01/03/2024 - Edição 525

Poder

Bolsonarismo sairia de divórcio com PL com uma mão na frente e outra atrás

Superpedalada do ex-presidente e seu ex-super-ministro mostra a conta

Publicado em 17/07/2023 3:48 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Divulgação Wilson Dias - Abr

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A previsível disputa interna do PL entre bolsonaristas e o restante de sua bancada na Câmara dos Deputados gera especulações sobre a saída de aliados de Jair da legenda, individualmente ou em bloco. O divórcio, contudo, custaria caro para a extrema direita, uma vez que ela não poderia levar junto nenhum recurso dos fundos eleitoral e partidário.

Caso provem que têm uma justa causa ou aproveitem a próxima janela de transferência partidária (no início do último ano de seus mandatos, no caso dos deputados, 2026), bolsonaristas do PL poderão migrar para outros partidos sem perderem o mandato. Também podem tentar a sorte na Justiça antes.

Mas, se tiverem sucesso, terão que dividir o bolo dos fundos da sua nova legenda com os parlamentares que já estão por lá. Trazer mais deputados pode ser benéfico a outros partidos, pois aumentaria sua influência no Congresso e na sociedade. Contudo, compartilhar o pirão com mais gente quando esses não trazem farinha sempre gera ranger de dentes.

Jair, na verdade, queria um partido para chamar de seu. Mas ele e seus aliados não foram competentes o bastante para criar um, mesmo com a imensa representatividade que possuem nas 27 unidades da federação.

Tal como foi com o PSL, o bolsonarismo é um estorvo para o PL tradicional, mostrando que, se por um lado, abrigar a extrema direita foi um bom negócio para o presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, por outro, também trouxe dores de cabeça e o obrigou a engolir alguns sapos, bajulando Jair e família, e a aguentar ameaças de motim.

O presidente do PL não é santo na história, claro. Fazer um pacto com o bolsonarismo lhe permitiu comandar a maior bancada da Câmara (99) e a segunda maior do Senado (11) e ter o controle sobre a maior fatia mensal do fundo partidário, R$ 14,6 milhões (número de junho) – isso sem contar a maior parcela do fundo eleitoral no ano que vem – que foi de quase R$ 5 bilhões em 2022. Mas o tinhoso cobra o preço.

Valdemar não vai enquadrar os 20 deputados da legenda que votaram com o governo na aprovação das Reforma Tributária ou em pautas futuras, principalmente de caráter econômico. Ainda mais porque o governo tem liberado milhões em emendas para o PL. Com isso, novos barracos virão, como o quiproquó no grupo de zap por conta da reforma. Ainda mais porque o bolsonarismo do PL continuará votando contra o país se isso ajudar a criar problemas para Lula.

Bolsonaro, por enquanto, também não fará nada. É do fundo partidário que sai a remuneração mensal de R$ 41 mil que tanto ele quanto a ex-primeira-dama, Michelle, coordenadora do PL Mulher, recebem. Saindo do partido, eles teriam que conseguir o salário de outra fonte.

Ou seja, preparem a pipoca, porque vai ter mais barraco. O que, convenhamos, não ocorreria se ele tivesse ganhado a eleição. Sim, 2,1 milhões de votos mudaram tudo.

É bem possível que, em algum momento, o bolsonarismo busque uma outra legenda para poder disputar a eleição. Mas, quando isso acontecer, vai sair do divórcio com uma mão na frente e a outra, atrás.

Superpedalada de Bolsonaro e Paulo Guedes mostra a conta

Paulo Guedes dizia que, nos governos tucanos e petistas, o Brasil foi aprisionado por um esquerdismo social-democrata. Sob Bolsonaro, Guedes prometeu libertar o país dessa prisão. Deu-se algo diferente. O capitão trancou o liberalismo do seu ministro da Economia no calabouço do populismo. Comparado ao ciclismo fiscal da dupla Bolsonaro-Guedes, as pedaladas que levaram Dilma Rousseff ao impeachment seriam transferidas para um juizado de pequenas causas. Há nos cofres do Tesouro uma bomba relógio de R$ 200 bilhões.

Implacável na cobrança de tributos, a União adota um discurso perverso sempre que a Justiça lhe apresenta alguma conta: “Devo, não nego, pagarei quando puder”. Na língua dos advogados, o juridiquês, isso se chama fila dos precatórios. No ano pré-eleitoral de 2021, Bolsonaro e Guedes mercadejaram no balcão do Congresso uma superpedalada fiscal: a PEC dos Precatórios (pode me chamar de Bolsa Reeleição). Comprou-se com liberações secretas do orçamento federal o aval dos congressistas para o calote das dívidas judiciais. A conta começa a ser apresentada.

Pela contabilidade do Tesouro Nacional, a bomba será de R$ 199,9 bilhões. Se nada for feito, explodirá no orçamento de 2027, a ser enviado pelo governo ao Congresso em 2026. Quer dizer: antes mesmo de entrar em vigor, a nova regra que substituirá o velho teto de gastos já subiu no telhado. “Haverá excepcionalização futura dessa despesa do limite de gastos a partir de 2027”, escreve o Tesouro, como que antevendo a próxima gambiarra orçamentária.

gerenciou o balcão. Hoje, enrolado na bandeira da reforma tributária, faz pose de herói da resistência fiscal enquanto exige de Lula mais verbas e cargos.

Com um pedido de desculpas a Drummond e alguma licenciosidade poética, pode-se afirmar que o descalabro brasileiro lembra o poema Quadrilha, publicado em 1930, no livro Alguma Poesia. Nele, Drummond trata dos dissabores do desencontro. A Quadrilha do poeta diz o seguinte:

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes

que não tinha entrado na história

A Quadrilha de Bolsonaro resultaria em versos mais dramáticos do que líricos. Ficaria mais ou menos assim:

Bolsonaro amava Guedes que era amado pelo mercado

que dizia amar a responsabilidade fiscal mas só amava os juros

que morriam de amor pelo populismo

que não amava ninguém

Bolsonaro foi para o crepúsculo, Guedes para o ostracismo

o mercado lucra no desastre, a responsabilidade ficou para tia

os juros passeiam na Lua e o populismo acena para o contribuinte

que não entra na história senão para pagar a conta


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