Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Poder

Bolsonaro cogita fuga, mas autoridades italianas já avisaram que ele será extraditado

PF quer deixar ex-presidente ‘sangrar’ antes de pedir prisão a Moraes

Publicado em 21/08/2023 9:31 - Leonardo Sakamoto, Jamil Chade e Janaina Cesar (UOL), Yurick Luz (DCM), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Fábio Vieira/Metrópoles

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Bolsonaro não consegue esconder publicamente o medo de ser preso. Ele pode não confessar com todas as palavras de forma objetiva, mas seu inconsciente grita pedindo socorro e reforça que a possibilidade de fuga é real.

Tivemos mais um exemplo disso, na sexta (18), em evento do qual participou em Goiás. “Estive três meses nos Estados Unidos, no estado da Flórida, realmente um estado fantástico. Mas apesar de ter sido acolhido muito bem, não existe terra igual a nossa. Sei dos riscos que corro em solo brasileiro, mas não podemos ceder”, afirmou.

A declaração ocorre em meio a dúvidas sobre a confissão do tenente-coronel Mauro Cid, seu ex-ajudante de ordens, sobre o escândalo das joias dadas por governos árabes ao Brasil que foram surrupiadas e vendidas por aliados para a glória financeira de Bolsonaro.

Jair havia fugido para a Disney dois dias antes do término do seu mandato. Não queria passar a faixa presidencial para Lula, mas, principalmente, desejava um álibi para o ataque às sedes dos Três Poderes, que ocorreria no 8 de janeiro – do qual tinha conhecimento porque foi o principal incitador.

Ou seja: ligando o passado ao futuro, ele falava de uma fuga que havia realizado para tratar de uma fuga que é uma de suas opções para evitar uma prisão.

E, como já disse aqui várias vezes, Bolsonaro não tem cara de que, como Lula, aguenta o tranco de uma prisão por longo prazo.

Bolsonaro tem um medo estrutural de passar uma temporada no xilindró. Seus comentários sobre isso não são apenas estratégia para deixar seus seguidores prontos para quando ele os chamar às ruas em atos golpistas. É o seu inconsciente gritando que há uma assombração rondando seu sono – e, definitivamente, não é o “fantasma do comunismo”.

Não é à toa que, ao longo do seu mandato, tenha se comparado diversas vezes à ex-presidente da Bolívia, Jeanine Añes, condenada por um golpe de Estado em 2019. Ela foi julgada junto com ex-chefes militares. Olha que coincidência.

Bolsonaro poderia ter se comparado a qualquer estadista com grandes feitos. Preferiu uma pessoa acusada e sentenciada por golpe. Pelo menos, temos que admitir que a autocrítica do presidente fala mais alto que seus delírios de grandeza.

“A turma dela perdeu, voltou a turma do Evo Morales. O que aconteceu um ano atrás? Ela foi presa preventivamente. E agora foi confirmado dez anos de cadeia para ela”, disse em junho de 2022.

E foi além: “Qual a acusação? Atos antidemocráticos. Alguém faz alguma correlação com Alexandre de Moraes e os inquéritos por atos antidemocráticos? Ou seja, é uma ameaça para mim quando deixar o governo?”

No dia 27 de abril, a ex-presidente da Bolívia já havia aparecido em um discurso de Bolsonaro no Palácio do Planalto. “Tenham certeza eu jamais serei uma Jeanine, jamais, porque primeiro eu acredito em Deus e depois acredito em cada um de vocês que estão aqui. A nossa liberdade não tem preço, digo mais, como sempre tenho dito: ela é mais importante que a nossa própria vida, porque um homem, uma mulher sem liberdade não tem vida”, disse.

Percebam que não é a liberdade dos brasileiros que estava em jogo para ele, mas a dele. E pediu ajuda aos seus aliados presentes: “acredito em cada um de vocês que estão aqui”.

Em junho de 2021, quando a ex-presidente já estava presa, Bolsonaro também tratou do assunto a seus seguidores. “O que aconteceu na Bolívia? Voltou a turma do Evo Morales e, mais ainda, a presidente que estava lá no mandato tampão [Jeanine Añez] está presa, acusada de atos antidemocráticos. Estão sentindo alguma semelhança com o Brasil?”, disse.

Portanto, o discurso de Bolsonaro não envolve apenas uma questão política, nem tampouco só de caráter criminal. Também é psicanalítica. Seria saudável que o ex-presidente procurasse ajuda. Clínica.

