22/02/2024 - Edição 525

Poder

Bolsonarismo é isolado internacionalmente

Parlamentares dos EUA e Brasil negociam colaboração para investigar ataques terroristas em Brasília: Parlamento Europeu votará resolução contra golpismo bolsonarista

Publicado em 12/01/2023 8:19 - Jamil Chade (UOL) - Edição Semana On

Divulgação

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Deputados brasileiros e americanos estão em conversas preliminares para avaliar de que forma uma colaboração poderia ocorrer entre os dois Legislativos para permitir uma investigação sobre os ataques golpistas contra Brasília, no domingo passado.

Segundo uma notícia exclusiva publicada pela agência Reuters, essas conversas preliminares foram mantidas com deputados americanos que participaram do comitê que investigou os ataques de 6 de janeiro de 2021, contra o Capitólio. De acordo com a agência de notícias, um dos envolvidos nas conversas seria Bennie Thompson, presidente do comitê americano que foi dissolvido.

Seu trabalho foi encerrado com a recomendação para que Donald Trump fosse indiciado.

No Brasil, a Reuters aponta que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, teria mantido conversas com o principal diplomata americano em Brasília. E, segundo seu gabinete, o representante dos EUA estaria disposto a explorar caminhos.

O UOL confirmou entre deputados que as conversas estão ocorrendo desde segunda-feira. Mas que ainda não se sabe nem o formato e nem os caminhos de uma cooperação.

O que chama a atenção de analistas e políticos de ambos os lados é a semelhança entre os ataques nos EUA em 2021 e o que o Brasil viveu em 2023. A presença de bolsonaristas na Flórida, além do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, também tem despertado o interesse de congressistas americanos, que pressionam o presidente Joe Biden a não acolher o brasileiro.

Fontes que trabalham em Washington com as relações entre Brasil e EUA também confirmam que existe um forte movimento de conversas neste momento entre parlamentares de ambos os lados. Mas que seria prematuro falar na existência de uma colaboração efetiva.

Enquanto uma colaboração efetiva não ocorre, um grupo de mais de 60 parlamentares americanos e brasileiros divulgou nesta quarta-feira (11) uma declaração conjunta na qual condena “atores autoritários e antidemocráticos da extrema direita” que agem em conluio para atacar as democracias do Brasil e dos EUA.

O Washington Brazil Office foi o responsável pela articulação da iniciativa entre os parlamentares dos dois países. O texto cita tanto os ataques ao Capitólio quanto os ataques à Praça dos Três Poderes.

“Não é segredo que agitadores da extrema direita no Brasil e nos EUA estão coordenando esforços”, afirmaram os deputados de ambos os lados.

Exemplo disso, segundo eles, são os encontros entre o deputado federal Eduardo Bolsonaro e ex-assessores de Donald Trump, como Jason Miller e Steve Bannon, que “encorajaram Bolsonaro a contestar os resultados das eleições no Brasil”.

Bannon, nesta semana, aplaudiu as ações golpistas em Brasília e, em seu programa diário, difundiu mentiras sobre a eleição no Brasil e seus resultados.

Assinaram a declaração deputados e senadores como Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e Jamie Raskin. Do lado brasileiro, aderiram Alessandro Molon (PSB-RJ), André Janones (AVANTE-MG), Érika Hilton (PSOL-SP), Fernanda Melchionna (PSOL-RS), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Guilherme Boulos (PSOL-SP), Joenia Wapichana (REDE-RR), Randolfe Rodrigues (REDE-AP), Sâmia Bomfim (PSOL-SP) e outros.

Antes, durante uma reunião de emergência da OEA, o governo americano voltou a condenar os ataques e disse que atos são inaceitáveis. A Casa Branca ainda indicou que apoia o Brasil em sua busca para “proteger as instituições e encontrar os responsáveis”.

Parlamento Europeu votará resolução contra golpismo bolsonarista no Brasil

Os principais partidos políticos da Europa entram em um acordo para colocar na agenda do Parlamento Europeu a situação brasileira. O debate sobre os ataques contra a democracia no país ocorrerá no dia 19 de janeiro.

