01/03/2024 - Edição 525

Poder

Bolsonarismo leva violência eleitoral à Aparecida no dia de Nossa Senhora

Após quatro anos, o presidente se lembra que o Brasil também tem católicos

Publicado em 13/10/2022 9:28 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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Um cinegrafista foi atacado, uma pessoa vestindo vermelho foi perseguida, um padre foi criticado por pedir silêncio diante de uma tentativa de transformar uma missa em um ato de campanha. Bolsonaristas extremistas chafurdaram em Aparecida (SP), neste 12 de outubro, levando violência eleitoral para dentro de um dos maiores eventos católicos do país.

Um comportamento estimulado pela rápida passagem de Jair, que não esteve na basílica como presidente da República, mas usou Nossa Senhora Aparecida para fazer um palanque eleitoral.

Pesquisa Datafolha, divulgada no último sábado (8), apontou que 34% dos eleitores têm muito medo de algum ato de violência durante a campanha para o segundo turno e 29% relatam ter um pouco de medo. Entre os apoiadores de Lula, 43% têm medo, número que cai para 23% entre os de Bolsonaro.

O presidente tem todo o direito de estar lá só de corpo, mas não de alma, não tomando a eucaristia e nem rezando o Pai Nosso, como aconteceu. Mas a forma como ele se portou enquanto esteve na área da igreja, chegando ao ponto de colocar parte do corpo para fora do veículo em que estava para se promover enquanto as sirenes eram acionadas, é um insulto a quem estava ali pela fé.

Aqui não cabe o Evangelho de Lucas, capitulo 23, versículo 34: “Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem”. Os bolsonaristas sabem sim, entendem exatamente o comportamento violento, agressivo, estúpido deles. Um comportamento que bate de frente com o principal ensinamento do Novo Testamento: “amem-se uns aos outros”.

Diante disso, é imperativo citar o Evangelho de Mateus, capítulo 7:

“Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons.”

Uma árvore boa não produz 687 mil mortes por covid-19, nem 33 milhões de famintos.

Após quatro anos, Bolsonaro se lembra que o Brasil também tem católicos

De olho em sua reeleição, Bolsonaro estreitou laços com líderes de igrejas evangélicas durante seu governo, prometeu e entregou um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal, usou a estrutura do Poder Executivo para cultos religiosos. E, na ânsia eleitoral, até afirmou a um grupo de bispos e pastores: “Eu dirijo a nação para o lado que os senhores assim desejarem“.

Foi tão longe que pediu ao então ministro da Educação, Milton Ribeiro, “atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”. O religioso e o pastor Arilton Moura são acusados de cobrar propina em bíblias e barras de ouro para liberar o caixa do ministério a prefeitos.

Agora, após quatro anos, em uma nova campanha, Bolsonaro se lembra que o Brasil também tem católicos – e que eles formam um eleitorado numeroso. Atrás do voto deles, foi ao Círio de Nazaré – a familiaridade dele era tamanha que conseguiu a façanha de errar o nome da festa religiosa nas redes sociais. E, neste 12 de outubro de Nossa Senhora, se reafirma católico e caça voto no Santuário de Aparecida (SP).

“Ah, mas Bolsonaro já foi outras vezes em Aparecida”, dizem uns. Sim, mas sempre em uma lógica eleitoral. “Ah, mas Jair é tão amado pelos católicos que é defendido pelo padre Kelmon”, dizem outros. Como informou a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Kelmon “não é sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana, sem qualquer vínculo com a Igreja sob o magistério do papa Francisco”.

Se entre os evangélicos, o presidente lidera por 62% a 31% neste segundo turno (votos totais), junto aos católicos, Lula está à frente, com 55% a 38%, de acordo com o último Datafolha. O atraso no Censo dificulta saber qual a proporção exata de cada grupo na sociedade, mas o instituto trabalha com 53% do eleitorado sendo católico e 27%, evangélico. Apesar de minoria, o segundo grupo consegue se engajar mais fortemente que o primeiro.

Claro que católicos ultraconservadores sempre estiveram na base do bolsonarismo-raiz da mesma forma que há evangélicos que repudiam a hiperpolitização de púlpitos e a instrumentalização de Deus em prol das necessidades políticas do presidente da República. Mas, de uma maneira geral, Bolsonaro se esforçou para convencer que governava para os evangélicos, que – não sem razão – sentem-se esquecidos por governantes. E deu atenção a pautas de comportamento e costumes, importantes para parte desse eleitorado.

Contudo, evangélicos também comem – e a inflação insistente que jogou o preço dos alimentos nas alturas levou carestia para 33 milhões de evangélicos, católicos, espíritas, praticantes de religiões de matriz africana, ateus. Sim, a fome é laica. E isso repercute no voto. Afinal, para muita gente, mais importante que um presidente que seja ombudsman de bloco de carnaval é um que garanta comida na mesa.

Em nota divulgada na terça (11), a CNBB lamentou “a intensificação da exploração da fé e da religião como caminho para angariar votos no segundo turno”. E criticou o sequestro de eventos religiosos para esse fim, dizendo que “não podem ser usados por candidatos para apresentarem suas propostas de campanha e demais assuntos relacionados às eleições”.

A nota pede “um país mais justo, fraterno e solidário”. Para traduzir o que isso significa, nada como uma citação atribuída a um gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que também lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres – opção preferencial da Igreja Católica posta pelo Concílio Vaticano II, convocado pelo papa João 23.

“Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”, disse Câmara. Notam alguma semelhança com o que vivemos hoje?

Ele e o também já falecido Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT), ensinaram que ser solidário não é praticar uma forma distorcida de caridade, como uma política de distribuição de sobras – o que consola mais a alma dos ricos do que o corpo dos pobres.

Mas que solidariedade passa por reconhecer no outro e na outra seus semelhantes e caminhar junto a eles. Ou seja, não é doar migalhas, mas compartilhar o pão, produzido com diálogo e respeito. “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”, assumiu Pedro como lema de vida.

“Nada matar.” Tão simples e tão poderoso é o sexto mandamento presente em Êxodo, capítulo 20, versículo 13. O presidente precisou ir a Aparecida para mostrar que se importa. Bastaria, na verdade, ter abraçado a vida em seu governo. Mas essa conversão já seria um milagre.

Espiritualização da eleição leva a lugar nenhum

Ao enviar a disputa presidencial para o segundo turno, o eleitor brasileiro ofereceu a Bolsonaro e Lula a oportunidade de colocar a campanha na vida real. Mas os candidatos rejeitam a oferta. O que está em disputa não é uma vaga de pastor evangélico ou uma matrícula num seminário para a formação de padres. Disputa-se o cargo de presidente da República no centro de um pátio de milagres.

A 18 dias do desfecho da eleição, Bolsonaro iniciou o feriado de 12 de outubro inaugurando em Belo Horizonte um templo do apóstolo condenado Valdemiro Santiago, da igreja Mundial do Poder de Deus, que abomina o culto a imagens católicas. À tarde, o presidente correu para o Santuário Nacional de Aparecida, para cultuar a imagem de Nossa Senhora.

Bolsonaristas hostilizaram o arcebispo Dom Orlando Brandes, que declarou em sua homilia que o país precisa vencer “muitos dragões”. Entre eles, o dragão da fome, do desemprego e do ódio. Do lado de fora, devotos do presidente cercaram e agrediram uma equipe de televisão.

Lula teve o cuidado de não montar um palanque na basílica. Em visita ao complexo do alemão, no Rio, o petista exibiu à militância, do alto de um carro de som, imagem de Nossa Senhora Aparecida, que recebeu de presente. Seus apoiadores circularam nas redes sociais uma carta com compromissos dirigidos a religiosos, entre eles o de respeitar todos os templos e religiões. A campanha petista diz apoiar o texto. Uma carta de Lula aos evangélicos está no forno e deve ser divulgada no final de semana.

Na propaganda de rádio e TV, os candidatos dedicam-se a demonizar um ao outro. O bolsonarismo sustenta que Lula é bem votado nos presídios. O petismo trombeteia que Bolsonaro é apoiado por bandidos. As duas campanhas capricham na divulgação de fake news.

Lula e Bolsonaro ainda se enfrentarão em pelo menos dois debates —um no próximo domingo, outro a três dias da eleição. Todo mundo ganharia se neles os postulantes ao trono expusessem ideias para o país.

Ainda que as muralhas de Jericó se reergam, mesmo que o Mar Vermelho volte a se partir em dois ou que algum outro cataclismo de inspiração sobrenatural desabe sobre a Terra, o presidente a ser eleito ou reeleito em 30 de outubro assumirá no ano que vem o posto de gerente de um Brasil por ser feito. Um país onde o cidadão paga impostos e vê seu dinheiro saindo pelo ladrão do orçamento secreto.

Contra esse pano de fundo, a espiritualização do debate eleitoral leva a lugar nenhum.


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