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Poder

Bolsonaristas comemoram rebaixamento da Acadêmicos de Niterói

Homenagem a Lula, sátiras a reacionários e embate nas redes ampliaram debate político no Carnaval 2026

Publicado em 19/02/2026 9:09 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A passagem da Acadêmicos de Niterói pela Marquês de Sapucaí, no Carnaval de 2026, extrapolou o terreno simbólico do samba-enredo e se transformou em episódio de disputa política aberta. Rebaixada do Grupo Especial após apresentar o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola tornou-se alvo de críticas de parlamentares de direita, de frentes religiosas no Congresso e de lideranças bolsonaristas, enquanto aliados do governo tentaram conter o desgaste.

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Durante 79 minutos de desfile, a agremiação reconstruiu a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, da infância no agreste pernambucano à terceira eleição presidencial. Foi a primeira vez que uma escola do Grupo Especial dedicou um enredo a um presidente da República em exercício — fato que, por si só, já antecipava controvérsia.

Alegorias e críticas: religião no centro do embate

O ponto de maior tensão foi uma ala intitulada “neoconservadores em conserva”. Integrantes desfilaram vestidos como latas, com rótulos que estampavam a imagem de um casal heterossexual com dois filhos sob a inscrição “família em conserva”. Para críticos, a representação configurou escárnio à fé cristã e aos valores defendidos por grupos conservadores.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou que a “fé cristã foi exposta ao escárnio” e cobrou posicionamento da Frente Parlamentar Evangélica. Também nas redes sociais, criticou alegoria que retratava o ex-presidente Jair Bolsonaro como um palhaço preso com tornozeleira eletrônica danificada. Em resposta, ressaltou que Lula já foi condenado e preso por corrupção — ainda que as condenações tenham sido posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.

O senador Flávio Bolsonaro associou o rebaixamento da escola à fantasia da “família em conserva” e declarou que “quem ataca a família não merece aplauso”. Acrescentou que “o próximo rebaixamento vai ser do Lula”, em referência à disputa presidencial de 2026.

Outros parlamentares seguiram a mesma linha. O deputado federal Nikolas Ferreira afirmou que o resultado do desfile simbolizaria o “afundamento do Brasil”. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, ironizou ao dizer ter ficado “muito triste” com a notícia, classificando-a como a “primeira derrota do PT em 2026”. Já o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, chamou a agremiação de “escola de samba de Lula”.

Frentes católica e evangélica anunciam medidas judiciais

A reação extrapolou declarações individuais. A Frente Parlamentar Católica e a Frente Parlamentar Evangélica divulgaram notas oficiais de repúdio e anunciaram que acionarão o Judiciário e órgãos de controle.

Em nota assinada pelo deputado Luiz Gastão, a Frente Católica afirmou ter recebido o desfile com “indignação” e sustentou que, embora a liberdade artística deva ser preservada, manifestações culturais com ampla repercussão e eventual financiamento público exigem responsabilidade redobrada na abordagem de crenças religiosas. O texto menciona “indícios” de extrapolação de limites legais e cobra apuração.

A Frente Evangélica classificou a apresentação como “conduta desrespeitosa e afrontosa” e declarou ser “inadmissível” o uso da manifestação cultural para promover “escárnio contra a fé cristã”. O grupo informou que recorrerá à Procuradoria-Geral da República e ao Judiciário.

Governo na defensiva e disputa digital

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação predominante foi de desgaste. Um auxiliar presidencial resumiu à colunista Carla Araújo, do UOL: “Vai ficar algum desgaste”. A percepção interna é de que a oposição encontrou um fato mobilizador capaz de deslocar o debate para terreno desfavorável ao governo.

O presidente do PT, Edinho Silva, buscou minimizar os impactos e afastar riscos jurídicos. Segundo ele, “não há nenhuma ilegalidade que possa gerar preocupação com o TSE”. Também rejeitou a tese de abalo junto ao eleitorado evangélico, afirmando que Lula mantém relação de respeito com lideranças religiosas e que tentar desgastá-lo por alegorias carnavalescas “chega às raias do ridículo”.

De acordo com apuração da jornalista Thais Bilenky, ministros chegaram a sugerir que Lula dialogasse com a direção da escola para evitar polêmicas. O presidente, no entanto, descartou qualquer interferência, sob o argumento de que seria necessário preservar a liberdade de expressão: “Censura nem da direita nem da esquerda”, teria dito.

Vitalidade como contraponto eleitoral

Aliados também procuraram transformar a presença ativa de Lula no Carnaval em ativo político. O presidente acompanhou desfiles no Rio, esteve em Salvador e Recife e participou de agendas públicas com disposição destacada por apoiadores. A estratégia, segundo interlocutores, busca neutralizar narrativas da oposição que evocam um suposto “efeito Biden” — referência à desistência do presidente norte-americano da disputa eleitoral por questões de saúde.

