13/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro, Anderson Torres e a moda de culpar as drogas para fugir da PF

Bolsonaristas andam preocupados com possível delação do ex-ministro da justiça e o conteúdo das suas revelações bombásticas

Publicado em 01/05/2023 1:01 - Leonardo Sakamoto (UOL), João Filho (Intercept_Brasil), Ricardo Noblat (Metrópoles) – Edição Semana On

Divulgação Wilson Dias/Agência Brasil

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Após Jair Bolsonaro alegar estar doidão de morfina quando postou um vídeo golpista que atiçou a extrema direita, seu aliado Anderson Torres afirmou que contava com “grau de comprometimento cognitivo” devido a medicamentos quando entregou as senhas erradas de seu celular. Virou moda dizer estar chapado para escapar da Polícia Federal.

Jair usou a desculpa em depoimento à PF, na quarta (26), jurando que teria se enganado ao postar o conteúdo. Suspeita-se que ele está protegendo um dos filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, responsável por suas redes sociais e que não conta com foro privilegiado, nem status de ex-presidente.

Já a defesa Torres disse, na sexta (28), que as senhas do celular que ele usava quando comandava a Segurança Pública do Distrito Federal (e permitiu, através de sua inação, a depredação das sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro) foram – convenientemente – esquecidas devido ao efeito de psicoativos. Ele segue preso.

Mas não pode ser verdade? Ambos perderam há tempos o benefício da dúvida nesses inquéritos por terem atentado contra o Estado democrático de direito da forma mais dissimulada. Seria ótimo que estivessem fora de si quando golpearam a República, mas a triste verdade é que havia muita consciência do rumo que desejavam para o Brasil.

Muito antes das hordas vandalizarem o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF, em 8 de janeiro, antes mesmo dos trancamentos de rodovias para tentar evitar a posse de Lula (que ocorreram sob vistas grossas da Polícia Rodoviária Federal), a primeira tentativa de golpe foi executada no dia 30 de outubro, quando a PRF, sob as ordens do próprio Torres, criou bloqueios que dificultaram o deslocamento de eleitores, principalmente no Nordeste. Onde o petista tinha maioria.

Inquérito da Polícia Federal sobre o caso aponta que o setor de inteligência do Ministério da Justiça fez um levantamento dos locais onde o petista foi mais votado para subsidiar bloqueios de estradas no segundo turno. Não só isso, como Torres viajou à Bahia para pedir apoio da superintendência da PF local à ação da PRF. Não há relatos de que estivesse em um estado alterado de consciência quando fez isso.

Já como secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, ele deixou a estrutura do policiamento da Esplanada dos Ministérios frouxa e viajou para os Estados Unidos, onde teria se encontrado com Jair Bolsonaro, em autoexílio desde que havia deixado a Presidência. A PM, por conta de suas decisões, não foi capaz de conter os golpistas no 8 de janeiro.

Depois disso, ainda surgiu um documento de natureza golpista no armário de sua casa, guardado por burrice, certeza de impunidade ou, psicanaliticamente, uma vontade inconsciente de ser descoberto. Dava autoridade aos militares para atropelarem o Tribunal Superior Eleitoral e melar as eleições.

Como já repeti aqui várias vezes, sou contra a perversão do instrumento que ficou conhecido como “delação premiada”. Pessoas foram condenadas em praça pública durante a operação Lava Jato com base em confissões de criminosos que queriam salvar a si próprios, sem a preocupação de que os fatos fossem verdadeiros.

Feita a ressalva, faria bem à República e a ele mesmo que Torres contasse a verdade ao invés de mimetizar Jair Bolsonaro na desculpa das drogas. Não faz sentido manter a lealdade a um político conhecido por abandonar seus antigos aliados na beira da estrada quando eles não lhes são mais úteis.

Seria ótimo que a polícia e a Justiça aceitassem esse tipo de justificativa também de pessoas pobres suspeitas de cometer crimes, mas que não contam com equipes de caros advogados e assessores dedicadas integralmente às suas necessidades.

Da mesma forma, seria ótimo se um moleque que furta TV tivesse o mesmo tratamento que Jair, que surrupiou joias milionárias da União. Ele segue respeitado pelas forças de segurança, enquanto o moleque, não raro, nem chega vivo na delegacia.

Bolsonaristas andam preocupados com possível delação do ex-ministro da justiça e o conteúdo das suas revelações bombásticas

Nas últimas semanas, a tropa de choque bolsonarista intensificou os apelos para a soltura do golpista Anderson Torres, ex-secretário de Segurança do DF e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro. As notícias indicam que Torres está com depressão, 12 kg a menos e cogitando o suicídio.

O bolsonarismo correu para prestar solidariedade. Eduardo Bolsonaro se mostrou preocupado com a possibilidade de suicídio. E, de antemão, resolveu culpar a justiça caso venha a ocorrer. Um grupo de 40 senadores da base bolsonarista entrou com um requerimento junto ao STF para poder visitar o colega golpista na prisão.

Mas nem sempre foi assim. Logo que Torres foi preso, o clã Bolsonaro e sua base política ficaram caladinhos. Não deram o costumeiro chilique nas redes sociais nem prestaram apoio ao aliado. Parecia até que iriam largar mais um companheiro ferido na estrada — o que é uma praxe bolsonarista. Mas, agora, com a possibilidade de uma delação premiada tomando corpo, os bolsonaristas entraram no modo desespero.

