29/05/2024 - Edição 540

Poder

Bolsonaro agride Simone Tebet e jornalista e amplia desgaste com mulheres

Ciro e Tebet foram protagonistas e podem ter garantido o segundo turno entre Lula e Bolsonaro

Publicado em 29/08/2022 9:41 - Congresso em Foco, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL) foi o principal alvo dos presidenciáveis no primeiro debate entre os candidatos a presidente em 2022, promovido em conjunto pela Band, pela TV Cultura, pelo UOL e pela Folha de S.Paulo na noite de domingo (29). Dono do tom mais agressivo entre os seis participantes, Bolsonaro tentou encurralar o ex-presidente Lula (PT), que lidera as pesquisas, chamando-o de “ex-presidiário” e de chefe do “governo mais corrupto da história”. Lula evitou o debate sobre a corrupção e focou nos números de seu governo e no discurso de que é capaz de fazer o Brasil reviver dias melhores. O petista preferiu apostar no estilo moderado e poucos ataques fez aos adversários.

Bolsonaro, no entanto, derrapou ao falar de mulheres, grupo do eleitorado em que enfrenta maior rejeição. E acabou, ele próprio, acuado pelas duas candidatas presentes: Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil), que expuseram a já conhecida agressividade do presidente em relação ao público feminino. No segundo bloco do debate, o presidente chamou a jornalista Vera Magalhães, que havia questionado Ciro Gomes (PDT) sobre a política do governo sobre vacinas, de “vergonha do jornalismo brasileiro”.

Simone Tebet saiu em defesa da jornalista e acusou o presidente de agredir as mulheres. Bolsonaro retrucou: “A senhora é uma vergonha para o Senado, não vem com essa historinha de que eu ataco mulheres, de se vitimizar”. Soraya Thronicke, então, fez desagravo a Vera Magalhães. “Quando eu vejo homem sendo tchutchuca com outros homens e ser tigrão pra cima das mulheres eu não aceito”, afirmou a senadora, que rompeu com Bolsonaro após ter sido vice-líder de seu governo. Na semana passada Bolsonaro foi chamado de “tchutchuca do Centrão” por um manifestante no Palácio da Alvorada.

Soraya e Simone, que representam Mato Grosso do Sul no Senado e se conheceram na sala de aula – a primeira foi aluna da segunda no curso de Direito -, aproveitaram a visibilidade do debate para se apresentarem ao eleitorado. A emedebista tem aparecido com 4% nas pesquisas eleitorais, enquanto a colega ainda não pontuou. Ambas defenderam que a eleição não se resume a Lula e Bolsonaro e que têm credenciais para resolver os problemas do país.

Ciro Gomes distribuiu ataques a Bolsonaro e Lula e não poupou o petista mesmo após ter sido cortejado por ele. O pedetista chamou o petista de “encantador de serpentes” e o responsabilizou pela eleição de Bolsonaro e pela crise econômica. Já Felipe D’Ávila (Novo) teve participação discreta no debate. Poucas propostas foram apresentadas pelos candidatos nas três horas de discussões.

O debate promovido em conjunto pela Band, pela TV Cultura, pelo UOL e pela Folha de S.Paulo começou pontualmente às 21h deste domingo (28). Os dois primeiros blocos foram apresentados pelos jornalistas Eduardo Oinegue e Adriana Araújo. O terceiro, por Fabíola Cidral, do UOL, e Leão Serva, da TV Cultura. Ao final, cada candidato teve breve tempo para as manifestações finais. Foram concedidos dois direitos de resposta – um para Lula e outro para Bolsonaro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ciro foi o primeiro a falar nas considerações finais do debate e aproveitou para se colocar como uma opção à polarização entre Lula e Bolsonaro. “A minha luta não é contra nenhum deles, especificamente. A minha luta é contra o modelo econômico”, afirmou o presidenciável. “A corrupção é uma prostração moral a que todos eles se submeteram”, completou.

