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Poder
Candidatura de Flávio Bolsonaro evidencia atritos com aliados e incerteza sobre o projeto presidencial de 2026
Publicado em 22/01/2026 9:17 - Semana On
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O cancelamento da visita que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, faria ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal — a chamada Papudinha —, revelou mais do que um ajuste de agenda. O episódio escancarou fissuras no núcleo bolsonarista, evidenciou o distanciamento entre Tarcísio e o senador Flávio Bolsonaro e gerou desconforto entre aliados que atuavam para viabilizar o encontro.
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Embora o governador tenha alegado compromissos prévios para justificar o recuo, a decisão foi tomada após Tarcísio interpretar como pressão política a sinalização pública feita por Flávio. Em declaração à imprensa, o senador afirmou que o encontro serviria para comunicar ao governador que qualquer projeto presidencial estaria “descartado”, reforçando a prioridade da reeleição em São Paulo. A leitura, segundo interlocutores do Palácio dos Bandeirantes, foi a de uma tentativa de enquadramento político.
O pedido formal de autorização para a visita foi protocolado na segunda-feira (19) pela defesa de Bolsonaro, com uma lista de nomes definida pelo próprio ex-presidente e repassada à esposa, Michelle Bolsonaro. Além de Tarcísio, constavam Diego Torres Dourado, irmão de Michelle, e Bruno Scheid, dirigente do PL em Rondônia. O governador confirmou presença e chegou a tornar pública a intenção de visitar Bolsonaro, classificando o gesto como uma manifestação de solidariedade pessoal.
Horas depois, porém, a assessoria do governador informou que a visita seria adiada, sem definição de nova data. O anúncio pegou de surpresa Michelle e os advogados do ex-presidente, que souberam da desistência pela imprensa. O método adotado por Tarcísio, sobretudo a ausência de um novo agendamento, provocou irritação no entorno da ex-primeira-dama.
Antes do recuo, o governador consultou informalmente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sobre a possibilidade de remarcar o encontro. Só desistiu após receber a indicação de que não haveria obstáculos institucionais para uma nova solicitação, segundo aliados.
A decisão também foi mal recebida por setores do bolsonarismo. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, classificou o cancelamento como um erro político e um desperdício de um “gesto humanitário”, argumento repetido por outros apoiadores do ex-presidente.
Nos bastidores, Tarcísio vinha sendo aconselhado a postergar a visita para mais perto de 4 de abril, prazo final para que governadores renunciem ao cargo caso decidam disputar a Presidência. Embora negue publicamente ser pré-candidato, parte de seu entorno trabalha com essa hipótese. A fala de Flávio, tornada pública antes do encontro, foi o elemento decisivo para o recuo: o governador avaliou que o senador buscava impor uma pauta política a um gesto que, segundo seus aliados, deveria ser estritamente pessoal.
A relação entre os dois já vinha sendo testada. Em conversa telefônica recente, Tarcísio reiterou apoio à eventual candidatura presidencial de Flávio e prometeu engajamento “no momento certo”. Ainda assim, bolsonaristas pressionam o governador por demonstrações mais explícitas de alinhamento, o que aumenta o custo político de qualquer movimento ambíguo.
Condenado por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro deixou o regime domiciliar em novembro, após violar as condições da tornozeleira eletrônica, e foi transferido para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília. No último dia 15, por decisão de Moraes, passou para a Papudinha. A mudança foi atribuída por aliados a articulações de Michelle e de Tarcísio, o que rendeu elogios de apoiadores como o pastor Silas Malafaia, mas também críticas de setores ligados aos filhos do ex-presidente, especialmente Carlos Bolsonaro.
O histórico de visitas de Tarcísio a Bolsonaro ajuda a contextualizar o momento. Em agosto de 2025, o governador esteve com o ex-presidente logo após o início da prisão domiciliar, quando participou também de encontros com líderes de centro-direita que defendiam seu nome para 2026. Em setembro do mesmo ano, uma nova visita ocorreu na presença de Flávio, que condicionou a tramitação do projeto de anistia à definição do candidato presidencial do grupo. Na ocasião, Tarcísio reafirmou que disputaria a reeleição paulista.
Desde então, a sucessão no bolsonarismo ganhou contornos mais nítidos. Ao reafirmar Flávio como herdeiro político em carta escrita antes de uma cirurgia, Bolsonaro reacendeu disputas internas, não apenas entre os filhos, mas também com Michelle, que ampliou sua projeção pública e aparece bem posicionada em pesquisas como potencial candidata ou vice em 2026. O movimento é visto por parte do clã como uma ameaça à hierarquia familiar e política.
A pré-candidatura de Flávio também cumpre função estratégica: pressionar o centrão a avançar em iniciativas legislativas que possam beneficiar Bolsonaro, como a anistia ou a redução de penas. O receio central do ex-presidente, segundo aliados, é perder relevância e proteção política caso outro nome da direita ascenda ao Planalto.
Nesse cenário, Tarcísio se vê diante de um dilema. Apesar de gestos reiterados ao bolsonarismo mais radical, segue sendo tratado com desconfiança por setores que o veem como oportunista. Ao mesmo tempo, precisa decidir se vale a pena abrir mão de uma reeleição relativamente confortável em São Paulo para apostar em um acordo instável com um clã marcado por disputas internas e mudanças frequentes de posição. O cancelamento da visita à Papudinha, longe de ser um detalhe de agenda, tornou público esse impasse.
“Não vejo o Flávio com musculatura para derrotar Lula”, diz Malafaia
O pastor evangélico Silas Malafaia, revelou estar em desacordo com a escolha do senador Flávio Bolsonaro como sucessor do ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa ao Planalto. Segundo o líder religioso, o congressista não possui “musculatura” para concorrer contra Lula, e o campo conservador possui candidatos mais fortes como o governador Tarcísio de Freitas ou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
“A questão não é ter a competência para ser presidente da república, a questão é quem pode vencer essa corja que está destruindo o país. (…) Eu não tenho nada pessoal contra o Flávio, eu sou amigo deles, mas eu aprendi que a verdade tem que ser absoluta. Eu não vejo o Flávio com musculatura para derrotar Lula”, disse em entrevista ao SBT.
Na avaliação de Malafaia, a falta de preocupação de líderes de esquerda a respeito de Flávio é um termômetro da falta de engajamento de sua campanha. “O Flávio já deve ter gravado aí uns oito ou dez vídeos botando pra quebrar em cima de Lula. Eu não vi uma resposta de Lula, eu não vi ninguém do PT falar nada contra ele”, apontou.
O líder religioso considera que Flávio “não empolgou” a direita, e defende o apoio a um nome capaz de reunir uma coalizão ampla. “A direita pura não ganha eleição. Para se ganhar essa eleição de Lula, tem que juntar centro e direita. Se não juntar centro e direita, ninguém vai ganhar a eleição. Então, o Tarcísio, ele engloba mais isso do que o Flávio”.
Outra alternativa considerada por Malafaia é uma construção de frente ampla. “Eu não acho nada demais ter 3, 4 candidatos, e lá no segundo turno, todo mundo se unir para quem for pro segundo turno. Eu também não acho nada demais. Se tiver mais de um candidato na direita, eu vou escolher o que eu achar que é o melhor”.
Eduardo ironiza Tarcísio sobre nome ao Senado: “tem que pedir benção”
Em suas redes sociais, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo no qual critica Tarcísio de Freitas, por deixá-lo de fora das negociações na construção da chapa conservadora ao Senado em seu Estado. O ex-congressista cobrou sua inclusão na definição dos candidatos, alegando que seria uma “transferência” de seus votos.
O vídeo de Eduardo foi uma resposta a análises de que ele estaria “atrapalhando” a união dos partidos de direita paulistas ao defender candidatos de seu próprio círculo de proximidade, e que a candidatura de Guilherme Derrite (PP-SP) ao Senado seria certa, cabendo ao PL definir o segundo nome.
“E por que que todo mundo tem direito a lançar um candidato, (…) mas quando vem o nome Bolsonaro, não, aí não, não pode nem querer dar pitaco, nem sugestão, sério mesmo? Então quem tem o voto não pode dar sugestão de quem ele quer transferir o voto? Eu tenho que pedir bênção pro Tarcísio”, questionou.
Eduardo afirma que, apesar de admirar Derrite, não foi consultado sobre sua campanha. Ele defende também que a candidatura do PL seja uma escolha direta sua, que pretende permanecer nos Estados Unidos durante as eleições, receoso de uma ordem de prisão. “Se eu não vou concorrer, eu tenho que colocar alguém que minimamente seja próximo de mim para concorrer”, argumentou.
Crítica presidencial
O ex-deputado também comentou a falta de posicionamento de Tarcísio sobre a campanha de Flávio Bolsonaro. “Acho que seria conveniente para uma pessoa que queira agregar o Flávio Bolsonaro numa campanha estadual em São Paulo, que é um Estado-chave, o maior colégio eleitoral do país. Então nós temos que ajudar o Flávio Bolsonaro a ser eleito, e tem também que colocar uma pessoa próxima do Eduardo”, declarou.
A crítica foi feita na terça-feira (20), mesmo dia em que Tarcísio cancelou a visita agendada a Jair Bolsonaro em sua cela, no 19º Batalhão da PMDF. A expectativa para o encontro era de que serviria para o governador confirmar seu apoio à campanha de Flávio Bolsonaro. O cancelamento foi interpretado como um gesto de resistência.
Mais tarde, em seu perfil no X, Eduardo Bolsonaro tornou a criticar a falta de uma manifestação de Tarcísio sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro. “E a tal união da direita? Bem, falo por mim. Eu atuo por princípio, não mudo o que falo – como os sumidos da ‘união da direita’ – de acordo com os ventos políticos. Se todos votariam no indicado de Bolsonaro, o que está faltando para declarar apoio espontaneamente?”, provocou.
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