Aos 80 anos, Lula deve disputar um quarto mandato. Enquanto adversários exploram o argumento etário, aliados sustentam que o presidente demonstra vigor suficiente para enfrentar a campanha.

Carnaval como arena política

O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói — comemorado por bolsonaristas como sinal simbólico de rejeição popular — amplia a pressão sobre o governo em um momento pré-eleitoral. Mais do que o resultado técnico na avenida, o episódio evidencia como o Carnaval, tradicional espaço de crítica e sátira, converte-se em extensão do embate político nacional.

Entre alegorias, notas de repúdio e disputas digitais, a avenida confirmou, mais uma vez, que no Brasil a cultura raramente desfila sozinha.

Justiça e limites ao uso eleitoral do Carnaval

As reações políticas ao desfile também se desdobraram no campo jurídico. Partidos e parlamentares acionaram diferentes instâncias da Justiça na tentativa de conter a homenagem a Lula, mas não obtiveram êxito. As decisões, embora favoráveis à manutenção do desfile, vieram acompanhadas de alertas sobre os limites entre manifestação cultural e propaganda eleitoral.

Na última semana, o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou pedido de liminar apresentado pelo Partido Novo, que alegava propaganda eleitoral antecipada no samba-enredo da escola. A legenda sustentou que a apresentação extrapolava o caráter cultural e configurava “pedido explícito de voto”, inclusive com menção a “palavras mágicas” e a número de urna.

Na petição, o Novo solicitou a suspensão da transmissão do desfile e a retirada de vídeos das redes sociais da agremiação, afirmando que o enredo teria se convertido em “verdadeira peça publicitária de campanha”.

A presidente do TSE, Cármen Lúcia, foi enfática ao afastar a liminar, mas ponderou que a decisão não representa “salvo-conduto”. “É um ambiente muito propício a que haja excessos, abusos e ilícitos. A festa popular do Carnaval não pode ser uma fresta para ilícitos eleitorais”, declarou.

Os ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, indicados ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, acompanharam o voto contrário à liminar, embora tenham feito ressalvas. Nunes Marques observou que ainda não era possível prever como o evento se desdobraria nem identificar eventual beneficiário eleitoral.


Ações paralelas fracassam

No Distrito Federal, a senadora Damares Alves moveu ação popular para impedir ataques pessoais a Bolsonaro e vetar a exibição de sua imagem. Também questionou a exaltação de Lula, sob o argumento de que a transmissão por emissoras que utilizam recursos públicos poderia configurar irregularidade.

A ação foi rejeitada pelo juiz federal substituto Francisco Valle Brum, da 21ª Vara Federal Cível. Segundo a decisão, ação popular exige demonstração de potencial prejuízo ao poder público — o que não teria sido comprovado no caso.

O Partido Liberal (PL), legenda de Bolsonaro, divulgou nota classificando o desfile como “discurso político” financiado com dinheiro público e criticando o que chamou de construção narrativa de “bem x mal” em benefício do pré-candidato petista.

Outra tentativa de barrar referências ao presidente partiu de Valdenice de Oliveira Meliga, ex-candidata do PL ao Legislativo fluminense. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região negou o pedido para impedir o uso de símbolos ou menções a Lula, entendendo não haver fundamento para a restrição prévia.


Presença presidencial na avenida amplia debate

Em meio à judicialização, Lula adotou gesto simbólico que reforçou a centralidade política do episódio. Ao lado do prefeito do Rio, Eduardo Paes, deixou o camarote municipal e desceu à pista para cumprimentar integrantes da escola e beijar o pavilhão. A previsão inicial era que acompanhasse os desfiles apenas da plateia, ao lado de ministros, justamente para evitar questionamentos eleitorais.

A primeira-dama Rosângela da Silva, conhecida como Janja, chegou a cogitar participação na avenida, mas desistiu após avaliações de risco jurídico. Segundo a coluna de Mônica Bergamo, a decisão levou em conta receios de questionamentos na Justiça Eleitoral. Ela foi substituída pela cantora Fafá de Belém, enquanto ministros também optaram por não desfilar.

Cultura, campanha e fronteiras institucionais

As decisões judiciais preservaram o desfile, mas deixaram claro que o Carnaval não está imune ao escrutínio eleitoral. Ao rejeitar as ações, os tribunais evitaram intervenção prévia em manifestação cultural — o que poderia suscitar debate sobre censura —, mas sinalizaram que eventuais excessos podem ser analisados posteriormente.

O episódio revela uma tensão recorrente em anos pré-eleitorais: até que ponto manifestações artísticas podem celebrar, criticar ou satirizar figuras públicas sem transbordar para propaganda? A resposta, ao menos por ora, tem sido a de que a liberdade cultural prevalece — sob vigilância.

Se a avenida foi palco de disputa simbólica, o Judiciário tornou-se arena paralela. E, como indicam as decisões, o limite entre enredo e campanha continuará sendo testado à medida que 2026 se aproxima.

DEU RUIM


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