Lula aproveitou para se solidarizar com Simone e a jornalista Vera Magalhães pelos ataques proferidos por Bolsonaro e relembrou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). “Tive o prazer de indicar a primeira mulher candidata à Presidência da República. Se fala do governo Dilma, mas ninguém falou do golpe que ela levou. Se derrubou uma presidente por causa de uma pedalada, e não se tira um presidente por causa de uma motociata”, afirmou.

Bolsonaro atacou Lula, seu principal adversário. “Quem o ex-presidiário apoiou? Maduro na Venezuela. Olha para onde está indo a autonomia da nossa Argentina? Lula apoiou o presidente do Chile, que praticava atos de tocar fogo em metrô. Apoiou Ortega, que faz perseguição religiosa”, disse o presidente.

Simone Tebet aproveitou a visibilidade no debate para atacar os líderes das pesquisas. “Lamentável em um país que passa fome dois candidatos falando do passado. Triste o país que tem que escolher entre o escândalo do mensalão e do petrolão e o escândalo do MEC e das vacinas”, ressaltou.

Lula ganhou direito de resposta por ter sido chamado de “ex-presidiário” por Bolsonaro. O ex-presidente teve o pedido de respostas deferido e ganhou 45 segundos para se manifestar. O petista afirmou que, se eleito, acabará com os sigilos criados por Bolsonaro. “Estou aqui candidato para ganhar as eleições e em um decreto só eu vou apagar todos seus sigilos porque eu quero descobrir o que você tanto…”, afirmou, sendo interrompido pelo término do tempo de resposta.

Soraya Thronicke utilizou as considerações finais para reforçar a proposta do imposto único. “Temos um projeto estruturante, um projeto real. Com um imposto só, reduzir o preço dos alimentos e trazer mais dignidade às pessoas”, discursou.

Último a falar, Felipe D’Ávila defendeu a pauta liberal e o olhar para o futuro. “Para mudar o país, precisamos de gente com caráter. Não é político profissional que quer tornar o Estado mais pesado”, concluiu.

Antes das considerações finais, a terceira rodada foi aberta por uma indagação de Simone Tebet a Bolsonaro: “Candidato Bolsonaro, por que tanta raiva das mulheres?”. Tebet citou o ataque do presidente contra Vera Magalhães e a defesa que Bolsonaro fez em 1998, quando era deputado, ao ex-deputado Talvane Albuquerque, condenado como contratante da chacina que vitimou a deputada federal Ceci Cunha e outras três pessoas da família da então recém-eleita parlamentar.

Bolsonaro afirmou que a pergunta era uma “forma barata de o acusar de não gostar de mulheres”. Bolsonaro citou a presença das médicas Nise Yamaguchi e Mayra Pinheiro na CPI, que sofreram violência política por parte de alguns parlamentares e acusou Tebet de ter se omitido no dia. “Uma grande parte das mulheres me ama”, disse.

Em réplica, Tebet destacou que não estava no rodízio da bancada feminina no dia do depoimento das médicas, mas que agiu juntamente com a senadora Leila Barros (PDT) para cercear os ataques às duas mulheres. “Por que me atacar? Por que eu acabei com a corrupção? É por isso a raiva contra Bolsonaro?”, indagou ele ao retomar a fala.

A segunda pergunta foi feita por Soraya e direcionada a Lula. A senadora perguntou qual a proposta do petista para reduzir a carga tributária. “Não sei se a senhora acompanhou o que aconteceu neste país. Quando eu assumi, o país estava quebrado”, afirmou Lula.

Em réplica, a senadora afirmou que “esse mundo lindo que o senhor fala, só existe na propaganda do seu partido” e citou sua proposta para a criação do imposto único. Lula citou o projeto que formalizou o trabalho das empregadas domésticas e as políticas sociais para os mais pobres. “A senhora diz que não viu melhora. Mas seu motorista viu, sua empregada doméstica viu, seu jardineiro viu”, concluiu Lula.

