13/04/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro alegar vexame diplomático no caso das joias é um vexame policial

Ao se defender, ex-presidente revela-se indefensável

Publicado em 07/04/2023 11:09 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Abr

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Ao tentar explicar à Polícia Federal a razão da pressão que ele fez sobre auditores da Receita Federal para liberarem um conjunto de joias no valor de R$ 16,5 milhões que seus auxiliares trouxeram muquiado ao Brasil, Jair Bolsonaro diz que tentava evitar um vexame diplomático que viria com um eventual leilão da fortuna dada pela Arábia.

Seria muito bom ter acesso à gravação do interrogatório, de quarta (5), para checar se Jair conseguiu se segurar ou riu junto dos agentes. Pois um presidente que causou quatro anos de vexames diplomáticos só usa essa justificativa cínica porque vê a si mesmo como inimputável. Para o azar dele, após mais de três décadas com mandato e foro privilegiado, ele não é mais, tendo voltado à planície onde estão os outros mortais sem cargos públicos.

E, por conta disso, teve que passar cerca de três horas prestando depoimento na sede da PF. Se as joias de R$ 16,5 milhões eram realmente vistas por Bolsonaro como um presente ao Brasil e destinadas ao patrimônio da União, por que entraram escondidas, usando militares como “mulas”? E se outros dois kits de joias no valor de R$ 1,5 milhão também eram presentes ao país, por que estavam em mãos de Jair? Aliás, eram “presentes” da ditadura saudita ou suborno e propina?

Antes, o Brasil era visto como um país boa praça, sonho de consumo do turismo, ator ambiental global – o que nos ajudou a fazer negócios com o mundo e, às vezes, até a ajudar a resolver conflitos. Ou seja, éramos tratados como gente grande.

Daí vieram quatro anos de vexames diplomáticos – do salto no desmatamento e nas queimadas na Amazônia após Bolsonaro atacar as estruturas de fiscalização, passando pela transformação do país em calamidade durante a pandemia (com direito à defesa na Assembleia Geral da ONU de remédios inúteis contra a covid) até o processo de genocídio de indígenas tratados como estorvo por seu governo.

Tamanhos vexames isolaram o Brasil e, por conseguinte, Jair é que passou a ser visto como inimputável no cenário diplomático internacional.

Sua passagem pela reunião do G20, o grupo das nações mais ricas do mundo, em Roma, em outubro de 2021, produziu imagens vexaminosas. Ele não teve reuniões com outros mandatários para além de um encontro protocolar com o anfitrião, o presidente italiano. Ficava num cantinho com seus assessores, escanteado, vendo os adultos fazerem política internacional.

A justificativa não deve melhorar a vida de Bolsonaro no inquérito, até porque, além da pressão usando militares e a chefia da Receita para liberar as joias, ele surrupiou outros R$ 1,5 milhão em produtos de luxo. E o argumento já era de certa forma esperado.

Mas será amplamente usado pelos seus seguidores para passar pano no comportamento do “mito”. Dessa forma, eles que gostam de dizer que petistas têm bandido de estimação, vão poder lustrar a imagem do seu.

Ao se defender, Bolsonaro revela-se indefensável

A advocacia é um desses casos raros em que a mentira se torna virtude. No ramo criminal, grandes advogados são pós-graduados em jurisprudência. Advogados geniais são mestres na arte de mentir. No escândalo das joias, a inverdade é manuseada com tanta sinceridade que se torna contraproducente. No esforço para ajustar as versões de Bolsonaro aos achados da Polícia Federal, a defesa revela que o investigado tornou-se indefensável.

Na penúltima explicação, apresentada num depoimento constrangedor de três horas, Bolsonaro alegou ter mobilizado a República para reaver as joias de R$ 16,5 milhões apreendidas na alfândega para evitar um vexame diplomático, já que o pacote era um presente da Arábia Saudita. No alvorecer do escândalo, ele se dizia injustiçado, pois não havia pedido nem recebido nenhum presente. Depois, admitiu que as joias seriam para Michelle Bolsonaro. Agora, reconhece que quis apalpar os diamantes.

Orientado pelos advogados, Bolsonaro disse que não tentou liberar as joias “na mão grande”, mas por meio de ofícios. Isso revelaria transparência e boa-fé. Faltou exibir o único ofício aceitável segundo a orientação dos fiscais da alfândega. Nele, estaria escrito, sem espertezas ou meias palavras, que o bem pertence ao Estado. Outros dois estojos com joias sauditas saltaram de documentos formais para o acervo privado de Bolsonaro. Não fossem a imprensa e o TCU, os objetos ainda estariam escondidos num cofre do amigo Nelson Piquet. Isso revela desonestidade e má-fé.

O bêbado e Bolsonaro são personagens oblíquos. Ambos trilham caminhos tortuosos, enviesados. Um, por excesso de bebida. Outro, por escassez de retidão. A sinuosidade do embriagado costuma terminar no chão. Espera-se que Bolsonaro, inebriado com a própria ficção e com o zigue-zague dos advogados, se esborrache numa sentença condenatória.

 


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