O temor é mais do que justificado. Apesar dos advogados de Torres negarem, todos os sinais recentes indicam que um acordo de delação premiada pode acontecer. No mês passado, Torres dispensou o advogado indicado por Flávio Bolsonaro e escolheu um que está fora do círculo de influência do bolsonarismo. O ex-ministro também rejeitou a visita de senadores bolsonaristas. O afastamento de Torres do bolsonarismo pode ser uma estratégia da defesa para não politizar o caso. Ou também pode ser um sinal de que um acordo de delação premiada pode estar entrando no forno.

Assim que saíram as primeiras notícias de que Torres estava passando por uma depressão profunda, políticos próximos de Bolsonaro passaram a ligar semanalmente para os familiares de Torres para monitorar sua situação emocional. Fontes ouvidas pela CNN Brasil revelaram que Flávio Bolsonaro também tem insistido em marcar uma reunião com os familiares do preso, mas eles não querem.

Uma delação premiada de Anderson Torres pode ser a tampa do caixão do clã Bolsonaro. Ele foi um dos parceiros mais fiéis de Bolsonaro e dos seus filhos. Durante sua gestão no ministério da Justiça, Torres nomeou pessoas indicadas por Flávio e Eduardo para cargos na pasta. Torres se mostrou um aliado fiel especialmente na reta final do mandato, quando se intensificou o golpismo do governo. Privado da liberdade, deprimido e com muitos anos de prisão no horizonte, Torres é uma bomba relógio para Bolsonaro e o seu núcleo golpista. Além da possibilidade da delação premiada, há outra que também tira o sono dos bolsonaristas: uma convocação de Anderson Torres para a CPI do golpe.

O ex-ministro tem muito a dizer sobre as tramoias que culminaram com o 8 de janeiro. Ele é uma das peças principais do quebra-cabeça golpista. A sua participação não se resume à conivência com a invasão dos Três Poderes quando era secretário de Segurança do DF. Ela começou muito antes e suas digitais estão impregnadas em vários movimentos golpistas do governo Bolsonaro. Ainda em julho de 2021, Jair Bolsonaro anunciou que faria uma live revelações sobre fraudes nas urnas eletrônicas. Torres foi um dos protagonistas do teatro golpista. O então ministro participou da transmissão e leu trechos dos relatórios fajutos que divulgavam fake news sobre as urnas eletrônicas.

No ano passado, Torres agiu diretamente em outro ato antidemocrático: o bloqueio das estradas para impedir eleitores de Lula de votarem. Às vésperas do segundo turno das eleições, o ministro fez uma viagem à Bahia fora da agenda. Segundo fontes da PF que investigam o caso, a viagem aconteceu logo após a produção de um documento de inteligência do ministério com mapa detalhado dos locais em que Lula venceu o primeiro turno. Torres viajou num avião da FAB acompanhado do então diretor da PF, Márcio Nunes. O objetivo da viagem era o de pressionar o então superintendente regional, Leandro Almada, a atuar  na operação que barraria muitos eleitores de Lula de votar no segundo torno.

O documento que mapeou os eleitores foi elaborado por Marília de Alencar, uma delegada que trabalhava no ministério da Justiça. Quando Torres virou secretário de Segurança Pública do DF, essa mesma delegada foi nomeada como subsecretária de Inteligência da pasta. Ou seja, Marília, uma mulher de confiança de Torres, ocupava um cargo de inteligência à época dos atos golpistas de 8 de janeiro.

Sob a gestão de Torres, o ministério da Justiça se omitiu em relação aos acampamentos nos quartéis. Também não agiu quando a sede da PF em Brasília foi atacada por bolsonaristas, episódio que foi uma espécie de ensaio para o 8 de janeiro. Enquanto os golpistas colocavam fogo em carros e tentavam invadir a sede da PF, Torres jantava tranquilamente com sua família em um restaurante em Brasília, onde ficou por duas horas sem tomar qualquer ação.

Pouco antes do fim de semana dos ataques de 8 de janeiro, Torres largou o batente na SSP do DF e se mandou para os EUA para se encontrar com Bolsonaro, mesmo sabendo que aconteceria a invasão aos Três Poderes.

Além de tudo isso, ainda temos a cereja no bolo golpista: a minuta do golpe encontrada em sua casa com o passo a passo para a implementação de um estado de defesa para mudar o resultado das eleições.

Torres está sendo investigado por crimes como terrorismo, golpe de Estado e associação criminosa. Se for condenado, pode pegar até 26 anos de prisão. Está para chegar o momento em que Torres terá que decidir se amargará muitos anos na cadeia ou se irá detalhar os planos golpistas planejados por Bolsonaro em troca de benefícios que antecipem sua liberdade. Até agora, Anderson Torres tem demonstrado uma fidelidade imensa. Mas tudo tem um limite. Resta saber até onde vai essa fidelidade. Tudo indica que ela pode estar chegando ao fim.

O preso que intima a Justiça a soltá-lo imediatamente, do contrário…

Anderson Torres intima a Justiça: ou o soltam já ou ele se mata. Admite ficar preso em sua mansão no Lago Sul, de Brasília, e até usar tornozeleira eletrônica. Mas, numa sala do Batalhão da Polícia Militar no Guará, onde está há mais de 100 dias, de jeito nenhum.

Se continuar por lá e consumar-se o que seus advogados chamam de “maus pensamentos”, que a Justiça, depois, não diga que não foi avisada. Tudo o que Torres não quer é permanecer isolado, ou só deixar o isolamento quando convocado a depor na CPI do Golpe.

O caso de Torres, dono da minuta do golpe de 8/1 e de passarinhos bons de canto, está nas mãos do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. O mais provável é que Barroso mande uma junta médica para examiná-lo antes de decidir sua sorte.


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