Felipe D’Ávila questionou a senadora Soraya Thronicke sobre o uso do fundão eleitoral, valor que, segundo o candidato, poderia ser utilizado nas áreas da saúde e da educação. Soraya foi firme: “Campanha é cara. Se não tivéssemos o fundo eleitoral, nós, mulheres, não teríamos acesso. Tem gente no seu partido que usa, sim, Fundo Eleitoral. É importante neste momento no país financiarmos a democracia”, afirmou.

O bloco também foi marcado pelo embate entre Ciro e Bolsonaro. Mesmo podendo direcionar sua pergunta a Soraya e Simone, Bolsonaro questionou Ciro se o pedetista poderia fazer mais políticas pelas mulheres do que ele. Depois de Ciro responder que acreditava que Bolsonaro não se importava com a questão feminina e relembrar a fala dele de que a filha mais nova foi uma “fraquejada”, o presidente lembrou uma fala machista do adversário em relação à sua ex-esposa Patrícia Pillar. Na eleição de 2002, Ciro disse que o papel da atriz à época seria “dormir com ele”.

“Há 20 anos eu cometi uma absoluta infelicidade de fazer uma gracinha com uma mulher extraordinária que foi minha mulher durante 18 anos, já me desculpei por isso um milhão de vezes, e isso é de se desculpar a vida inteira. Não é isso que eu estou falando Bolsonaro, é da sua falta de escrúpulo”, disse Ciro. O pedetista afirmou ainda que Bolsonaro deveria explicar a promessa não cumprida de combater a corrupção em seu governo.

“Você corrompeu todas as suas ex-esposas, todas elas estão envolvidas em escândalos. Você corrompeu os seus filhos. Essa é a questão, tendo prometido que ia combater a corrupção do PT e do Lula. Essa é a grande contradição que você precisa explicar”, afirmou ele.

SEGUNDO BLOCO

Assista à íntegra do segundo bloco:

No segundo bloco do debate, jornalistas do pool de empresas puderam escolher um candidato para responder às suas perguntas e outro para comentá-las.

A jornalista Vera Magalhães, da TV Cultura, perguntou para Ciro com comentário de Bolsonaro: “Em que medida a desinformação sobre vacinas pode ter contribuído para agravar a covid e para desacreditar a população sobre a eficácia das vacinas em geral?” Depois da resposta de Ciro, Bolsonaro atacou a jornalista. “Acho que você dorme pensando em mim, você não pode tomar partido num debate como esse. Você é uma vergonha para o jornalismo”, disse Bolsonaro exaltado.

A candidata Simone Tebet saiu em defesa da jornalista e acusou o presidente de atacar mulheres. Bolsonaro retrucou: “A senhora é uma vergonha para o Senado, não vem com essa historinha de que eu ataco mulheres, de se vitimizar”. O presidente tem enfrentado dificuldade para conseguir o apoio do eleitorado feminino, de acordo com as pesquisas presidenciais.

Soraya Thronicke fez desagravo a Vera Magalhães. “Quando eu vejo homem sendo tchutchuca com outros homens e ser tigrão pra cima das mulheres eu não aceito”, afirmou.

Antes de atacar a jornalista, Bolsonaro  havia trocado acusações novamente com Lula. O presidente foi questionado pelo jornalista Rodolfo Schneider, da Band, sobre como faria para manter o Auxílio Brasil em R$ 600 a partir do próximo ano. Ele pediu que o ex-presidente comentasse a resposta do presidente. Lula e Bolsonaro acusaram um ao outro de mentir e se comprometeram a manter o valor em 2023.

O petista disse que o candidato à reeleição mentia porque não havia previsto a manutenção do benefício nesse valor no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). “A manutenção dos R$ 600 não está na LDO [lei de diretrizes orçamentárias]. Existe uma mentira no ar. A bancada do PT votou favorável”, disse Lula. “O candidato adora citar números absurdos que nem ele acredita.”