Para a Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal, contudo, o inconsciente do ex-presidente dá uma dica valiosa: “apreendam meu passaporte, depois não digam que eu não avisei”.

Autoridades italianas: Bolsonaro será extraditado se tentar fugir ao país

Deputados da Itália e fontes do Ministério da Justiça do país europeu alertam que, no caso de uma eventual fuga do ex-presidente Jair Bolsonaro e mesmo se ele conseguisse uma cidadania italiana, Roma poderia extraditá-lo ao Brasil.

No sábado, o UOL revelou que membros do governo brasileiro e na Justiça já monitoram um eventual risco de fuga por parte de Bolsonaro. Isso diante das revelações sobre seu papel na venda de joias recebidas como presentes e das acusações sobre sua manobra na questão das urnas.

Ao UOL, membros da alta cúpula do Executivo indicaram que a fala recente do ex-presidente de que “correria risco” no Brasil soou como um sinal de alerta. No STF (Supremo Tribunal Federal), a percepção vai na mesma direção.

Em 2021, Bolsonaro recebeu a cidadania honorário no norte da Itália. Mas tal iniciativa não garante qualquer acesso ao país europeu e não passa de uma homenagem feita pela cidade de seus antepassados. Mesmo assim, o gesto da prefeitura liderada pela extrema direita gerou protestos e um processo foi instaurado para tentar derrubar o título concedido ao brasileiro.

Um dos temores era de que, com essa iniciativa, um eventual pedido de nacionalidade estrangeira poderia ser facilitado.

Angelo Bonelli, deputado do partido Europa Verde, foi claro quanto à disposição de seu país de receber o brasileiro. Questionado se ele seria bem-vindo na Itália, ele respondeu:

Absolutamente não. A Itália se tornaria responsável por uma piora nas relações com o Brasil com uma pessoa que favorece uma tentativa de golpe. Acho que a população italiana não gostaria disso, mas é a minha avaliação. Como a Itália pode conceder cidadania a alguém acusado de crimes graves no Brasil?

Bonelli, ainda no ano passado, apresentou um questionamento oficial para saber se o governo concederá cidadania a Bolsonaro.

Fabio Porta, deputado do Partido Democratico (Circunscrição eleitoral América do Sul), ainda explicou que não existe no momento “novidades sobre um possível pedido de cidadania italiana feita por Bolsonaro, mas somente pelos filhos”.

Mas ele também descarta que essa nacionalidade possa ser usada de escudo.

“No caso de uma possível fuga dele para Itália, o Brasil poderia sempre pedir a extradição. Não é que a cidadania lhe conceda proteção para tudo”, disse. “Mesmo diante do governo de direita que temos agora não creio que a Itália, nem mesmo se fosse o governo de esquerda, tenha vontade de entrar no meio de uma questão dessa”, afirmou.

Fonte do ministério da justiça italiana diz que mesmo que haja a cidadania, “Bolsonaro poderá ser preso e extraditado ao Brasil.”

PF quer deixar Bolsonaro “sangrar” antes de pedir prisão a Moraes

Se depender dos investigadores da Polícia Federal, o ex-presidente Jair Bolsonaro ainda vai “sangrar” politicamente por bastante tempo, por algumas razões, ao invés de ser preso. A informação é da colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.

Segundo a PF, haveria duas formas de prender Bolsonaro. A primeira delas seria a prisão preventiva, uma vez que o ex-mandatário não foi nem indiciado, nem denunciado e muito menos condenado.

No entanto, para decretar a prisão preventiva de alguém é preciso que se tenha evidência de que a pessoa está obstruindo ou que pode obstruir as investigações. De acordo com policiais federais envolvidos no caso, até existem evidências disso, mas não seriam fortes o bastante para sustentar um pedido de prisão preventiva.

A Procuradoria Geral da República (PGR) é outro obstáculo da PF, uma vez que é o órgão que opina sempre que um pedido de prisão é feito e que, atualmente, não tem dado aval às iniciativas da PF.

Os pareceres da subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo têm sido favoráveis ao lado de Bolsonaro. Mesmo o ministro Alexandre de Moraes, do STF, os ignorando, a PF avalia que, para prender um ex-presidente, é preciso ter no mínimo um consenso entre os órgãos que participam da investigação.

Vale destacar que Lindôra é tida como aliada do clã Bolsonaro e pessoa de confiança do PGR, Augusto Aras. Por conta disso, interlocutores de Moraes tem afirmado, nos bastidores, que não vão pedir o indiciamento de Bolsonaro e nem denunciá-lo ao STF antes do final do mandato de Aras, no final de setembro.

