23/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro chora e faz ‘mimimi’ diante da fraude da vacina

MP comprova rachadinha em gabinete e Carluxo pode ser o primeiro do clã a ir pra cadeia

Publicado em 04/05/2023 10:55 - DW, Leonardo Sakamoto, Josias de Souza e Jamil Chade (UOL), Ricardo Noblat (Metrópoles), Fórum – Edição Semana On – Edição Semana On

Divulgação Créditos: Alan Santos/PR

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O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha “plena ciência” da fraude em sua carteira de vacinação. A afirmação é feita em relatório da Operação Venire, da Polícia Federal (PF). O órgão reitera, inclusive, que existem provas de que o ex-presidente sabia da inserção fraudulenta dos dados de vacinação.

A corporação diz ainda que a fraude pode “ter sido realizada com o objetivo de gerar vantagem indevida para o ex-presidente relacionada a fatos e situações que necessitem de comprovante de vacina contra a covid-19”. Bolsonaro e aliados sempre rejeitaram os imunizantes.

A tese é corroborada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em seu despacho ele escreveu considerar “plausível, lógica e robusta” a hipótese de que o ex-chefe do Executivo, “de maneira velada”, procurou “eventuais vantagens advindas da imunização, especialmente considerado o fato de não ter conseguido a reeleição”.

Os documentos teriam servido para burlar restrições sanitárias impostas por Brasil e Estados Unidos, de acordo com os investigadores. No esquema, operado de Duque de Caxias, município fluminense governado por um aliado do ex-presidente, foram beneficiados sua filha Laura, de 12 anos, o tenente-coronel Cid, suas filhas, além dos assessores Max Guilherme e Sergio Cordeiro.

A PF informa que, no dia 21 de dezembro, foram lançados no sistema do Ministério da Saúde registros de duas supostas doses em nome de Bolsonaro. As aplicações datam de agosto e outubro de 2022. Seis dias após o lançamento, os dados foram excluídos. Já o certificado de Laura foi emitido em inglês pelo aplicativo ConecteSUS no dia 27 de dezembro. No fim do ano, a família embarcou para os Estados Unidos.

Objetivo da fraude

Segundo a investigação, o esquema fraudulento tinha como objetivo garantir que Bolsonaro e membros do círculo, incluindo sua filha e vários assessores e os familiares destes pudessem entrar nos EUA. Bolsonaro se notabilizou durante a pandemia por declarar publicamente que não tomaria a vacina e por espalhar desinformação sobre os imunizantes.

Pelas regras que entraram em vigor nos EUA desde 2021, a entrada a partir do exterior de viajantes não cidadãos e não residentes no país só é permitida com a apresentação de comprovante de vacinação. Recentemente, o governo americano informou que deve acabar com a exigência a partir de 11 de maio de 2023.

“Com isso, tais pessoas puderam emitir os respectivos certificados de vacinação e utilizá-los para burlarem as restrições sanitárias vigentes imposta pelos poderes públicos (Brasil e Estados Unidos) destinadas a impedir a propagação de doença contagiosa, no caso, a pandemia de Covid”, diz a PF.

Ainda segundo a PF, o grupo teria como objetivo “manter coeso o elemento identitário em relação a suas pautas ideológicas, no caso, sustentar o discurso voltado aos ataques à vacinação contra a covid-19”, no que parece uma referência às ações do ex-presidente durante a pandemia, caracterizadas por sabotagem a medidas de prevenção, oposição à vacinação e campanhas de desinformação sobre a doença.

Mimimi

O mesmo Jair Bolsonaro que, em 4 de março de 2021, afirmou “chega de frescura, chega de mimimi, vão ficar chorando até quando?” a uma sociedade que pranteava seus mortos pela covid-19, chorou, na quarta (3), quando falou sobre uma operação de busca e apreensão em sua casa. A Polícia Federal investiga fraude exatamente em seu registro de vacinação contra covid, o que permitiu que ele viajasse aos Estados Unidos. Sim, o mundo não gira, capota.

Apelando ao vitimismo, Jair tentou convencer que é alvo de um complô e de um esculacho. Em entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, chorou ao comentar que os agentes da PF fotografaram o cartão de imunização de sua esposa, Michelle. “Por que eu fico emocionado? Mexer comigo, sem problema. Quando vai para esposa, filha, aí o negócio é desumano”, afirmou.

O mesmo político que diz isso é o que usou a conta da esposa para receber R$ 89 mil em cheques suspeitos de Fabrício Queiroz, que a envolveu no escândalo das joias árabes milionárias surrupiadas do patrimônio público, que a empurrou para a fogueira eleitoral a fim de conseguir votos dos evangélicos. Ou seja, foi ele quem a pôs em uma posição de protagonista. Deveria ficar indignado consigo mesmo.

Mais cedo, Bolsonaro já havia terceirizado a responsabilidade pelo cartão fraudado, dizendo que não sabe quem registrou a vacina em seu nome. Jogou, dessa forma, o peso da responsabilidade no tenente-coronel Mauro Cid. O seu ex-ajudante de ordens também foi seu companheiro de grandes aventuras. Como no caso das joias, nas lives negacionistas durante a pandemia, no pagamento de suas contas com dinheiro. Um arquivo-vivo.

Se ele não sabia que o registro foi forjado para que, convenientemente, pudesse viajar para os EUA, por que decretou sigilo de 100 anos sobre seus dados médicos antes de deixar o poder?

Bolsonaro gosta de encenar dois papeis: o de machão que bate e arrebenta, que fala que “a morte é o destino de todos” e diz a pessoas em luto pela covid para deixarem de “frescura e mimimi”, e o sujeito frágil que se vitimiza e chora diante das câmeras, sempre com pena de si mesmo. Conecta-se, dessa forma, a uma parcela do seu público fiel, que quer seguir, mas também dar colo a seu “mito”.

Jair Bolsonaro foi extremamente modesto ao afirmar, em entrevista ao Wall Street Journal, em fevereiro, que “uma ordem de prisão pode vir do nada”, quando ele voltasse ao Brasil do seu autoexílio nas cercanias da Disney. Uma ordem de prisão não virá do nada, pelo contrário, se vier será uma ação tardia, um ajuste de contas com os que morreram por causa dele e não estão mais aqui para exigir Justiça.

O capitão reformado poderia ter assumido o papel de comandante da maior guerra que o país já teve, articulando esforços nacionais em nome do bem comum. Possivelmente, sua popularidade estaria bem melhor e a reeleição garantida. Com medo que a economia atrapalhasse seus planos, empurrou a população para a rua. E se pegar a doença, pegou. E se morrer, morreu.

Pediu-se a Bolsonaro que ajudasse a combater o vírus. Não foi possível, ele não topou. Depois, que parasse de atrapalhar quem estava combatendo. Também não rolou. Então, restou pedir para que evitasse tripudiar da gente, que perdeu entes queridos para a doença. Deu de ombros e continuou a zoar com a morte.

Faço uma humilde sugestão a ele neste momento difícil: “chega de frescura, chega de mimimi, vai ficar chorando até quando?”

Vacina fake faz direita recalcular risco-Bolsonaro

Em política nada é mais equivocado do que ter certezas. Até o início da semana, uma convicção unânime animava os aliados de Bolsonaro. Estavam todos convencidos de que o capitão, encrencado com a Justiça Eleitoral, não conseguiria ser candidato em 2026, mas seria um fabuloso cabo eleitoral. O escândalo da vacinação fake antecipou o encontro da direita brasileira com o cálculo político.

Até os bolsonaristas mais petrificados passaram a fazer uma conta do tipo custo-benefício. Com a mesma naturalidade com que um garçom indaga no restaurante “com gás ou sem gás?”, o bolsonarismo passou a se perguntar: Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro?

A exemplo do que fez em escândalos anteriores, Bolsonaro ensaia a pose de vítima e a terceirização da culpa a Mauro Cid, o coronel faz-tudo. Mas a chance de êxito da estratégia é vista com ceticismo.

Avalia-se que permanece inalterada a disposição de algo entre 15% e 20% do eleitorado de acreditar em tudo o que Bolsonaro diz. Estima-se, porém, que os conservadores incrédulos tendem a intensificar a busca por líderes políticos que, como eles, já não acreditam em nada do que Bolsonaro faz e diz.

Valdemar Costa Neto e a cúpula do seu Partido Liberal ainda apostam que Bolsonaro será um bom cabo eleitoral para a disputa municipal de 2024. Mas cresce no centrão bolsonarista a percepção de que a construção de um projeto conservador para 2026 pode exigir um distanciamento do capitão. Na política, a solidariedade só vai até a beirada do poço.

Imaginava-se que Bolsonaro conseguiria adiar indefinidamente seu encontro com o fundo do poço. Quando parece que o lodo terminal foi tocado, um novo escândalo surge para informar que o percurso terá novas escalas.

Ao fundo do poço das rachadinhas seguiu-se o fundo do poço dos crimes sanitários, ultrapassado pelo fundo do poço da contestação das urnas, suplantado pelo fundo do poço dos acampamentos golpistas nos quarteis, excedido pelo fundo do poço da fuga para a Disney, humilhado pelo fundo do poço do 8 de janeiro, seguido pelo fundo do poço das joias árabes…

No enredo dessa tragicomédia em que Bolsonaro se afunda, a fraude dos cartões de vacina é apenas mais um estágio rumo às profundezas. Mas consolida-se a impressão de que tudo ao redor de Bolsonaro tem a aparência de epílogo. Por isso, um pedaço da direita começa a recalcular o “risco Bolsonaro”.

Aberta a temporada de entrega de cabeças para Bolsonaro salvar a sua

Foi um crime menor se comparado a deixar Manaus sem oxigênio por uma semana durante a pandemia da Covid, combater medidas de isolamento social porque o importante era salvar a economia, sabotar a compra de vacinas, vetar o fornecimento de água para indígenas e arquitetar o golpe para instalar uma ditadura.

Mas a falsificação do cartão de vacina de Bolsonaro, por sua mesquinhez, e a tentativa frustrada de apoderar-se de joias que entraram no país ilegalmente, por sua cobiça, são marcas indeléveis de um período em que uma corja de bandidos governou o Brasil e tudo fez para eternizar-se no poder. Quase conseguiu.

“Não existe adulteração da minha parte”, disse Bolsonaro no ato inaugural de mais uma entrega de cabeças desde que a sua fique no lugar. E quem seria capaz de adulterar seu cartão de vacinas à sua revelia ou sem sua autorização? A adulteração beneficiaria quem, senão ele e os seus parentes mais próximos?

A prisão do tenente-coronel Mauro Cid foi um duro revés para Bolsonaro, como antes fora a de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, guardião da minuta do golpe. Com aquela carinha de menino idiota, sempre disposto a realizar todas as vontades do chefe imediato, Mauro Cid poderia ser tudo, menos idiota.

Filho de um general que serviu ao Exército à época em que Bolsonaro planejou atentados a quartéis, o ajudante de ordens presidenciais mais famoso da história da República nunca foi um mero serviçal. Dava palpites em assuntos políticos, despertando ciúmes em seus pares, e influenciando decisões de Bolsonaro.

Assim como Carlos Bolsonaro, o Zero Dois, era dono das senhas do pai nas plataformas digitais, Mauro Cid era dono da conta bancária do ex-presidente. Era ele que sacava dinheiro para pagar despesas de Bolsonaro. Michelle sempre cuidou do seu próprio dinheiro. Bolsonaro admirava a sensatez e a esperteza do seu braço-direito.

Sensatez, não. Não é sensato quem encabeça uma operação de resgate de joias oferecidas por um governo estrangeiro ao governo do Brasil, e que seriam incorporadas ao patrimônio de um presidente de saída. Não é sensato quem cuida pessoalmente de negócios com meliantes para fraudar um cartão de vacina.

Entre as mensagens captadas pela Polícia Federal na investigação sobre a fraude há uma menção ao assassinato, no Rio, da vereadora Marielle Franco. A menção aparece numa conversa de Mauro Cid com o militar da reserva e miliciano Ailton Barros, que diz a certa altura: “Eu sei dessa história da Marielle toda, irmão. Sei quem mandou. Sei a coisa toda, entendeu?”.

O tenente-coronel, que estaria obrigado a dar ordem de prisão a quem diz saber a história de um crime não desvendado, não o fez. Sequer manifestou seu espanto. Mauro Cid está preso em uma das dependências do Exército, em Brasília. Ouvido pela Polícia Federal, calou-se. Ailton Barros também está preso, e calado.

Cresce a família de canários que teimam em não cantar.

Agência da OMS: fraude de certificado de vacina é ameaça para saúde pública

Jarbas Barbosa, diretor-geral da OPAS (Organização Pan-americana de Saúde e uma agência da OMS), pede que sistemas de informação que lidam com dados de saúde e vacinas sejam protegidos contra deturpações, invasões e falsificações. “Existem dados que jamais poderiam ser fraudados, pois são dados de saúde”, destacou.

Numa coletiva de imprensa nesta quinta-feira para a imprensa em Genebra, o brasileiro foi questionado sobre a suspeita de fraude no certificado de vacinação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Apesar de não responder sobre o caso específico e insistir que não comentaria a situação do país, Barbosa disse que a revelação pode ser uma oportunidade para que as autoridades brasileira revisitem o sistema e avaliem se a proteção aos dados precisa ser reforçada. Ou se o sistema é capaz de identificar rapidamente o autor da fraude.

Cauteloso, o brasileiro deixou claro que não entraria no caso específico de Bolsonaro. “Eu não posso fazer comentários sobre eventos políticos nos países da região”, justificou. “A organização, por pertencer ao sistema das Nações Unidas, temos todo o cuidado de manter a neutralidade de nossa atuação e a atuação focada em nossa missão, que no caso é apoiar os países no tema de saúde. Brindar cooperação técnica para que possam melhorar seus sistemas de saúde”, explicou o brasileiro.

Mas ele destacou como, nos últimos anos, a OPAS “apoiou os países das Américas para estabelecer protocolos digitais para o registro individual da vacina contra a covid-19. Protocolos que pudessem ser compartilhados”, disse. “Ou seja, quando uma pessoa fosse viajar de um país para outro, esse certificado digital poderia ser aceito”, afirmou.

Para Jarbas Barbosa, porém, o foco deve em garantir a proteção aos sistemas. “Como comentário geral, todo processo de registro de informações individuais de saúde deve ser protegido pelos gestores. Isso se trata não apenas de um direito individual de a pessoa ter seu registro médico. Mas também são informações – como no caso da vacina – que servem para a tomada de decisões por parte dos gestores”, insistiu.

“Esses sistemas de informação sobre saúde devem ser protegidos e jamais podem ser objeto de deturpações, invasões ou falsificações”, afirmou.

Barbosa indicou que, durante pandemia, a entidade recebeu informações da existência da venda de certificados de vacinas para quem queria viajar. Mas sua avaliação é de que essa foi uma prática “muito limitada”. “Não são muitas as pessoas que não querem ser vacinadas ou querem fraudar o sistema”, disse.

Ameaça de saúde

Em sua avaliação, existem duas dimensões quando o assunto é a fraude de certificados de vacinas.

“A falsificação de qualquer informação tem uma dimensão legal e deve ser investigada como qualquer tipo de fraude. Falsificar dados de saúde tem também uma implicação que é importante para saúde pública”, disse.

“Os tomadores de decisão precisam saber qual a realidade da cobertura de vacinas de uma cidade. Se se começa a incluir pessoas que não foram vacinas como se tivessem sido vacinadas, isso distorce os dados e traz um problema também de saúde pública”, alertou.

“É importante olhar o lado policial e legal, que é feito pela polícia e justiça. Mas é uma oportunidade de revisar se sistemas digitais da coberta vacinal estão protegidos. Se eles podem identificar uma fraude”, afirmou.

“Quando temos sistemas digitais, é importante ter todos os mecanismos de segurança implementados”, disse Barbosa. Para ele, essa é uma medida correta para proteger e poder ser auditado de forma eficiente.

Sua sugestão é de que o caso, neste momento no Brasil, seja utilizado como uma “oportunidade” para que o Ministério da Saúde avalie se a segurança do sistema precisa ampliado.

MP comprova rachadinha em gabinete e Carluxo pode ser o primeiro do clã a ir pra cadeia

O ex-presidente Jair Bolsonaro tem vivido alguns de seus piores dias. Além da possibilidade cada vez mais clara de ser preso por ter adulterado o seu cartão de vacinação e os da sua esposa Michelle Bolsonaro e de sua filha Laura, o que implica em diversos crimes, há outro caso atormentando a sua vida.

Ele já havia recebido a informação, junto com a cúpula do PL, seu partido, de que “está se fechando o cerco” da investigação que o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) conduz sobre o seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos).

De acordo com revelação do Globo de quinta-feira (4), há um laudo que comprova a prática de ‘rachadinha’ no gabinete do filho 02 na Câmara do Rio. Os próprios correligionários do ex-presidente não descartam um eventual pedido de prisão de Carluxo.

Jorge Luiz Fernandes recebeu um total de R$ 2,014 milhões em créditos provenientes das contas de outros seis servidores nomeados pelo filho “zero dois”.

Levantada pela equipe do Laboratório de Tecnologia de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro do Ministério Público do Rio (MP-RJ), a movimentação financeira é a prova mais consistente, obtida pela 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada, na investigação sobre suspeita de rachadinha no gabinete de Carlos na Câmara Municipal.

Pessoas próximas afirmam que o fato de ter sido alvo de buscas nesta quarta-feira, aumentou sua perturbação em relação ao filho, de acordo com confidências do próprio Bolsonaro.

Carlos Bolsonaro é suspeito de ser o chefe de um esquema de peculato na Câmara Municipal do Rio, por meio de ‘rachadinha’, ou seja, a retenção ilegal de parte do salário pago a funcionários públicos ligados a ele. Seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro, já foi alvo de uma investigação sobre o mesmo crime quando foi deputado estadual fluminense, mas as provas acabaram sendo anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Rachadinha de Carluxo segue tradição familiar

Na família Bolsonaro, quem sai aos seus não endireita. O Ministério Público do Rio de Janeiro colecionou evidências capazes de transformar em denúncia formal a suspeita de que o gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal é mais uma filial —com trocadilho— do conglomerado familiar da rachadinha. O diminutivo não atenua a gravidade do crime. É peculato.

Descobriu-se que o chefe de gabinete Jorge Luiz Fernandes, visto como uma espécie de segundo pai de Carluxo, recebeu algo como R$ 2 milhões em créditos provenientes de contas de seis servidores levados à folha do legislativo municipal pelo Zero Dois. Parte do dinheiro pagou contas do dono do gabinete.

A promotoria jogou luz sobre os calcanhares de vidro de Carluxo quando se descobriu que sete parentes de Ana Cristina Valle, ex-mulher de Bolsonaro e madrasta do vereador, foram empregados no gabinete, mas não compareciam ao trabalho.

O esquema mantém o método do patriarca. Político profissional, Bolsonaro desfrutou de 32 anos de mandatos. Elegeu três filhos, entre eles Carluxo. Juntos, construíram a holding da rachadinha. Passaram pelos gabinetes da família, entre ex-mulheres, parentes e laranjas, 102 pessoas que se deixaram extorquir, cedendo parte do salário.

A investigação sobre Carluxo começou em 2019, primeiro ano de Bolsonaro na Presidência. Por uma emboscada do azar, o inquérito amadurece depois que o pai do suspeito, fora do Planalto e crivado de processos, já não dispõe de poder para blindar o filho, como fez com o primogênito Flávio Bolsonaro.

Compreende-se agora o porquê de Carluxo ter propalado, dias atrás, que deixaria de administrar as redes sociais do pai. Ele passou a ter outras prioridades.


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