advogados Paulo da Cunha Bueno, Daniel Tesser e Fábio Wajngarten divulgaram nota para atestar a legalidade da ração regular que alimenta a bolha em que vive a vítima de perseguição. Criminosa é a divulgação da seiva pegajosa, não o melado. “A ampla publicização nos veículos de imprensa de tais informações consiste em insólita, inaceitável e criminosa violação de sigilo bancário, espécie, da qual é gênero, o direito à intimidade, protegido pela Constituição Federal no capítulo das garantias individuais do cidadão”, anotaram os defensores.

A nota prossegue: “Para que não se levantem suspeitas levianas e infundadas sobre a origem dos valores divulgados, a defesa informa que estes são provenientes de milhares de doações efetuadas via Pix por seus apoiadores, tendo, portanto, origem absolutamente lícita”.

Seria injusto também chamar de tolos os colaboradores de Bolsonaro. Seus devotos estão apenas realizando um trabalho humanitário. Socorrem um político que, de tanto viver no universo paralelo da bolha, exibe uma incapacidade congênita de lidar com a realidade.

Ao dar a Bolsonaro tudo o que ele pede, os bolsonaristas se comportam como uma mãe que socorre o filho débil. Combinando-se a debilidade crônica do capitão com a generosidade incontida dos seus súditos, criou-se no Brasil um novo modelo de enriquecimento “lícito”: a “Pixcaretagem”.

Conto do vigário

Conto do vigário é uma expressão usada em Portugal e no Brasil e significa uma história inventada para enganar alguém. O Artigo 171 do Código Penal diz que estelionato é enganar a vítima para obter algum tipo de vantagem, na maioria das vezes em dinheiro.

Lava-se dinheiro apelando por ajuda via Pix nas redes sociais. Os entendidos no assunto respondem que é possível sim. Lavagem de dinheiro é a prática corrente de fazer de conta que é legal o dinheiro obtido por meio de atividades ilegais.

Joaquim Roriz, que governou o Distrito Federal quatro vezes, renunciou ao mandato de senador em 2007 por ter descontado dois cheques, no Banco de Brasília, no valor de 2,2 milhões de reais. Os cheques pertenciam ao fundador da Gol, Nenê Constantino.

Roriz sempre argumentou que o dinheiro fora emprestado para a compra de embrião de uma bezerra de raça. No entanto, renunciou ao mandato logo após a denúncia. O caso ficou conhecido como “O escândalo da Bezerra de Ouro”. Lavagem de dinheiro.

Nicolás Petro, filho mais velho de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, foi preso, acusado dos crimes de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. A ex-mulher de Nicolás, Day Vásquez, também foi presa pelo mesmo motivo.

No início deste ano, Vásquez acusou Nicolás de receber dinheiro de empresários que acreditavam estar contribuindo para a campanha presidencial do seu pai em 2022. Ela também garantiu que seu ex-marido era ligado a contrabandistas e narcotraficantes.

O crime não respeita fronteiras nem ideologias. Depois de perder a eleição, Donald Trump arrecadou 255 milhões de dólares em dois meses. Dizia que era para contestar o resultado das urnas. Gastou com isso um tico, embolsou cerca de 175 milhões.

É o conto do vigário ou estelionato perfeito, nos Estados Unidos e em toda parte. Aqui, Bolsonaro enganou a malta de patriotas que o segue com a conversa de que não poderia pagar multas no valor de menos de 1 milhão de reais. Os trouxas acreditaram.

O que Bolsonaro fez com o dinheiro que recebeu para pagar multas

Era uma vez um presidente da República que jamais se envergonhou de ficar com o dinheiro dos outros. Assim construiu sua fortuna desde os primeiros mandatos como deputado federal.

No princípio era o verbo, isto é, a verba. Ela estava no princípio com Bolsonaro, subtraída dos salários de funcionários do seu gabinete. Tudo foi feito por ele; e nada foi feito sem ele.

Uma vez derrotado ao tentar se reeleger, Bolsonaro pensou em dar um golpe para permanecer no poder. Como lhe faltou apoio, teve outra ideia: tomar dinheiro alheio para viver confortavelmente.

Primeiro, fez com que o PL, com dinheiro público, lhe pagasse as contas – salário equivalente ao de ministro da mais alta Corte do país; aluguel do palacete onde mora; despesas com viagens.

Não satisfeito, empregou a mulher no partido com bom salário e o direito às mesmas vantagens. Mas isso lhe pareceu pouco. Então, teve outra ideia: pedir doações para pagar suas dívidas.

Sim, ele as tem. Só de multas por não usar máscaras de proteção à época da pandemia da Covid-19, ele deve ao Estado de São Paulo R$ 936.839,70. Deve também a outros estados.

O apelo por doações foi atendido por bolsonaristas aflitos com a situação do seu guia e mestre.

E o que fez com o dinheiro? Pagou as multas e devolveu o resto? Pagou as multas e doou a sobra – e que sobra! – para entidades de caridade? Não. Fez o que achou melhor para seu bolso.

Não pagou as multas. E, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, investiu R$ 17 milhões em fundos de renda fixa. Na Justiça, aposta em anular as multas.

Os filhos amestrados, à sua imagem e semelhança, donos de mandatos eletivos conseguidos à sombra dele, naturalmente saíram em defesa do pai, alvo de mais uma infâmia.

Não contestaram as informações vazadas, mas vitimaram Bolsonaro. Além de classificá-lo como o melhor presidente da República que o país já teve. Foi o pior desde o fim da ditadura.

Foi também o que mais enriqueceu com a política.


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