As duas medidas estão em preparação, porém, só serão tomadas após a troca na PGR. Até que um novo procurador-geral assuma, a ideia é manter o cerco a Bolsonaro. Com isso, os investigadores esperam não só reforçar a coleta de provas como atrair potenciais delatores nos casos envolvendo o ex-capitão.

Melhor Bolsonaro acostumar-se com a ideia de ser preso

Colegas do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral compartilham a impressão de que ele está dando um tempo para as pessoas se acostumarem à ideia de que Bolsonaro será preso. E então, para surpresa de ninguém, muito menos de Bolsonaro, o prenderá.

Em Goiânia no último fim de semana, Bolsonaro admitiu que em território brasileiro poderá acabar atrás das grades. Não foi conversa jogada fora só para vitimar-se e despertar a ira dos seus seguidores. Ele sabe o que fez. E sabe que Moraes também sabe. É o que Bolsonaro tem ouvido dos seus próprios advogados.

Os bolsonaristas, por ora, recolheram-se ao silêncio nas redes sociais, e nas ruas limitam-se a tocar a vida, sem indicações de que se revoltarão de novo. Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, que havia saído de cena desde o final do ano passado, voltou e está irritado com sua antiga tropa. Tenta orientá-la. Escreveu no Twitter:

“Parem com esse negócio de prisão. Parecem aqueles caras que amam viver a síndrome de Estocolmo. Se quer ajudar, desconstrua a narrativa e não fique correndo atrás de cliques ou lacrações para se sentir importante validando a dor que o adversário sente prazer em fazer você sofrer.”

Não disse como desconstruir “a narrativa”. Carlos é muito bom em construir e desconstruir narrativas, mas parece cansado, sem ânimo. Afastou-se do pai porque ele não lhe deu a merecida atenção na campanha eleitoral de 2022. Carlos discordou dos conselhos dados a Bolsonaro por marqueteiros profissionais.

A tampa do alçapão fechou sobre Bolsonaro. Ele não tem para onde ir. É investigado nos Estados Unidos, onde as joias que subtraiu ao tesouro nacional foram vendidas e compradas para esconder o crime afinal descoberto. Fugir para lá seria arriscar-se a ser preso pelo FBI, muito mais severo do que a Polícia Federal.

Não tem cidadania italiana, como muitos imaginam, que lhe permita evadir-se para a terra dos seus ancestrais. Venezuela? Naturalmente, nem pensar. Acionado por Trump, presidente americano à época, Bolsonaro pensou em invadir a Venezuela. Mas a munição aqui estocada não daria para 24 horas de guerra.

Bolívia? Pode ser uma alternativa. Mas é um país pobre, e Bolsonaro gosta de conforto, riqueza e boa vida. O Paraguai, talvez. Moraes lambe os beiços enquanto espera o sinal de que Bolsonaro pretende fugir. A Polícia Federal monitora os seus passos. Vá, Bolsonaro, dê motivo para ser preso, além dos que já deu.

O Brasil precisa mudar de assunto e voltar à normalidade política. Fora os que rezam em torno de pneus, os que brincam de marcha soldado e a República da Muamba e dos Camelôs que negociam joias roubadas, quem mais lamentará a sua sorte? Nem os militares – salvo os que estão e ainda serão presos.

Rolex entregue a Bolsonaro foi feito sob encomenda, diz perito

O Rolex recebido de presente por Bolsonaro foi feito sob encomenda, de acordo com o perito que analisou a peça na Polícia Federal. As informações são do Fantástico, da TV Globo.

O que aconteceu:

O governo Bolsonaro recebeu kits de joias feminino e outros dois masculinos, sendo um de ouro branco e outro de ouro rosé. Os conjuntos incluíam caneta, abotoaduras, anel, rosário islâmico e relógio.

O Rolex, que faz parte do kit de ouro branco, tem uma luneta (parte ao redor da peça) com 184 diamantes, e no mostrador (feito em madrepérola) as pedras preciosas ficam no lugar que seriam dos números. As peças masculinas, assim como as femininas dos kits recebidos, têm diamantes. A caneta de diamantes do kit de ouro branco, que custa R$ 100 mil, tem 1.120 pedras cravadas.

Relógios de alta precisão contam com pedras preciosas no mecanismo interno, como os rubis presentes no Rolex, já que as pedras não enferrujam. O relógio, como mostrou a perícia, também tem diversas camadas de segurança, desde números de série a símbolo gravados na peça, que comprovam a autenticidade dos itens.