A proposta é de que uma resolução seja proposta e votada, condenando os golpistas e mostrando apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Fontes no Parlamento apontam ainda que o debate deve ainda ser usado para denunciar as políticas de Jair Bolsonaro e sua ação ao incentivar o ódio.

A proposta foi iniciada pela eurodeputada Anna Cavazzini e ganhou o apoio de uma parte substancial do Legislativo.

A ofensiva ocorre no momento dia em que a União Europeia declarou seu apoio aos esforços do Brasil de investigar os responsáveis pelos ataques contra Brasília.

“Saudamos os esforços contínuos para investigar os responsáveis pelos ataques à democracia brasileira e pelos atos de vandalismo contra a propriedade pública e o patrimônio histórico nacional”, disse a UE.

“A UE lembra que o exercício dos direitos e liberdades democráticas deve ocorrer com respeito à Constituição e às instituições democraticamente eleitas. As diferenças políticas não podem justificar atos criminosos ou colocar em questão os resultados de eleições democráticas”, defendeu.

“A UE reitera sua confiança na democracia do Brasil e na força de suas instituições. Nossa convicção é que elas prevalecerão sobre a violência e o extremismo”, afirmou.

A declaração desmonta qualquer insinuação por parte dos suspeitos de que as operações poderiam estar ocorrendo de forma irregular, ou violando direitos humanos.

Dentro do governo brasileiro, o gesto europeu de confiança nas instituições nacionais também segue o esforço do Itamaraty de dar uma mensagem de que o país conta com mecanismos para lidar com a crise e que não há um risco, nem para o governo e nem para a democracia.

A UE chamou os eventos de domingo de “motins e um ataque aberto contra as instituições democráticas do país”, além de qualificar os atos como “vandalismo” diante da posse do “presidente democraticamente eleito da República, Luiz Inácio Lula da Silva”.

“A União Européia condena firmemente estes atos chocantes de violência política, e o ataque inaceitável contra a democracia que eles representam”, disse. “Expressamos nossa solidariedade ao Presidente Lula e às instituições brasileiras em sua defesa da democracia, e apoiamos as medidas adotadas para restaurar a ordem e o respeito ao Estado de Direito”, afirmou.

Sem anistia, governo Lula assegura “solidez” da democracia ao mundo

Num recado político e diplomático forte, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva usou a reunião de emergência convocada nesta quarta-feira na OEA (Organização dos Estados Americanos) para assegurar ao mundo que a democracia no país é sólida e que os responsáveis pagarão o preço de suas ações, dentro do rigor da lei.

O encontro para lidar com a crise no Brasil havia sido proposto por Chile e Colômbia, e ganhou o apoio de EUA, Canadá e outros países. O Brasil, porém, não queria que a reunião se transformasse num sinal de que o país vive um período de incertezas sobre sua situação institucional.

Depois de quatro anos isolado dos principais debates internacionais e numa condição de pária por conta da diplomacia de Jair Bolsonaro, o governo Lula esperava inaugurar uma nova fase da política externa. Mas uma eventual classificação do Brasil como um “país problema” minaria a credibilidade dos novos interlocutores e ameaçaria os planos de Brasília de voltar a ser protagonista nos principais temas internacionais.

Na região, o Brasil quer voltar ainda a liderar um processo novo de integração. Mas teria dificuldades de assumir esse papel se fosse considerado como instável.

Ao tomar a palavra nesta tarde, o embaixador do Brasil na OEA, Otavio Brandelli, mandou a mensagem coordenada pelo Itamaraty.

“A democracia brasileira acabou de dar uma demonstração de solidez e eficácia de seus mecanismos de proteção, graças à atuação firme e coesa dos três Poderes”, disse o diplomata, indicando que o Brasil promete lutar contra atos antidemocráticos no continente.

Ainda que o discurso tenha ocorrido em um fórum regional, diplomatas do mais alto escalão no Itamaraty explicaram que essa é a mensagem que Lula quer que os demais líderes escutem. Trata-se da primeira reunião sobre o assunto, no palco global.

“O Brasil tem um compromisso inabalável com a democracia e rechaça qualquer forma de extremismo antidemocrática e violência política”, afirmou.

Sem Anistia

Um outro recado coordenado pelo Itamaraty foi de que não haverá nem anistias e nem impunidade. Segundo Brandelli, os responsáveis serão “identificados e tratados com o rigor da lei, dentro do devido processo legal”.

“O estado dará respostas à altura da gravidade dos atos cometidos. Sob a égide dos preceitos da Constituição de 1988, o Brasil registra o mais longo período de convivência democrática em sua história republicana”, insistiu.

Preocupação regional de que atos se espalhem

Nos últimos dias, governos latino-americanos demonstraram preocupação com os atos no Brasil e uma possível escalada da violência em suas próprias capitais. Para eles, portanto, era importante a sinalização da parte do governo Lula de que punições estão previstas.

Luis Almagro, secretário-geral da OEA, admitiu que o que ocorre no Brasil “talvez não seja mais um evento isolado”. Segundo ele, os ataques “fascistas” em Brasília “fazem parte de um movimento que não está presente apenas no Brasil”. “Não é um fato isolado”, insistiu. Almagro pediu que a Justiça também investigue os responsáveis intelectuais e os financiadores dos atos.

O governo de Colômbia, por exemplo, alertou para a manipulação do público e pede uma nova carta pela democracia. Bogotá destaca que está também preocupada como a ameaça que hoje enfrenta todo o continente latino-americano. “No nosso hemisfério, nem todos os estados tem a mesma capacidade de resposta (que a do Brasil)”, alertou. Para os colombianos, as condutas ameaçam desestabilizar as Américas.

O governo de Honduras, por exemplo, deixou claro que a crise não era só do Brasil. “Não sabemos onde vai ser replicado, na próxima semana ou próximo ano. Está virando em costume ruim”, alertou o representante do país centro-americano. Para ele, um golpe não termina no dia dos atos. “Depois disso, temos assassinatos, ameaças, violência”, disse.

A delegação de Honduras chegou a pedir que os chefes de estado visitem ao Brasil, se necessário, para blindar Lula de um eventual golpe.

Mesmo nos EUA, congressistas americanos alertaram nos bastidores a interlocutores brasileiros que os atos em Brasília poderiam “incentivar” a extrema direita americana.

O governo americano voltou a condenar os ataques e disse que atos são inaceitáveis. A Casa Branca ainda indicou que apoia o Brasil em sua busca para “proteger as instituições e encontrar os responsáveis”.

Além da região, tomaram a palavra as delegações de fora do Hemisfério. O governo da França também condenou os ataques e o “questionamento inaceitável” dos resultados das eleições, enquanto a Espanha criticou setores que se recusam a aceitar a derrota nas urnas e o “uso da mentira”. Madri chegou a alertar que essa é uma “ameaça global”.

Os representantes da Itália, apesar de ser liderada por um governo de extrema direita, também pediram a palavra para condenar os ataques e dizer que confiam nas instituições brasileiras. Já Portugal apoiou as medidas para restaurar a ordem, enquanto o Reino Unido disse que o mundo “não irá tolerar” as ameaças à democracia.

Brandelli destacou como a reação internacional foi importante no Brasil nos últimos meses. Segundo ele, a reação internacional diante dos ataques ainda mostrou “a importância do Brasil para a defesa da democracia no mundo”.

O diplomata ainda destacou que eleição foi ampla, livre e democrática. Também ressaltou que a posse de Lula foi uma celebração da democracia, com mais de 60 delegações internacionais. Isso, segundo ele, foi o “reconhecimento da “robustez das instituições democráticas do Brasil”.

“Agora, houve condenação unânime”, completou, sobre os atos de 8 janeiro.

O encontro contou com uma uníssona condenação por parte de todos os países da região. Embaixadores se alternaram ao longo da manhã (em Washington) para denunciar os atos, repudiando o vandalismo, a destruição da cultura e as ameaças contra a democracia.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *