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Poder

Bolsonaro: conto do vigário ou estelionato?

Pressão por doação dos milhões do Pix expõe hipocrisia do 'mito'

Publicado em 08/08/2023 9:35 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Um político com moral fluida, capaz de migrar da rachadinha para a pixcareragem sem ruborizar a face, não há de se sensibilizar com apelos à solidariedade. Mas a Comissão Justiça e Paz de São Paulo age bem ao lançar nas redes sociais, habitat antinatural do bolsonarismo, uma campanha para que Bolsonaro doe aos 130 mil órfãos da covid os R$ 17 milhões que recolheu via Pix.

Bolsonaro descobriu que depois da impunidade vem a bonança. Preso no QG do Exército, o coronel Mauro Cid ficou impossibilitado de vender o Rolex e as joias da República no mercado negro. Restou ao mito tomar ao pé da letra o brocardo segundo o qual dinheiro não traz felicidade. Bolsonaro rogou aos seus devotos: “Transfira-me o seu dinheiro via Pix e seja feliz.” Foi graciosamente atendido.

O dinheiro foi coletado a pretexto de pagar multas impostas pelo Judiciário a Bolsonaro por não usar máscara em suas aparições públicas em São Paulo durante a pandemia. No total, essas multas somam R$ 936.839,70. Por enquanto, o infrator não pagou um mísero tostão. Com a conta bancária abarrotada, o capitão faz piada: “Dá para pagar todas as minhas contas e ainda sobre dinheiro para tomar um caldo de cana e comer um pastel com dona Michelle”.

Os organizadores da campanha estimam que a coleta do Pix financiaria cinco séculos de pastel e caldo de cana para a família Bolsonaro. “Mais justo e nobre é dar um futuro digno” a crianças e adolescentes que perderam os pais na pandemia da “gripezinha”.

O erro dos reformadores é tentar transformar os maus em bons. O mundo pode melhorar no dia em que os bons tiverem suficiente maldade para impor sua bondade. É improvável que a campanha pela doação dos milhões transforme Bolsonaro num benfeitor social. Mas o constrangimento da exposição da hipocrisia do “mito” já seria, no caso do capitão, um extraordinário avanço.

Se um golpe falhou, o outro, para enriquecer, deu certo

Conto do vigário ou estelionato? O que melhor define a iniciativa de Bolsonaro de pedir doações em dinheiro, via Pix, para pagar multas, não pagá-las, investir em fundos de renda fixa e multiplicar por oito sua fortuna declarada à Justiça em 2022?

Em tom de deboche, Bolsonaro disse que o dinheiro é suficiente para pagar as multas, tomar caldo de cana e comer pastéis à vontade na companhia de Michelle, sua mulher.

Conto do vigário é uma expressão usada em Portugal e no Brasil significa uma história inventada para enganar alguém. O Artigo 171 do Código Penal diz que estelionato é enganar a vítima para obter algum tipo de vantagem, na maioria das vezes em dinheiro.

Lava-se dinheiro apelando por ajuda via Pix nas redes sociais. Os entendidos no assunto respondem que é possível sim. Lavagem de dinheiro é a prática corrente de fazer de conta que é legal o dinheiro obtido por meio de atividades ilegais.

Joaquim Roriz, que governou o Distrito Federal quatro vezes, renunciou ao mandato de senador em 2007 por ter descontado dois cheques, no Banco de Brasília, no valor de 2,2 milhões de reais. Os cheques pertenciam ao fundador da Gol, Nenê Constantino.

Roriz sempre argumentou que o dinheiro fora emprestado para a compra de embrião de uma bezerra de raça. No entanto, renunciou ao mandato logo após a denúncia. O caso ficou conhecido como “O escândalo da Bezerra de Ouro”. Lavagem de dinheiro.

Na semana passada, Nicolás Petro, filho mais velho de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, foi preso, acusado dos crimes de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. A ex-mulher de Nicolás, Day Vásquez, também foi presa pelo mesmo motivo.

No início deste ano, Vásquez acusou Nicolás de receber dinheiro de empresários que acreditavam estar contribuindo para a campanha presidencial do seu pai em 2022. Ela também garantiu que seu ex-marido era ligado a contrabandistas e narcotraficantes.

O crime não respeita fronteiras nem ideologias. Depois de perder a eleição, Donald Trump arrecadou 255 milhões de dólares em dois meses. Dizia que era para contestar o resultado das urnas. Gastou com isso um tico, embolsou cerca de 175 milhões.

É o conto do vigário ou estelionato perfeito, nos Estados Unidos e em toda parte. Aqui, Bolsonaro enganou a malta de patriotas que o segue com a conversa de que não poderia pagar multas no valor de menos de 1 milhão de reais. Os trouxas acreditaram.

Quando o crime compensa e enriquece quem o cometeu

O jornal O Estado de S. Paulo fez algumas comparações interessantes para que se tenha ideia do que significa a fortuna arrecadada por Bolsonaro para pagar multas por infringir a lei.

Os R$ 17,1 milhões equivalem a 8 vezes o valor do patrimônio declarado por Bolsonaro à Justiça Eleitoral no ano passado – R$ 2, 3 milhões. Que tal? De repente, ficou mais rico.

Os R$ 17,1 milhões dariam para financiar 142 vezes a campanha que em 2020 elegeu Carlos Bolsonaro (Republicanos) vereador, o problemático filho Zero Dois do ex-presidente.

Os R$ 17,1 milhões pagariam 24 vezes o que Flávio (PL) diz ter gastado para se eleger senador em 2018; e 21 vezes o que Eduardo (PL) diz que gastou para se eleger deputado em 2022.

Com R$ 17,1 milhões, Bolsonaro compraria 3 vezes as joias que ele e Michelle receberam supostamente de presente do governo da Arábia Saudita. Generosos sauditas. Presente em troca de nada.


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