O relógio mais caro dos kits é o rosé, da marca Chopard, avaliado em R$ 695 mil. A peça foi recebida em outubro de 2021 durante viagem do então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, à Arábia Saudita. “Foram produzidos somente 25 unidades [desse relógio]”, disse Wilson Akira Uezu, afirmando que “com certeza” o número pequeno de peças produzidas aumenta o valor.

“Esse [o Rolex] é um relógio feito sob encomenda, de uma série especial e tem um calibre, mecanismo especial, para ele. Nesse caso foi muito fácil a gente identificar o relógio.” – Wilson Akira Uezu, perito criminal federal

Entenda o caso:

O kit de ouro branco foi entregue a Bolsonaro em viagem à Arábia Saudita em 2019. As peças foram desmembradas e reunidas novamente apenas na perícia feita pela Polícia Federal.

Em 2022, os kits foram levados para fora do país em voo oficial. Na Pensilvânia, nos Estados Unidos, o tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, vendeu o Rolex e outro relógio, da marca Patek Philippe. Este último tem a origem incerta. Os dois itens foram vendidos por US$ 68 mil, porém, apenas o Rolex foi avaliado em US$ 75 mil pela Polícia Federal.

O dinheiro recebido pela venda foi depositado na conta do pai de Cid, general Mauro Lourena Cid, nos EUA, e enviado aos poucos para o Brasil.

Já o kit de ouro rosé foi para uma casa de leilões em Nova York, onde foram resgatados em março pelo grupo do coronel Cid e entregues ao TCU (Tribunal de Contas da União).

Advogado de Bolsonaro, Frederick Wassef foi atrás de recomprar os relógios vendidos, mas conseguiu readquirir apenas o Rolex. A outra peça continua desaparecida.

À emissora, o advogado de Cid, Cezar Roberto Bittencourt, disse ontem que o cliente não sabia que era ilegal vender as joias. “Acho que é um desconhecimento das regras normais. Claro, principalmente, para vender no exterior, que é uma coisa diferente.”

“Ele [Cid] retirou o dinheiro e destinou a quem era de direito, a família presidencial, o presidente, a primeira-dama”, disse o advogado de Cid, que afirmou que o cliente falará quando for autorizado por ele, já que o tema é uma “coisa perigosa” para a segurança dele e seus familiares. Em cooperação internacional, o FBI ajudará a investigar as contas e movimentações dos envolvidos no caso das joias.

Uma fonte da PF confirmou à emissora que no celular de Cid, a PF achou mensagem do ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, que indicam que o ex-presidente sabia das tentativas de Cid vender e depois resgatar as joias. A mesma fonte ainda apontou que a corporação está identificado outros presentes de alto valor dados pela Arábia Saudita aos membros do governo.

Procurados pela emissora, a defesa do pai de Mauro Cid preferiu não se manifestar. Já o advogado do ex-presidente anunciou que assumirá a defesa de Michelle Bolsonaro e não irá se pronunciar no momento sobre a ex-primeira-dama. Os advogados do ex-ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque afirmaram que se manifestaram aos fiscais da Receita Federal, em Guarulhos. Frederick Wassef não retornou à solicitação da emissora.

Joias para Michelle

O primeiro conjunto analisado pela Polícia Federal foi o de joias femininas, destinadas à então primeira-dama Michelle Bolsonaro. Os itens, que deram origem à investigação no caso, foram apreendidas no Aeroporto de Guarulhos, na bagagem de um dos integrantes do ministério de Minas e Energia, em outubro de 2021, na volta de uma viagem à Arábia Saudita. Dentro da bagagem também havia uma escultura de cavalo, que se quebrou no transporte — não tinha nada dentro da peça, que foi produzida em uma loja de presentes na Itália.

As joias enviadas a Michelle contam com diamantes de tamanhos diferentes, nos formatos de coração, redondos e até gotas.

Apenas no conjunto de um colar enviado à Michelle, a perícia apontou 3.161 diamantes. E cada um foi avaliado individualmente, gema por gema, para descobrir o quilate deles. O valor estimado do colar é de R$ 4.150.584,00. A caixa de joias do colar ainda conta com um relógio todo de diamantes, da pulseira ao mostrador, avaliado em R$ 1 milhão.

