22/02/2024 - Edição 525

Poder

Bolsonarismo explora ignorância sobre matemática para difamar pesquisas

Toda vez que uma pesquisa desfavorável surge, os seguidores e aliados do presidente exploram a lacuna educacional dos brasileiros

Publicado em 17/08/2022 1:07 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação

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Toda vez que uma pesquisa desfavorável a Jair Bolsonaro surge, seus seguidores e aliados exploram a lacuna educacional dos brasileiros sobre matemática para tentar fazer crer que elas são mentirosas. Não foi diferente com a publicação do novo levantamento do Ipec, que mostrou Lula à frente por 44% a 32%.

Ao contrário do que prega o presidente não é um povo armado que jamais será escravizado, mas um povo educado em números. Até porque o tal povo armado nem sabe contar de um a dez para se acalmar, o que evitaria sair atirando na cabeça de pessoas em festas.

Nos grupos bolsonaristas de aplicativos de WhatsApp e Telegram e em redes sociais de seguidores do presidente circularam dois tipos de ataques à credibilidade da pesquisa, na madrugada desta terça (16), após a divulgação da Ipec.

A mentira mais recorrente foi aquela que apresenta enquetes com dezenas de milhares de respostas, mostrando Bolsonaro com 60%, 70% ou 80% dos votos e afirmando que ela tem mais credibilidade do que a Ipec, com suas 2 mil entrevistas.

Para os machos inseguros que acreditam que só o tamanho importa e não a eficiência, isso é um argumento perfeito.

Enquetes medem a opinião de uma bolha, como os seguidores de uma rede social ou os integrantes de um grupo. Quando queremos entender o comportamento de um país ou um estado inteiro, é necessário usar técnicas de estatística, ramo da matemática, entrevistando pessoas proporcionalmente ao seu peso na sociedade.

Ou seja, há um número de homens e mulheres, jovens, adultos e idosos, pobres, classe média e ricos, católicos, evangélicos e ateus, entre outros estratos. Assim, questionando pequenas amostras, você consegue ter uma ideia do universo inteiro – claro, dentro de uma margem de erro e de um intervalo de confiança.

Nesse sentido, uma pesquisa com 2 mil pessoas é muito mais acurada do que uma enquete com 100 mil. Dá um trabalho do cão, leva tempo e é feito por profissionais habilitados – bem diferente de uma enquete em uma rede social.

Além disso, as pesquisas eleitorais devem ter suas metodologias registradas no Tribunal Superior Eleitoral – onde podemos ver quais são as sérias e quais as picaretas. Muitas do segundo grupo são disparadas pelo bolsonarismo nas redes para convencer que o presidente tem até 70% de intenções de voto. Sem contar que, no TSE, vemos quem bancou a pesquisa.

Outra sacanagem que circulou e que se baseia na ignorância sobre pesquisas é dizer que elas erram usando como base levantamentos realizados meses antes da eleição de 2018, pois elas não “previram” corretamente os resultados.

Para muita gente que não sabe o mínimo de estatística pode parecer confuso como um levantamento que apontava alguém na frente antes, agora mostrar essa pessoa atrás. Pesquisas, contudo, não são bolas de cristal, elas não preveem nada. São apenas uma fotografia tirada da corrida eleitoral em um determinado momento.

A posição dos candidatos vai se alterando ao longo do tempo por uma série de razões: uma denúncia gravíssima que tire votos de seu adversário, a empatia causada pelo candidato sofrer um atentado, a melhora ou piora na inflação, a distribuição de dinheiro público para a população.

Uma sequência de fotografias, ou seja, de pesquisas, pode apontar uma tendência de subida ou de descida nas intenções de voto de uma pessoa, tendência que fica mais forte na reta final da eleição. Hoje, o conjunto das pesquisas aponta um estreitamento da diferença entre Lula e Bolsonaro, mas não na velocidade e na intensidade que o atual presidente precisa.

Isso, claro, não inclui a mentira pura e simples. Dizer que a pesquisa disse algo que não disse e vender isso como verdade contando que as pessoas consumam informação de forma bovina.

Dizer que as pesquisas mentem faz parte da estratégia de políticos para manter acesa as suas militâncias – afinal, é difícil manter o ânimo se a tão prometida virada demora a acontecer.

E para evitar o voto em quem está ganhando – sim, há pessoas que votam não em quem acham melhores, mas em quem deve ganhar porque não querem apostar no perdedor. É esquisito? É. Mas também há quem coloque mostarda no sorvete.

Essas enquetes e pesquisas sem cuidado científico se beneficiam do chamado viés de confirmação que seguidores de políticos e de seitas tanto buscam. Ou seja, “provas” que mostrem que seu ponto de vista é o correto por mais que a realidade aponte outra coisa. Daí, se as urnas revelarem essa outra coisa, as urnas eletrônicas é que estarão erradas. Para eles, os fatos só servem se se encaixam em suas convicções.

Quem não teve acesso a um ensino de qualidade e não teve condições materiais para se dedicar aos estudos (ainda mais em um país em que muitos acham bonito criança trabalhando), o investimento em educação poderia mudar isso. Infelizmente, o governo federal prefere reduzir impostos que financiariam a educação nos estados para que proprietários de veículos encham seus tanques com gasolina mais barata.

Pelo menos, o bolsonarismo mantém a coerência. O mesmo movimento que explorou a ignorância dos brasileiros sobre a ciência durante a pandemia de covid-19, empurrando remédios inúteis e atacando vacinas, e que diz que aquecimento global não existe com base na ocorrência de dias frios, é aquele que tortura os números até que eles digam o que ele deseja ouvir.


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