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Poder
Bola da vez: Wassef troca posto de advogado pelo papel de cúmplice confesso
Publicado em 16/08/2023 9:07 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On
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Não é verdade que o bolsonarismo está em silêncio completo diante do escândalo da transmutação das joias pertencentes ao patrimônio brasileiro em dólares para Jair. Há uma intensa produção de desinformação sobre o caso, com fakes que carecem de criatividade por já terem sido usadas (e desmentidas) pela Lava Jato. Entre elas, o crucifixo recebido por Lula.
Desde que foi revelado que o general Mauro Lourena Cid virou roleiro de lojinha “Compro Ouro” em Miami em nome da grandeza da fortuna do mito, as redes bolsonaristas vêm usando o velho “E o PT? E o Lula” para contrapor ao peculato do capitão.
Bolsonaro transformou o Palácio do Planalto em uma espécie de “Família Vende Tudo”, mandando para os Estados Unidos caríssimos Rolex, joias e tudo o que reluzia a dourado, presentes de governos estrangeiros ao Estado brasileiro, para serem vendidos. Entre o contrabando, a receptação e a lavagem de dinheiro, envolveu almirante, general, coronel, tenente-coronel, sargentos.
Mas o crucifixo de Lula, esculpido em madeira, ao contrário do que dizem as redes bolsonaristas, não foi vendido por milhões a um magnata no exterior.
Dado de presente por José Alberto de Camargo, seu amigo pessoal, em 2003, ele foi abençoado por frei Betto e mantido no gabinete de Lula durante o primeiro e o segundo mandatos presidenciais. Quando saiu, levou consigo a peça porque não pertencia à República e deixou guardada junto com seu acervo.
Acreditando em fakes que circulavam na internet, os procuradores da operação Lava Jato sonhavam em prender o petista por surrupiar e ocultar um Jesus Cristo crucificado e bombar as imagens na imprensa, como foi revelado pelo Intercept Brasil.
A reportagem fez parte da série da Vaza Jato, que mostrou como o então juiz federal Sergio Moro e membros do MPF tramaram e combinaram a condenação contra Lula para tirá-lo da política.
Em uma troca de mensagens no Telegram com o procurador Orlando Martello Jr, Deltan Dallagnol afirmou que acharam no cofre do Banco do Brasil (onde Lula mantinha seu acervo pessoal), “a cruz do Aleijadinho que estava desde Itamar no Planalto”. Disse que aquilo era prova de “peculato com lavagem”.
Para demonstrar sua imparcialidade, ele ainda postou ao seu interlocutor: “Isso, pode sorrir. Agora, pode sorrir mais. Pode agora começar a pular”.
Mas os procuradores não haviam se dado ao trabalho de checar se a informação que circulava na internet procedia ou não. Ou seja, não deram nem um Google.
E em meio às comemorações, descobriram uma reportagem da revista Época desmentindo a fake, mostrando que o crucifixo pertencia a Lula. E que a foto em que Itamar Franco aparece com ela no Palácio do Planalto foi tirada durante uma visita que ele havia feito a Lula em 2006.
E, claro, a obra não era de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, um dos mais importantes escultores do Brasil colonial, que viveu entre os séculos 18 e 19, mas de um artista europeu do século 16.
Diante disso, Dallagnol foi o retrato da tristeza. Para o mesmo interlocutor, Martello, ele soltou até um palavrão: “Cara, agora sente. Descobrimos que o crucifixo é dele mesmo. Recebeu de presente. Pqp. Matérias furadas na internet”. Depois, teve que se explicar ao juiz da operação, Moro, de que o crucifixo pertencia a Lula.
Depois da decepção, trocas de mensagens mostram que os procuradores analisaram a legislação sobre presentes pessoais dados a presidentes. Acabaram convencidos que Lula poderia ter recebido o crucifixo.
E ressaltaram que mesmo o acervo privado não pode ser vendido no exterior e que presentes recebidos de autoridades estrangeiras em visitas oficiais pertencem ao país.
Lula foi investigado extensivamente pela Lava Jato, que não encontrou indícios de que, ao contrário de Bolsonaro, ele cotou e vendeu presentes no exterior. Inclusive a discussão sobre o caso do petista ajudou a criar mais normatizações sobre as zonas cinzentas da questão dos presentes, inclusive com a participação do Tribunal de contas da União. Regras que foram atropeladas por Jair.
No Bolsoverso, o universo paralelo das redes bolsonaristas, o crucifixo foi vendido por milhões e está na parede de um colecionador fora do Brasil.
Na realidade, Lula trouxe a peça de volta consigo ao vencer um terceiro mandato. Hoje, o crucifixo está na parede de seu gabinete, no Palácio do Planalto. Pode-se discutir se isso vai ou não ao encontro de princípios de um Estado laico. Mas nunca será possível afirmar que a peça foi recomprada às pressas para evitar escândalo ainda maior, como fez Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro, com um Rolex surrupiado por Jair e vendido a um ricaço nos EUA.
Wassef troca posto de advogado pelo papel de cúmplice confesso
Pelo enredo esboçado nas páginas do inquérito da Polícia Federal, o caso das joias é o conchavo de um ex-presidente decadente com militares fanatizados para passar bens da União no cobre, obtendo um dinheirinho fácil. Para aceitar a versão de Frederick Wassef sobre sua participação nesse script, o Brasil precisa aceitar como verdade absoluta a fantasia segundo a qual o advogado de bolso dos Bolsonaro entrou na história para moralizá-la.
Wassef passou uma semana operando no modo negação. De repente, cercado pelas provas de que havia recomprado o relógio Rolex vendido por muambeiros de farda nos Estados Unidos, caiu em si: “Eu comprei o relógio.” Temperou a realidade com as especiarias da ficção: “A decisão foi minha. Usei meus recursos. Eu tenho a origem lícita e legal dos meus recursos”.
O doutor descobriu que trazia enterrado na alma um benemérito da pátria: “O meu objetivo quando comprei esse relógio era exatamente devolvê-lo à União, ao governo federal do Brasil, à Presidência da República, isso inclusive por decisão do Tribunal de Contas da União.”
Perguntou-se a Wassef quem lhe pediu para realizar a compra. Ele disse que não foi Bolsonaro. O inquérito está adornado por mensagens eletrônicas que revelam que o Rolex foi entregue pelo mecenas do ilícito ao tenente-coronel Mauro Cid, na Hípica de São Paulo. Mas Wassef jura que também não foi o ex-ajudante de ordens do capitão que lhe fez a encomenda.
Na prática, Wassef pede aos brasileiros que se finjam de idiotas pelo bem de Bolsonaro. Sem perceber, o advogado das causas perdidas virou ele próprio um cúmplice confesso de ilicitudes irrefutáveis. Tornou-se participante voluntário de uma quadrilha.
Bola da vez
O que Frederick Wasseff diz não se escreve. Quando se escreve, não se acredita. O melhor seria ignorá-lo. Não dá, porque ele é o advogado da família Bolsonaro. Mais do que advogado, cúmplice: escondeu em sua casa Fabrício Queiroz, o gerente da rachadinha.
Como ignorar, por exemplo, o advogado de Marcola, chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país? Marcola é mantido isolado na Penitenciária da Papuda, em Brasília. Ele e seu advogado só conversam em código.
Todas as falas são gravadas, mas a polícia não consegue decifrá-las. Não se sabe se Bolsonaro e Wassef só falam em código ou se tocam de ouvido. Não seria estranho. Nas organizações criminosas, é um cuidado corriqueiro, que Wasseff não teve e se complicou.
Complicou também a vida do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordem de Bolsonaro, preso desde maio último numa das dependências do Exército, e, por extensão, a vida do pai dele, o general da reserva Mauro Cesar Lourena Cid.
O que Wasseff contou, em entrevista coletiva na terça-feira (15/8), está aquém do que a Polícia Federal já sabe sobre o roubo de joias do Estado brasileiro para enriquecer Bolsonaro, a venda de parte delas nos Estados Unidos e a recompra quando o crime foi descoberto.
Wasseff, que há dias disse que nada tinha a ver com o caso das joias, agora admite que teve. Estava de férias em Nova Iorque, ouviu falar sobre o assunto e, sem que ninguém pedisse, recomprou por US$ 49 mil o Rolex de Bolsonaro.
Um ato de caridade, por certo. Ou uma demonstração de amor por seu cliente. A manobra para devolver as joias roubadas, se bem-sucedida, livraria o ex-presidente de ser acusado de mais um crime – o da tentativa de obstrução de justiça. Pois é do que se trata.
Bolsonaro poderá até não ser preso pelo roubo; afinal, quando um político poderoso corre tal risco por excesso de provas que o condenam, a Justiça dá uma deixa para que continue solto. Com base na jurisprudência aqui estabelecida, tem sido assim.
Mas Wasseff não é político, não é poderoso. É apenas um rábula que ganhou fama ao transgredir a lei sempre que Bolsonaro precisou. Ficou rico por essas e outras coisitas. Nem Bolsonaro nem ninguém moverá um dedo para evitar que ele seja preso.
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