01/03/2024 - Edição 525

Poder

Bolsonaristas atacam general para esconder golpismo de Jair

Presidente da CPMI do golpe age em conluio com bolsonaristas e pode ser afastado, diz deputado

Publicado em 15/06/2023 10:20 - Leonardo Sakamoto (UOL), Plinio Teodoro (Fórum) – Edição Semana On

Divulgação

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A aprovação dos bolsonaristas Anderson Torres, Mauro Cid, Augusto Heleno e Braga Netto para a primeira leva de convocados pela CPMI dos Atos Golpistas levou a uma enxurrada de postagens dos seguidores do ex-presidente nas redes sociais. Além de reclamar do que chamam de perseguição, clamavam também pela convocação do general Gonçalves Dias.

Os governistas conseguiram segurar o convite ao ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, responsável pela Agência Brasileira de Inteligência, o que representou outra derrota da oposição – que, ironicamente, foi a idealizadora dessa comissão de investigação.

A intenção é que ele seja chamado mais para frente, após parlamentares da base de Lula na CPMI contextualizarem como a tentativa de golpe foi armada pelo bolsonarismo.

Desde que uma horda vestida de amarelo invadiu e depredou o Palácio do Planalto, o Congresso e o STF, após meses de acampamentos golpistas em todo o país tem sido hercúleo o esforço de aliados de Jair em convencer que o ex-presidente não teve nada a ver com aquilo apesar das evidências de que fomentou abertamente um golpe de Estado.

Para tanto, abraçam a tese de que o governo Lula é o principal responsável pela agressão que ele próprio sofreu por ter, supostamente, enfraquecido a segurança da sede do Poder Executivo. Por esse ponto de vista, o dono de uma casa é que deve ser punido pelo roubo que sofreu ao não ter colocado lanças no portão ou cacos de vidro no muro.

Para instalar a CPMI dos Atos Golpistas, os bolsonaristas usaram como justificativa a inação do general Gonçalves Dias, então ministro-chefe do GSI da Presidência da República. Ele aparece em imagens do crculo interno do Palácio do Planalto entre invasores, no fatídico 8 de janeiro, sem saber o que fazer.

Somou-se a isso o fato que Dias, como revelou a Folha, recebeu alertas de inteligência, via WhatsApp, tratando do risco de invasão de prédios públicos em Brasília por bolsonaristas armados. Nova reportagem do jornal, na quarta (14), revela que ele mandou suprimir de um relatório a informação de que havia recebido tais alertas porque a comunicação não teria sido feita por canais oficiais.

Em depoimento à Polícia Federal, no mês passado, o general disse que não efetuou prisões no Palácio do Planalto porque não tinha condições de fazer isso sozinho e pelo fato de agentes de segurança já estarem detendo os invasores nos andares de baixo do edifício. Não importa, deveria ter dado voz de prisão.

O general, que deixou o cargo após as imagens de vídeo terem vindo a público, tem muito a explicar ainda sobre a sua incompetência em lidar com o ocorrido. Se ele não confiava nos alertas porque havia herdado uma equipe bolsonarista do general Augusto Heleno, que mudasse os postos-chave de seu time na transição. Afinal, estamos falando do GSI, não de uma birosca.

Mas afirmar que a culpa pela tentativa de golpe de Estado é do comportamento de Gonçalves Dias que esconderia uma estratégia de Lula para se vitimizar, é uma narrativa absurda que serve para tentar amenizar o impacto das cenas do 8 de janeiro na retina daqueles que ainda põe fé no capitão. O bolsonarismo tenta encobrir o golpismo usando a incompetência do general

A fumaça produzida pelos ataques a Dias nas redes ajuda a relativizar também a aprovação dos requerimentos para convocar o ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, e o ex-ajudante de ordem de Jair, o tenente-coronel Mauro Cid. Só para resumir: a PF encontrou um rascunho de dois golpes de Estado na posse de cada um deles.

Isso além dos generais Heleno, já citado, e Braga Netto, candidato a vice de Jair.

Isso por enquanto. Quais outros nomes serão chamados após a investigação da Polícia Federal em curso, supervisionada pelo ministro Alexandre de Moraes, revelar novidades?