“Cada diamante é único, então, a gente teve que tratá-los de forma única. [São diamantes de boa qualidade?] Nossa, são de excelente qualidade. (…) Elas não são joias comerciais, até onde eu sei, não estão no catálogo da empresa, são exclusivas.” – Fernanda Claas Ronchi, perita criminal federal

Joias milionárias em troca de serviços prestados aos sauditas

Os Bolsonaro evoluíram. Foi sob o estigma da rachadinha que a família subiu a rampa do Palácio do Planalto pela primeira vez em janeiro de 2019. Carlos, o filho Zero Dois, carregava um revólver na cintura. Desfilara armado em carro aberto ao lado do pai pela Esplanada dos Ministérios repleta de camisas amarelas.

Foi sob o estigma do roubo de joias milionárias doadas pela ditadura da Arábia Saudita ao Estado brasileiro que o patriarca dos Bolsonaro e sua encantadora mulher fugiram do país em 30 de dezembro último. O golpe planejado para aquele mês fracassara porque o Alto Comando do Exército dividiu-se na hora de apoiá-lo.

Todos os generais eram bolsonaristas, uns mais do que os outros. Ajudaram a eleger Bolsonaro presidente, ajudaram-no a governar e se beneficiaram disso, ajudaram-no a se reeleger, mas uma parcela não estava disposta a arriscar a carreira participando de um golpe que poderia não dar certo, como não deu.

A apropriação de parte dos salários pagos a funcionários dos Bolsonaro, a tal da rachadinha, foi ofuscada pelo escândalo das joias. Rachadinha é uma invenção antiga. Sempre existiu e continuará existindo. No caso, fez diferença porque nunca um presidente fora acusado de valer-se dela para enriquecer.

As joias, pelo seu valor excepcional, contam uma história que a Polícia Federal corre atrás. Foi recompensa por relevantes serviços prestados por Bolsonaro aos sauditas, mas ainda ocultos? Foi pagamento adiantado por serviços a serem prestados tão logo ele se reelegesse? Uma espécie de aposta no mercado futuro?

Apenas o conjunto de joias destinado a Michelle foi avaliado em R$ 4.150.584. E tem mais na caixa de joias, como um relógio todo de diamantes, da pulseira até o mostrador, e avaliado em R$ 1 milhão. Observa uma perita da Polícia Federal ouvida pelo “Fantástico”, programa da Rede Globo de Televisão:

“E não é só a qualidade dos diamantes que conta. É também a quantidade, porque não são dezenas ou centenas. São milhares. Só no conjunto que tem o colar, a perícia identificou 3.161 diamantes, cada um avaliado individualmente.”

As peças masculinas também têm diamantes. Na caneta de ouro branco, eles são pequeninos, mas muitos: 1.120, o que deixa o valor da peça em R$ 100 mil. O Rolex, que faz parte do kit ouro branco, tem 184 diamantes. No mostrador de madrepérola, as pedras substituem os números. E há rubis até no mecanismo interno.

Em 2022, os kits masculinos de joias foram levados para os Estados Unidos em voo oficial. Na Pensilvânia, o tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, vendeu o Rolex e outro relógio da marca Patek Philippe. Os dois itens foram vendidos por US$ 68 mil. Só o Rolex valia US$ 75 mil..

O dinheiro apurado foi depositado na conta do pai de Cid, general Mauro Lourena Cid, que morava em Miami, e enviado aos poucos para o Brasil. O kit de ouro rosé foi para uma casa de leilões em Nova York, onde foi resgatado em março pelo grupo do coronel Cid e entregue ao Tribunal de Contas da União.

Acredite se quiser: o advogado de Cid, Cezar Roberto Bittencourt, afirma que seu cliente não sabia que era ilegal vender as joias. Não sabia mesmo:

“Ele [Cid] retirou o dinheiro e destinou a quem era de direito, a família presidencial, o presidente, a primeira-dama”.

A Polícia Federal encontrou uma mensagem no celular de Cid, o filho, que indicam que Bolsonaro sabia das tentativas do seu ajudante de ordem de vender e depois resgatar as joias. À CNN Brasil, o próprio Bolsonaro já confessou:

“Alguém falou que poderia vender. Aí eu falei: faz aí, mas dentro das quatro linhas. Se pode vender, então vende”.

Que pena STF dará a roubo de joia se confirmar 2 anos para furto de macaco?

Dois homens furtaram um macaco velho de carro, dois galões de plástico vazios e menos de um litro de óleo diesel e foram condenados, um a 10 meses e 20 dias, outro a 2 anos e 26 dias de prisão. O caso está no STF e o ministro Cristiano Zanin, relator de um recurso da Defensoria Pública da União (DPU), votou por confirmar a condenação, em julgamento virtual iniciado na sexta (18). Um Brasil que cumpre a lei? Não, um país desigual e disfuncional.

Não importa que isso vá ao encontro de jurisprudência da corte, como apontou o magistrado. Esse tipo de decisão aponta um Judiciário mais interessado em promover vingança do que agir de forma racional e garantir, de fato, Justiça e precisa ser rediscutida.

Manter alguém penalizado dessa forma por conta de um furto de valor tão insignificante, além do claro custo social e humano, representa um peso aos cofres públicos. Cadeia deveria ser usada como último recurso, para quem representa um perigo, e não a principal alternativa de punição e ressocialização adotada. Uma pessoa que for mandada à prisão por causa de um macaco sairá de lá com ódio da sociedade e do Estado. E utilizando o que aprendeu nessa escola de crime, irá à desforra.

Zanin, indicado recentemente à corte pelo presidente Lula, diz que as condutas dos réus “denotam total desprezo pelos órgãos de persecução penal, como se as suas condutas fossem criminalmente inalcançáveis”. Mas, até onde sabemos, o STF deveria ser o “adulto na sala”, respondendo com bom senso.

Se o contexto não puder ser considerado, se a única coisa que importar for a análise da letra fria da lei, então melhor trocar magistrados por Inteligência Artificial. Pois tanto a IA quanto escolas de direito não raro são programadas sob o ponto de vista de homens brancos e ricos.

Prender alguém por conta de dois quilos de carne não vai ajudar em sua reinserção social ou mesmo evitar novos furtos. Mesmo a abertura de um processo é, a meu ver, acintoso, pois força o Estado a gastar tempo, recursos humanos e dinheiro em algo cuja solução não passa pela cadeia. Imagine se ao invés de um pedido de pena privativa de liberdade, desde o começo, fossem propostas horas de prestação de serviços à comunidade ou a obrigatoriedade de frequência em algum curso.

Ninguém está defendendo quem erra ou comete crimes. O que está em jogo aqui é que tipo de Estado e de sociedade que estamos nos tornando ao acreditarmos que punições severas para coisas ridículas (mesmo reincidentes) têm função pedagógica.

Se a Justiça quiser coibir furtos pelo exemplo, deve continuar investindo em reunir as provas para condenar quem surrupia joias milionárias do patrimônio público, vende para ricaços nos Estados Unidos e embolsa a grana. Ou que desvia o dinheiro de salários de servidores públicos de seu gabinete através de rachadinhas e fica com o dinheiro. Ou usa o cartão corporativo da Presidência da República como caixa eletrônico pessoal.

Vale ressaltar que o elemento de periculosidade, que precisa definir quem vai para a cadeia, está presente. Por exemplo, na cumplicidade em mais de 700 mil mortes durante a pandemia.

Um naco da extrema direita dá duro nas redes sociais para minimizar que Jair Bolsonaro teria surrupiado produtos de luxo dados ao Brasil. Ironicamente, o grupo é o mesmo que costuma celebrar quando alguém que furtou um bife por causa da fome é espancado no supermercado.

No final do ano passado, dois homens foram torturados por cinco seguranças do supermercado UniSuper, em Canoas (RS), diante do gerente e do subgerente da loja, após tentarem furtar duas peças de carne. Vítima das piores agressões, um homem negro foi colocado em coma induzido no hospital com fraturas no rosto e na cabeça. Em abril de 2021, um tio e um sobrinho, que furtaram carne de uma unidade do Atakadão Atakarejo, em Salvador, foram encontrados mortos com sinais de tortura e marcas de tiro.

E o que há em comum em todas elas, além de um país definido pelo racismo em todos os níveis de suas relações sociais? Quem monitora as redes sociais e aplicativos de mensagens sabe que, em todos os casos, foram constantes as celebrações quando alguém que furtou comida é morto em redes da extrema direita. “Bandido bom é bandido morto”, dizem.

Particularmente discordo. Como já disse aqui, prefiro que Jair Bolsonaro responda à Justiça por afanar patrimônio da União e não ao justiçamento miliciano que ele mesmo fomentou. E cumpra a pena proporcional ao tamanho de seus crimes.

Mas nunca é demais perguntar: se o STF confirmar uma pena de até dois anos em semiaberto para um homem que furtou um macaco velho, dois galões de plástico vazios e menos de um litro de óleo diesel, qual terá que ser a pena para alguém que desviou joias milionárias do patrimônio público usando militares e estrutura do governo e depois as vendeu a ricaços no exterior?


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *