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Poder

Bolsonarismo fecha fileiras em torno de Flávio e enquadra Tarcísio

Estratégia do clã prioriza controle político da direita e reeleição em SP

Publicado em 21/01/2026 9:14 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Às vésperas do que seria o primeiro encontro entre Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo desde a prisão do ex-presidente, o senador Flávio Bolsonaro antecipou o recado que, segundo ele, seria transmitido pessoalmente: Tarcísio de Freitas está fora da disputa presidencial de 2026. A prioridade do grupo, afirmou, é a reeleição do governador paulista, considerada peça-chave para a estratégia nacional do bolsonarismo.

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De acordo com Flávio, Bolsonaro pretende reforçar que o projeto político do campo conservador passa pela manutenção do comando do maior colégio eleitoral do país, e não por uma candidatura presidencial de Tarcísio. “Ele vai ouvir que está fazendo um grande trabalho em São Paulo e que sua reeleição é fundamental para derrotar o PT. A hipótese presidencial está descartada”, disse o senador em entrevista ao O Globo.

A declaração ocorre em meio a desconfianças, inclusive dentro da própria direita, de que Tarcísio ainda manteria ambições nacionais, apesar das manifestações públicas de apoio à pré-candidatura de Flávio, anunciada por Bolsonaro em dezembro. Para aliados, a escolha do senador não encerrou a disputa sucessória e mantém tensões latentes no campo conservador.

O encontro entre Bolsonaro e Tarcísio, autorizado pelo Supremo Tribunal Federal e previsto para a manhã de quinta-feira (22), acabou cancelado horas antes. A Secretaria de Comunicação do governo paulista alegou “compromissos em São Paulo” e informou que uma nova data ainda será solicitada. O adiamento ocorreu no mesmo dia em que Flávio tornou pública a versão de que o pai confirmaria pessoalmente a exclusão do governador da corrida ao Planalto.

Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado, o que submete todas as visitas a autorização judicial. Ele está detido no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal desde 15 de janeiro, após período de prisão domiciliar.

Apesar de reafirmar publicamente que disputará a reeleição, Tarcísio segue sendo apontado como nome competitivo para enfrentar o presidente Lula. Nos últimos meses, intensificou críticas ao governo federal e fez acenos ao eleitorado bolsonarista, inclusive ao defender a concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente — gesto interpretado como tentativa de preservar o vínculo com seu padrinho político.

Enquanto o bolsonarismo busca disciplinar seus quadros, a possível saída de Tarcísio do tabuleiro presidencial abriu espaço para outros atores. O governador do Paraná, Ratinho Júnior, tem dito a aliados que pretende disputar a Presidência e que a permanência do paulista em São Paulo reduz a fragmentação do eleitorado de centro-direita. Impedido de se reeleger no estado, Ratinho planeja deixar o cargo em abril, dentro do prazo legal para concorrer.

Segundo aliados, o paranaense não entraria na disputa se Tarcísio estivesse no páreo, por avaliar que ambos competiriam pelo mesmo eleitorado. Com a sinalização de apoio do PSD e de Gilberto Kassab, Ratinho passou a se apresentar como alternativa capaz de atrair eleitores que rejeitam tanto Lula quanto o bolsonarismo mais identificado com a família Bolsonaro — embora também tenha feito acenos a esse campo, como a participação em atos em defesa da anistia ao ex-presidente.

Nos bastidores de Brasília, a leitura predominante é de que a família Bolsonaro optou por preservar o controle político da direita, mesmo ao custo de lançar um nome considerado menos competitivo eleitoralmente. Para parlamentares da centro-direita, Flávio garante que o clã siga liderando o discurso, as alianças e a pauta conservadora, ainda que isso reduza o espaço para renovação e para candidaturas alternativas.

Integrantes de partidos como PP e União Brasil avaliam que o eleitorado já internalizou a polarização entre Lula e Bolsonaro — ou seus herdeiros — o que dificulta o crescimento de outros nomes. Ao centralizar a sucessão, a família evita dividir holofotes e mantém influência sobre o Congresso, reforçando a bancada bolsonarista e o discurso conservador.

Há, contudo, riscos evidentes. Uma derrota deixaria Flávio sem mandato e sem foro privilegiado, cenário considerado plausível por aliados. Também pesaria sobre o próprio Jair Bolsonaro, que, segundo essa análise, abriu mão de uma possível acomodação política com o centro em troca de seguir como principal referência da direita, mesmo preso. A escolha, avaliam interlocutores, revela uma aposta clara: manter o bastão do poder dentro da família, ainda que o preço seja alto.

O silêncio que também comunica

Em um ambiente político marcado por encenações e ambiguidades, o gesto mais eloquente de Tarcísio de Freitas nesta semana foi justamente o encontro que ele decidiu não realizar. Com autorização para visitar Jair Bolsonaro, o governador optou por adiar a conversa, escudando-se em “outros compromissos”. Na prática, o cancelamento falou mais alto do que qualquer declaração pública.

A política raramente é terreno da franqueza, mas exige, ao menos, coerência narrativa. Tarcísio tenta sustentar uma posição intermediária: mantém o discurso de foco na gestão paulista enquanto preserva capital simbólico junto à direita nacional. O problema é que esse equilíbrio depende da indefinição alheia — e ela começa a desaparecer.

A fala recente de Flávio Bolsonaro funcionou como um ponto de inflexão. Ao antecipar que o ex-presidente deixaria claro ao governador que seu papel estratégico é disputar a reeleição em São Paulo, o senador reduziu o espaço para ambiguidades. O recado foi direto: não há plano presidencial reservado a Tarcísio no desenho atual do bolsonarismo.

Diante desse cenário, a visita ao líder preso deixou de ser um gesto de consideração institucional e passou a carregar o risco de um enquadramento político público. O adiamento, portanto, não sugere desorganização de agenda, mas leitura de contexto. O governador parece ter percebido que ouvir, cara a cara, a confirmação de seus limites poderia selar uma fotografia política indesejada.

Há, nesse movimento, um atraso de percepção. A aposta em manter portas abertas enquanto o tabuleiro se fecha costuma produzir um efeito perverso: o de não ocupar plenamente nenhum espaço. Ao evitar o encontro, Tarcísio preserva a aparência de autonomia, mas também revela a dificuldade de lidar com a definição imposta pelo grupo que o projetou nacionalmente.

Enquanto isso, do outro lado do espectro, o presidente Lula segue operando sem ambiguidades. Não oscila entre papéis nem simula indefinições estratégicas. Ao contrário, governa explorando a previsibilidade como ativo político — um contraste que ajuda a explicar por que, na política contemporânea, parecer e ser continuam indissociáveis, mas raramente caminham juntos.

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