CPI quer priorizar o que Mauro ‘Abandonado por Bolsonaro’ Cid tem a dizer

Fazendo valer a maioria que ostenta na CPI dos Atos Golpistas, a base do governo Lula conseguiu, na terça (13), priorizar a convocação do ex-ministro da Justiça Anderson “Fiquei Preso, mas Não Delatei” Torres e do tenente-coronel Mauro “Fui Abandonado por Bolsonaro” Cid para depor.

Dessa forma, a comissão vai a reboque das investigações da Polícia Federal – que contam com a supervisão do ministro do STF Alexandre de Moraes e buscam identificar executores, financiadores, fomentadores e idealizadores da tentativa de golpe de 8 de janeiro levada a cabo por bolsonaristas.

Com isso, a oposição não conseguiu, pelo menos por enquanto, avançar com a estratégia que usou para conseguir a instalação da CPI, questionando o Poder Executivo por não ter impedido as invasões. Ou seja, tentar culpar quem teve a casa assaltada pelo roubo enquanto passa pano para o bandido.

Algumas convocações defendidas por bolsonaristas que se encaixam na construção dessa narrativa, como a do ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Lula, Gonçalves Dias, ficaram para depois.

Afinal, poucos são capazes de esclarecer detalhes do golpismo como Torres e Cid.

O ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal Anderson Torres foi preso pela Polícia Federal, na manhã de 14 de janeiro, e permaneceu na cadeia por quatro meses. Durante esse período, Bolsonaro temeu pela delação de seu aliado.

Além de afrouxar o esquema de segurança de Brasília para os atos de 8 de janeiro, ele é apontado como corresponsável pelo bloqueio de rodovias no Nordeste no segundo turno do ano passado, o que teria dificultado o deslocamento de eleitores de Lula. Depois, fez vistas grossas para os protestos de golpistas que travaram estradas após o resultado das urnas ser proclamado.

Torres já tinha sido alvo da ordem de prisão por se omitir como chefe da polícia do DF quando a PF encontrou em sua casa um rascunho de um decreto a ser baixado pelo então presidente para intervir no Tribunal Superior Eleitoral e melar a eleição. Ou seja, um golpe de Estado.

Outro que também foi flagrado com documento semelhante foi Cid. A PF encontrou uma minuta golpista e estudos para apoiar um golpe de Estado no celular do tenente-coronel.

A minuta permitiria ao seu antigo chefe convocar as Forças Armadas em caso de perturbação de caos. Caos que poderia surgir, por exemplo, através de uma horda de bolsonaristas que invadisse e vandalizasse o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal no dia 8 de janeiro.

Ou com uma bomba que explodisse o aeroporto de Brasília colocada em um caminhão de combustível por bolsonaristas no dia 24 de dezembro. Ou ainda com a queima de ônibus e veículos na capital federal por bolsonaristas no dia 12 de dezembro após a diplomação de Lula.

A minuta estava em mensagens trocadas entre Cid e o sargento Luís Marcos dos Reis – ambos presos na operação que investiga a fraude nos registros de vacinação de Bolsonaro. Também foram encontradas propostas sobre como convencer a cúpula do Exército a entrar na empreitada.

Recentemente, graças a celulares apreendidos, vieram à tona conversas sobre um golpe de Estado entre o ex-major Ailton Barros, amigão do ex-presidente, com Mauro Cid. Depois, o coronel da reserva Élcio Franco, homem de confiança do governo, que foi colocado como secretário-executivo do Ministério da Saúde para ajudar o general Eduardo Pazuello, apareceu na história.

Barros e Franco discutiram por áudios as possibilidades para um golpe de Estado, incluindo a mobilização de 1,5 mil militares a prisão do ministro Alexandre de Moraes.

Bolsonaro fomentou por anos uma tentativa de golpe de Estado, mas tenta se livrar do xilindró terceirizando as responsabilidades para quem é fiel a ele, como Torres, Cid e Barros. Todos, até agora, vêm mantendo a lealdade a um político conhecido por abandonar seus amigos na beira da estrada quando não lhes são mais úteis.

