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Poder
O que será dos golpistas à porta dos quartéis depois da posse do presidente eleito?
Publicado em 11/12/2022 10:58 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On
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Chegou aos ouvidos de Lula a sugestão de reduzir o tamanho da festa que haverá em Brasília em 1º de janeiro para marcar sua posse. Motivo? Não dar pretexto a retaliações de bolsonaristas revoltados. E também questões de segurança.
Os organizadores da festa, Janja, a primeira-dama, à frente, estimam que 250 mil pessoas estarão na Esplanada dos Ministérios para assistir ao desfile de Lula em carro aberto, à fala dele do alto do Parlatório, e à subida da rampa do Planalto.
Mais de 30 artistas participarão de shows ao longo do dia. A Polícia Militar do Distrito Federal, a Civil, a Polícia Federal e o Comando Militar do Planalto estão montando o mais rigoroso esquema de segurança jamais visto em uma posse presidencial.
Lula recusou a sugestão de reduzir o tamanho da festa.
Os arranjos golpistas
Bolsonaro elogiou o trabalho do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em seu discurso de diplomação, como presidente eleito, no dia 10 de dezembro de 2018. O contraste entre suas declarações naquele momento e o golpismo que fomenta agora confirma que, para Jair, a Justiça Eleitoral está certa quando ele vence e errada quando perde.
Luiz Inácio Lula da Silva e seu vice, Geraldo Alckmin, serão diplomados em cerimônia, nesta segunda (12), no TSE. A documentação confirma que venceram as eleições e estão aptos a tomar posse.
A dez quilômetros do tribunal, centenas de bolsonaristas permanecem na porta do quartel-general do Exército, em protestos de caráter golpista, instigados por Jair. Nas redes sociais e grupos de mensagens, prometem realizar protestos contra a diplomação do petista e provocar tumultos. Por garantia, a segurança será reforçada pelo governo do Distrito Federal.
Desde que recuperou seus direitos políticos, com a anulação de suas condenações, em abril de 2021, Lula nunca foi ultrapassado por Bolsonaro nas principais pesquisas eleitorais. Nesse período, o presidente intensificou os ataques contra as urnas eletrônicas, acusando-as de fraude sem apresentar nenhuma prova.
Há quatro anos, o tom era diferente. “Parabenizo aqui a família da Justiça Eleitoral pelo extraordinário trabalho realizado nas eleições de outubro do corrente ano”, afirmou Bolsonaro durante sua diplomação na sede do TSE.
Nos últimos dois anos, ele elegeu os chefes do TSE como inimigos públicos. Os ministros Luís Roberto Barroso e, principalmente, Alexandre de Moraes, foram sistematicamente atacados por ele e por seus aliados e seguidores.
Mas, naquela diplomação, houve até elogio aos ministros da corte. “A cada um de vocês, integrantes do TSE, dos tribunais regionais eleitorais, das Forças Armadas e do serviço exterior brasileiro, mesários, voluntários e tantos outros cidadãos que participaram das eleições, expresso meu muito obrigado”, disse.
Naquele evento, ele chorou, tal como chorou em uma cerimônia militar, no último dia, 5, chorando de alegria e tristeza por si mesmo. Não há relato, contudo, que tenha gasto uma lágrima pelas 690 mil vítimas da covid-19.
Não foi coincidência Bolsonaro ter quebrado o silêncio em que se escondeu desde que perdeu o segundo turno e ido conversar, na quinta (9), com apoiadores na porta do Palácio do Alvorada. Três dias antes da diplomação de Lula, ele alimentou o golpismo dos seguidores que estão acampados à frente de quartéis em todo o país.
“Muitas vezes vocês têm informações que não procedem, e pelo cansaço, pela angústia, pelo momento, passam a criticar. Tenho certeza entre as minhas funções garantidas na Constituição, é ser o chefe supremo das Forças Armadas”, disse. O estilo discursivo é claramente inspirado por seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro, especialista em atiçar a massa bolsonarista pelas redes.
Sem dar mais detalhes, Jair afirmou que “se algo der errado é porque eu perdi a minha liderança” e que “tudo dará certo no momento oportuno”. Disse ainda que “quem decide o meu futuro, para onde eu vou, são vocês; quem decide para onde vai as Forças Armadas são vocês”. E pediu que “cada um avalie o que pode fazer pelo país”.
Bolsonaro usou o discurso também para relembrar de todos os elementos simbólicos que permearam a relação com seus seguidores nos últimos anos. Falou do fantasma do socialismo, lembrou que a liberdade é mais importante que a vida, incendiou um patriotismo vazio, citou a facada que sofreu em setembro de 2018, deu a entender que as eleições não foram justas – criticando indiretamente a mesma Justiça Eleitoral que ele elogiou quando foi diplomado.
Foi uma reconexão entre golpistas e seu líder em um momento em que a fé estava arrefecendo com a aproximação do inevitável: a diplomação e a posse de Lula. Sem nada indicar que haverá um golpe real, resta ao presidente tentar manter acesa a chama do tumulto, para garantir sua influência junto a esse grupo.
Tomando o cuidado, claro, de não ser tão explícito para evitar (mais) um processo que pode leva-lo à prisão após deixar o poder.
O que será dos golpistas à porta dos quartéis depois da posse de Lula
A despolitização das Forças Armadas, pregada pelo futuro ministro da Defesa José Múcio Monteiro, será testada já no dia seguinte à posse de Lula: acampados em áreas militares, os bolsonaristas que defendem o golpe poderão permanecer onde estão? E até quando?
Atos hostis à democracia são investigados pelo Supremo Tribunal Federal. O ministro Alexandre de Moraes mandou prender um empresário do Mato Grosso que incitava colecionadores de armas a engrossar os protestos à porta do QG do Exército, em Brasília.
Bolsonaro voltou a dizer que os protestos são legítimos: “Estamos nos manifestando de acordo com as nossas leis. Vocês são cidadãos de verdade. Está na hora de parar de ser tratado como outra coisa. Acredito em vocês. […] Tudo dará certo, no momento oportuno.”
É falso. Uma coisa é manifestar-se contra atos governamentais. Outra, clamar pela anulação de eleições que a Justiça considerou regulares e avalizou seus resultados. Em um Estado de Direito Democrático, a anulação só seria possível por meio de um golpe.
O que Bolsonaro disse a um grupo de devotos na última sexta-feira que nos jardins do Palácio da Alvorada gritavam “Eu autorizo” foi endossado de certa maneira há duas semanas em nota assinada pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.
A jornalista Julia Dualibi, da GloboNews, considerou a nota “bastante dúbia” e perguntou a Múcio: “O senhor não achou?” Resposta dele: “Achei, mas também acho o seguinte: chegamos a 15 dias das eleições [ele quis dizer: da posse]. Estávamos conversando aqui antes do programa e eu disse que esses serão os dias mais difíceis que vamos atravessar”.
A jornalista Eliane Cantanhede insistiu com o tema: “Quando o senhor diz que os próximos 15 dias serão os mais difíceis, quais são os riscos?” Resposta de Múcio depois de uma longa introdução: “Se nós tivermos um golpe neste país não sabemos quanto tempo vamos passar nisso. Será que vamos ter a sorte de uma redemocratização com 33 milhões de famintos, 12 milhões de desempregados? A elite não resolveu o problema da pobreza”.
A jornalista Natuza Nery interveio: “Bolsonaro está se despedindo, desesperado ou não, está se despedindo”. Ao que Múcio retrucou: “Será que está se despedindo? O tempo está se exaurindo, o tempo está acabando. […] Essa manifestação foi estranha. Na hora em que o presidente diz que cada um se manifeste, que vá para rua, não posso dizer que estamos em céu de brigadeiro”.
Antes, Múcio dissera para o jornalista Gerson Camarotti: “Esses militares dos quartéis não querem golpe. Foram instados, estimulados, mas nunca houve manifestação das Forças Armadas. São figuras isoladas que tentam politizar as Forças Armadas”.
A situação exige que Múcio morda e assopre. Sua escolha para ministro da Defesa foi um claro sinal dado por Lula de que não quer confusão com a farda. Infelizmente, a questão da tutela do poder civil pelo poder militar ainda não será enfrentada desta vez.
Alexandre de Moraes não perdoa, bota pra quebrar. Vem mais por aí
À tarde, na cerimônia de posse de dois novos ministros do Superior Tribunal de Justiça, Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, apareceu sorridente ao lado de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo recém-eleito.
Bolsonaro, presente e calado, não gostou do que viu. Ele considera Moraes – ou Xandão, como o ministro é chamado – seu inimigo número um, culpado pela eleição de Lula. Não esperava que Tarcísio, logo Tarcísio a quem apoiou, confraternizasse com ele.
À noite, por ordem de Moraes, meia dúzia de agentes da Polícia Federal, com o cuidado de não provocar estardalhaço, entraram no acampamento de bolsonaristas na área do QG do Exército, em Brasília, e prenderam o empresário Milton Baldin.
Que diabos fez Baldin para que se tornasse o primeiro bolsonarista preso nos atos golpistas deflagrados depois da eleição de Lula? Morador do município de Jurena, no Mato Grosso, ele divulgou nas redes sociais um vídeo que deu muito o que falar, e ainda dá.
Nele, Baldin pediu aos seus colegas do agronegócio que liberassem caminhoneiros durante, ao menos, 15 dias para participarem dos protestos contra a posse de Lula. E convocou os portadores de “armas legais” a “mostrarem presença”. Justificou: “Se nós perdermos essa batalha, o que vocês acham que vai acontecer dia 19? Vão entregar as armas? E o que eles vão falar? ‘Perdeu, mané?’”.
O dia 19 de dezembro estava reservado para a diplomação de Lula pelo Tribunal Superior Eleitoral. A pedido dele, a data foi antecipada, e a diplomação será na próxima segunda-feira. Baldin deveria ter atualizado seu vídeo, mas não teve tempo.
Os bolsonaristas, primeiro, clamavam por uma “intervenção militar” que anulasse as eleições. Advertidos de que isso era golpismo puro e se voltaria contra eles, evoluíram: passaram a clamar por uma “intervenção federal”, sem dizer para quê.
Mas Baldin ultrapassou todos os limites tolerados por Moraes ao dirigir-se diretamente aos brasileiros armados. Segundo levantamento dos institutos Igarapé e Sou da Paz, as armas registradas em nome de CACs chegaram a 1 milhão em agosto.
É o triplo do que havia antes do governo Bolsonaro. Uma das primeiras medidas do governo Lula será revogar os decretos que facilitaram a compra de armas. Só que, antes, haverá a festa de sua posse. E – sabe como é –, com tantos bolsonaristas armados…
Quantos Adélios Bispo, o desequilibrado mental que esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora, não estão soltos e com armas ao alcance da mão? Está sendo montado o mais rigoroso esquema de segurança jamais visto para a posse de um presidente.
Moraes não pretende parar por aí. Baldin não será o único sublevado a ser preso. Outros serão em breve. E muitos outros serão processados. Moraes não brinca em serviço, nem perdoa. Daí o medo que Bolsonaro e seus filhos têm dele. Com toda razão.
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