Bolsonaro insistiu que a bancada do PT no Senado  havia votado contra a proposta. Ele disse que tem “contatos” na Câmara e que poderia enviar uma proposta para incluir a previsão de recursos para o benefício. “É só não roubar”, afirmou. “Por que o PT não aumentou o Bolsa Família? Pagava uma miséria, porque só queria votos”, declarou.

O bloco também foi marcado por discussão entre Lula e Ciro Gomes após questionamento feito pela repórter da Folha Patrícia de Campos Mello sobre a desunião da esquerda. Patrícia perguntou se Ciro apoiaria Lula em um eventual segundo turno. O presidente fez afagos ao seu ex-ministro, incluindo na lista de políticos que mais respeita, ao lado de Leonel Brizolla e Mário Covas. “Sou grato ao Ciro, que esteve no governo comigo, em 2003 a 2006. Ele resolveu não estar conosco, sair com candidatura própria é direito dele”, disse. O pedetista, no entanto, afirmou que “Lula se deixou corromper” e atribuiu a ele a eleição de Bolsonaro e o clima político bélico no país. O pedetista chamou o ex-presidente de “encantador de serpentes” e o responsabilizou pela crise econômica. “Você sabe que está dizendo inverdades a meu respeito. […] Eu não fui para Paris. Eu fui absolvido nos 26 processos”, rebateu Lula.

PRIMEIRO BLOCO

Assista à íntegra do primeiro bloco do debate:

No início do debate, jornalistas fizeram perguntas sobre economia, educação e harmonia entre os poderes aos candidatos.

Em um segundo momento, o mais aguardado, cada candidato pode perguntar ao adversário de sua escolha. Em tom ríspido, o presidente Jair Bolsonaro questionou o ex-presidente Lula sobre corrupção. Acusou o governo petista de ser “o mais corrupto da história”.

“A Petrobras, ao longo de 14 ano de PT, se endividou em aproximadamente R$ 900 bilhões. Fruto de desmandos, refinarias começadas e não concluídas, entre tantas outras coisas. Esses R$ 900 bilhões daria para fazer 60 vezes a transposição do Rio São Francisco. Ou seja, o povo nordestino sofreu por falta d’água por causa de corrupção do seu Governo. Mais ainda. Esse montante é equivalente a 120 vezes o orçamento do Ministério da Infraestrutura. E eu tô falando isso para que se tenha noção do tamanho da corrupção somente na Petrobras. E delatores devolveram R$ 6 bilhões. Ou seja, corrupção houve. Presidente Lula, o senhor quer voltar ao poder para quê? Para continuar fazendo a mesma coisa na Petrobras?”

Lula respondeu, apontando feitos de sua gestão e acusando o adversário de “estar destruindo” o país:

“Acho que de vez em quando a gente tem que acreditar que nada acontece por acaso, tinha que ser ele [Bolsonaro] a me perguntar [sobre corrupção]. Isso é importante porque as pessoas precisam saber que inverdades não valem à pena na TV, citar números que são mentirosos também não compensam. É importante citar que não teve nenhum presidente que fez mais investigações para apurar corrupção do que nós fizemos. Foi nos governos do PT que a Petrobras se tornou o que é, meu governo ficou marcado pela maior política de inclusão social, maior geração de empregos, maior aumento de salário mínimo, maior investimento na agricultura.”

Bolsonaro disse que, em sua delação premiada, o ex-ministro da Fazenda de Lula Antonio Palocci contou que o petista mantinha conta no exterior com o montante de R$ 300 milhões para benefício próprio e compra de apoio ao governo. A delação de Palocci, no entanto, não foi comprovada pelas investigações. Lula voltou a citar dados da economia em sua defesa. “Deixei o país com a economia crescendo a 7,5%. Esse é o país que o atual presidente [Bolsonaro] está destruindo. Portanto, o governo que eu deixei é o que povo tem saudade, e esse país vai voltar a ser assim.”

Segundo a perguntar, Ciro Gomes dirigiu sua pergunta a Bolsonaro. Ciro afirmou que o presidente “fala muitos absurdos” e comentou a afirmação recente de Bolsonaro de que haveria “exagero” nos números de pessoas em situação de fome no país.

Em resposta, Bolsonaro afirmou que a situação atual é reflexo do “fica em casa e a economia a gente vê depois”, citando as ações de distanciamento social implementadas para diminuir os impactos da pandemia. Segundo o presidente, a “inflação do país é uma das menores do mundo” e a “extrema pobreza no país diminuiu” durante seu governo. “O meu governo atendeu aos mais necessitados. Alguns passam fome, mas não nesse número. Fazer demagogia com isso é inadmissível”, afirmou Bolsonaro.

Na réplica, Ciro reforçou que 33,1 milhões de brasileiros estão passando fome, citando o estudo realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

A terceira pergunta foi feita por Felipe D’Ávila para Ciro  sobre os projetos do ex-ministro para a educação. Ciro propôs mudar o padrão de educação atual — similar ao implementado nos séculos 19 e 20 — para um mais digital e aumentar os investimentos nos professores e na rede de educação pública.

A senadora Soraya Thronicke foi a quarta a perguntar e questionou quais as propostas de Simone Tebet para a área da saúde. Simone Tebet citou sua atuação na CPI da covid e os atrasos feitos pelo governo federal na aquisição de vacinas e na gestão da pandemia. Simone também propôs atualizar a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) e ampliar a utilização da iniciativa privada para completar o sistema único; além de um criar crédito extraordinário para aumentar os investimos na saúde.

O ex-presidente Lula foi o penúltimo a perguntar e questionou D’Ávila sobre as propostas para o meio ambiente. O presidenciável do Novo afirmou que o país poderia ser o primeiro país do mundo a ser “carbono zero” e que a preservação ambiental é a chave para a retomada econômica, o que geraria empregos e renda.

Última a perguntar, Simone Tebet questionou Soraya sobre as propostas para educação. A senadora afirmou que pretende investir no sistema público de educação e propôs a isenção do pagamento de imposto de renda para professores.

Ciro e Tebet foram protagonistas no lugar de Lula e Bolsonaro, diz Quaest

Ciro e Simone saíram-se melhores que os demais candidatos no debate, de acordo levantamento da Quaest realizado com base no alcance do tema no Facebook, no Instagram e no Twitter.

O ex-governador teve 51% de menções positivas, enquanto a senadora contou 41%.

Na sequência, vieram o ex-presidente Lula (PT), com 39%, o presidente Jair Bolsonaro (PL), com 35%, o cientista político Luiz Felipe D’Avila (Novo), 34%, e a senadora Soraya Tronicke (União Brasil), 32%.

“No debate digital, os coadjuvantes da eleição foram protagonistas. Já os protagonistas da eleição saíram como coadjuvantes”, afirmou à coluna Felipe Nunes, diretor da Quaest.

Segundo a avaliação do cientista político, “Lula moderou o discurso para não aumentar sua rejeição. Bolsonaro agiu como desafiante e atacou Lula de forma dura e direta, mas deve ter aumentado rejeição das mulheres com o ataque a Vera Magalhães”.

O presidente da República atacou a jornalista, de forma misógina, no debate após ela ter feito uma pergunta sobre cobertura de vacinas.

“Vera, eu acho que eu não podia esperar outra coisa de você. Acho que você dorme pensando em mim. Você tem alguma paixão em mim. Não pode tomar partido num debate como esse. Fazer acusações mentirosas a meu respeito. Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro”, afirmou. O candidato não respondeu a pergunta.

Bolsonaro, que havia escalado a primeira-dama, Michelle, para tentar reduzir a rejeição que ele ostenta entre as mulheres, enfrentou, após a declaração, uma onda de críticas nas redes e no próprio debate.

De acordo com a Quaest, que faz o levantamento com base em interações nas redes sociais, a média de alcance das postagens sobre o debate foi de 19 milhões no primeiro bloco, 13 milhões no segundo e 13 milhões, novamente, no terceiro.

O desempenho de Simone Tebet foi crescendo ao longo do tempo e o de Ciro se manteve bem nos três blocos, segundo a Quaest. Para o diretor do instituto, Lula não empolgou como na entrevista ao Jornal Nacional, na última quinta, e Bolsonaro falou principalmente para o seu eleitorado.

Bom desempenho de Simone e Ciro em debate favorece plano de Bolsonaro

Simone pode beliscar votos entre os indecisos. Bolsonaro foi o grande perdedor. Lula foi o segundo pior. Produziu-se um paradoxo: O êxito de Simone pode favorecer Bolsonaro, pois qualquer soluço da terceira via conspira contra o sonho de Lula de encerrar o jogo no primeiro turno. Ciro Gomes teve o segundo melhor desempenho da noite, o que também leva água para o moinho que empurra o desfecho da polarização para o segundo round.

Bolsonaro nocauteou a si mesmo ao agredir a repórter Vera Magalhães, que formulou uma pergunta sobre a influência do negacionismo sanitário na queda da cobertura vacinal no país. A indagação foi dirigida a Ciro. Caberia a Bolsonaro comentar. Faltando-lhe argumentos, deu um chilique misógino, atacando a repórter. A reação truculenta repercutiu ao longo do debate. Simone foi quem melhor cavalgou o piti do capitão. Um dos objetivos de Bolsonaro era o de reduzir sua rejeição entre as mulheres. Pode ter ocorrido o oposto.

Antes do curto-circuito que o fez entrar em processo de autocombustão, Bolsonaro degustara um bom momento. Deu-se na abertura do debate. Favorecido pelo sorteio, exerceu a prerrogativa de formular a primeira pergunta. Disparou contra seu principal rival uma pergunta sobre a corrupção nos governos do PT.

Lula sentiu o golpe. Impossibilitado de negar o inegável, esquivou-se. Limitou-se a enaltecer o próprio governo. Enfatizou medidas anticorrupção adotadas nas gestões petistas. Já havia retirado esse coelho da cartola na entrevista ao Jornal Nacional. A repetição do truque não faz sumir a roubalheira. Lula encolheu. Passou a jogar na retranca.

Apagado, o petista tentou articular um contragolpe noutro ponto do debate. Fez tabelinha com Simone para reativar a memória sobre a corrupção na compra de vacinas. Estrela da CPI da Covid, a senadora ajudou a chutar Bolsonaro. Mas realçou na resposta a Lula que a corrupção correu solta nos governos petistas. Simone tratou o orçamento secreto como sucedâneo do mensalão e do petrolão.

Ciro aproveitou bem o debate. Soou mais sintonizado com o drama social. Empinou suas principais propostas —da renegociação de dívidas de quem está encalacrado no SPC à renda mínima de R$ 1 mil. Fustigou Bolsonaro por ter declarado que não há fome no Brasil. Mas atirou a esmo, direcionando parte de sua munição para o ex-aliado Lula.

A estratégia de Simone, que privilegiou os ataques a Bolsonaro, revelou-se mais certeira. Parece improvável a essa altura que um candidato de fora da polarização salte do rodapé das pesquisas para o segundo turno. Entretanto, a lógica indica que faz mais sentido para os azarões priorizar o embate com Bolsonaro, segundo colocado nas pesquisas.

A inexpressiva Soraya Thronicke teve seus 15 segundos de fama expandidos para as redes sociais ao se solidarizar com Vera Magalhães. Fez pose de Juma Marruá. Declarou que vira onça na defesa das mulheres. Ironizou Bolsonaro —”Tchutchuca” com os homens, “tigrão” com as mulheres. Mas a insistência na defesa da proposta do imposto único deu a Soraya a aparência de disco de vinil arranhado.

Luiz Felipe D’ávila, outro presidenciável inexpressivo, saiu do debate como entrou: insignificante.


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