O fato de Mauro Cid ter declarado independência em sua banca de defensores, colocado alguém que manja de colaboração com a Justiça e se negado a inocentar o ex-presidente em seu depoimento é um recado de que não está a fim de entrar na longa fila de aliados abandonados por Bolsonaro na beira da estrada. Lista que começa com Gustavo Bebianno, passa por Roberto Jefferson e chega em Daniel Silveira. Mas já entrou.

“Peço a Deus que ele [Cid] não tenha errado”, disse Jair. Errado quanto à fraude da vacina ou errado em ter ficado em silêncio no depoimento? E sentenciou: “Cada um pro seu lado”. Ou seja, agora é cada um por si e a Polícia Federal acima de todos.

Ele pode ficar em silêncio na CPI, como fez em depoimento da PF. Neste caso, seu celular continuará gritando por ele, acusando o ex-presidente da República, sua família e aliados. Sem contar que Alexandre de Moraes e a PF estarão sempre um passo à frente dos bolsonaristas, produzindo notícias e dando a linha.

Se os aliados de Jair não se arrependeram de criar a comissão, isso deve acontecer em algum momento muito em breve.

Rogério Correia e Arthur Maia na CPMI dos Atos Golpistas.
Créditos: Bruno Spada/Câmara dos Deputado

Presidente da CPMI age em conluio com bolsonaristas e pode ser afastado

Vice-líder do governo na Câmara e um dos principais parlamentares da base governista na CPMI dos Atos Golpistas, Rogério Correia (PT-MG) aponta um “conluio” entre o presidente da comissão, o deputado Arthur Maia (União-BA) com aliados de Jair Bolsonaro e afirma que pode entrar com “medida extrema” para trocar ou anular a presidência do colegiado.

“É impressionante que ele, sendo presidente de uma CPI, ao invés de colocar em prática o que a maioria decidiu, ele fica insistindo na tese da minoria bolsonarista e a partir desse momento busca inviabilizar a investigação”, disse Correia.

“É muito grave. Ele não é presidente mais da CPMI, ele é presidente dos deputados bolsonaristas, que a partir de agora, não tenha dúvida, vão tentar fazer de tudo para não se ter investigação. E o Arthur Maia está em conluio com a minoria bolsonarista”, emendou o parlamentar mineiro.

Na noite desta quarta-feira (14), Maia saiu em defesa da tese bolsonarista – de que o 8 de Janeiro ocorreu por “omissão” do governo Lula – e atacou a reprovação dos requerimentos da oposição que, entre outros, pretendia convocar para depor o ministro da Justiça, Flávio Dino.

“Foi constrangedor ver a maioria do colegiado da CPMI do 8 de janeiro rejeitar requerimentos de convocação de personagens centrais nessa investigação, como é o caso do GDias, ex-GSI, do Saulo Moura da Cunha, ex-Abin, e do ministro da Justiça, Flávio Dino”, tuitou.

Em seguida, Maia prometeu retomar a votação dos requerimentos já reprovados na próxima sessão da CPMI. “Na próxima sessão, me comprometo a pautar os requerimentos representados e o farei quantas vezes forem necessárias. Espero que possamos aprovar todos os nomes, sem distinção, para garantir que todos sejam ouvidos a fim de que se chegue na verdade”, emendou.

Também pela rede, Correia já havia respondido ao presidente da CPMI. “Constrangedor foram os atos terroristas que tentaram golpear a nossa democracia. Não acatar a decisão da maioria e insistir nas teses da minoria bolsonarista derrotada é sinal de quem nega as evidências históricas. O 8 de janeiro foi um processo, não um acidente”, escreveu o petista.

No Fórum Café, Correia afirmou que a base governista pode tomar “medidas extremas” para tirar Arthur Maia do comando da comissão.

“Se ele continuar desrespeitando a maioria, teremos que eleger outro presidente ou aprovar um requerimento que anule a Presidência. Nós teremos que, pelo plenário, anular o presidente e fazer com que as coisas sejam encaminhas conforme a maioria. Agora, é uma situação esdrúxula. Ou ele passa a encaminhar aquilo que foi aprovado pela maioria ou teremos que pensar nisso mesmo, uma medida extrema que pode ser feita. É lamentável a atitude do presidente da CPI”.


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