21/04/2024 - Edição 540

Poder

Basta um falar para Bolsonaro derreter

Cercado pela Justiça e pela Polícia Federal, ex-presidente é assombrado por aliados e parentes à beira do xilindró

Publicado em 08/05/2023 9:10 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Yurick Luz (DCM), João Filho (Intercept_Brasil), RBA – Edição Semana On

Divulgação Marcos Corrêa - PR

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A certeza de Bolsonaro de que se reelegeria começou a desmoronar no início da segunda quinzena de setembro do ano passado. Foi quando ele se convenceu de que, na melhor das hipóteses, Lula não liquidaria a eleição no primeiro turno. Quase liquidou.

Àquela altura, Bolsonaro já decretara 100 anos de sigilo em torno do seu cartão de vacina. Se tivesse de ceder o poder, um novo governo levaria algum tempo para conferir que ele de fato não se vacinara. Quanto às joias milionárias, ele as resgataria mais tarde.

Se a eleição em segundo turno tivesse acontecido em 31 de outubro, não no dia 30, ele poderia tê-la vencido. Em Minas Gerais, Lula derrotou Bolsonaro no primeiro turno por 48,29% dos votos válidos a 43,60%.30. No segundo, por 50,20% a 49,80%.

Foi com a esperança de ser reeleito que ele incumbiu Anderson Torres, seu ministro da Justiça, da tarefa de reduzir a vantagem de Lula nos lugares onde fora bem votado. E a solução encontrada foi usar a polícia para dificultar o acesso às urnas de eleitores do PT.

Preso há quase 120 dias em um batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, no Guará, cidade a 30 quilômetros de Brasília, Torres será, hoje, novamente interrogado pela Polícia Federal sobre o golpe de 8 de janeiro que não se limitou a um único dia.

O golpe de 64 foi tramado durante meses, mas se consumou em dois dias – 31 de março e 1 de abril. O do 8 de janeiro passou pelo dia 30 de outubro e irrompeu nas ruas em 12 de dezembro com a queima de ônibus em Brasília e o ataque à sede da Polícia Federal.

Avançou em 24 de dezembro com a desativação da bomba que poderia ter explodido um caminhão e parte do aeroporto de Brasília. E culminou com o convite aos bolsonaristas radicais para que participassem da “Festa da Selma” em 8 de janeiro.

Só fracassou porque o governo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal reagiram a tempo. Do contrário, Bolsonaro teria sido reconduzido ao poder nos braços da extrema-direita e dos militares e a democracia revogada, dando lugar à ditadura.

Dizem os que cercam Torres que ele ainda não está disposto a contar o que sabe, por mais que esteja abalado. O mesmo acontece com o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordem de Bolsonaro, também preso, envolvido na fraude do cartão de vacina.

Mauro Cid ainda confia nas articulações que faz seu pai, um general da reserva, para soltá-lo. Jura fidelidade a Bolsonaro e garante que jamais o deletará. O destino dos dois passarinhos na gaiola parece ser o de ficarem presos até que admitam cantar.

O de Bolsonaro já está traçado: a inelegibilidade por 8 anos. Dê-se por feliz se não for para a gaiola.

Cantores calados, por enquanto

Acima de tudo, que os canários mantenham o bico fechado. Nada de abri-los para contar, ou cantar, o que sabem sobre o golpe de 8 de janeiro e o que fez o governo nos últimos quatro anos. No momento, há sete canários na gaiola, todos do viveiro montado com muito zelo por Bolsonaro. A saber:

– Anderson Torres, ex-ministro da Justiça;

Mauro Cid, tenente-coronel e ex-judante de ordem;

– Luis Marcos dos Reis, ex-ajudante de ordem;

– Max Guilherme, segurança;

– Sergio Cordeiro, segurança;

– Ailton Moraes Barros, ex-major expulso do Exército e candidato a deputado estadual pelo PL-RJ derrotado em 2022;

– João Carlos de Sousa Brecha, secretário em Duque de Caxias, município do Rio.

Se apenas um deles começar a cantar, Bolsonaro será reduzido a pó. Imagine se os demais acompanharem o primeiro cantor… Bolsonaro comporta-se como se tal risco não existisse.

Pegou muito mal entre os engaiolados, e seus parentes, a recente participação de Bolsonaro em evento festivo promovido pelo PL em São Paulo para conferir relevância à sua funcionária Michelle.

Foi como se Bolsonaro quisesse dizer: nada tenho a ver com esses pássaros; desconheço o que fizeram para estarem presos. Impossível, ora, que não soubesse o que fazia Mauro Cid.

O desafortunado militar só fazia o que Bolsonaro mandava. Quando teve o sigilo telefônico quebrado pela justiça em 2022, Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes de “patife”.

E acrescentou:“Você quebrou foi o meu sigilo”.

Acertou. E, por isso, está sendo cobrado para mostrar-se pelo menos solidário com os que sofrem por sua causa. É pedir demais a Bolsonaro. Ele não aprendeu a socorrer feridos em uma batalha.

Preso por fraude da vacina, Mauro Cid também será investigado por lavagem de dinheiro

Preso por falsificação de cartões de vacinação, o tenente-coronel Mauro Cid também será alvo de investigações sobre um suposto esquema de lavagem de dinheiro.

De acordo com informações reveladas pelo programa Fantástico, da TV Globo, a Polícia Federal (PF) passou a apurar a suspeita após encontrar 35 mil dólares em espécie na casa do bolsonarista durante a Operação Venire, na última semana.

O dinheiro encontrado teria sido sacado pelo militar em março deste ano, pouco antes do retorno do ex-capitão ao Brasil. Além disso, a existência de uma conta em Miami, nos Estados Unidos, em nome de Mauro Cid, também foi listada no caso.

Segundo a defesa de Mauro Cid, o montante seria parte do salário do bolsonarista em missão internacional. Já a conta em Miami é padrão para militares que cumprem ações no exterior, dizem os advogados do apoiador do ex-mandatário.

A intenção da PF é olhar com mais detalhes as operações feitas pelo tenente-coronel na conta no exterior. A expectativa, no entanto, é confirmar a origem do dinheiro, bem como suas retiradas.

PL não quer Carluxo no partido e prevê que ele será preso até 2024

Apesar da cúpula do PL ser fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o partido quer distância de um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, hoje filiado ao Republicanos, segundo informações da colunista Bela Megale, do jornal O Globo.

A cúpula da legenda não vê com bons olhos a ideia e considera Carluxo “sinônimo de problema”. Líderes do PL, no entanto, avaliam que, se Bolsonaro quiser, o filho “02” do ex-mandatário não terá dificuldades para integrar a sigla.

Vale destacar também que integrantes do partido acreditam que o vereador poderá ser preso antes das eleições de 2024.

Carluxo é investigado por um suposto esquema de rachadinha em seu gabinete. Um laudo constatou que o chefe de Gabinete de Carlos desde 2018, Jorge Luiz Fernandes, recebeu um total de R$ 2,014 milhões em créditos provenientes das contas de outros seis servidores nomeados pelo vereador.

Agora, entretanto, a 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada quer saber se os pagamentos foram eventuais ou regulares.

STF forma maioria para tornar réus mais 250 pelo 8 de janeiro

O STF (Supremo Tribunal Federal) formou no domingo (7), com a manifestação de Gilmar Mendes, maioria para acrescentar mais 250 pessoas à lista de denunciados por participação nos ataques golpistas realizados por bolsonaristas no dia 8 de janeiro, em Brasília. Com isso, já são 550 que responderão ação penal por conta do caso, número que pode chegar a 800 a partir de terça-feira (9).

O julgamento está sendo realizado no plenário virtual do STF e já tinha no sábado (6) placar de 5 a 1 favorável à abertura da ação penal. O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, puxou o grupo, sendo acompanhado por Dias Toffoli, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Rosa Weber e, agora, Gilmar Mendes. André Mendonça, “homem de Jair Bolsonaro” na Corte, foi o único a votar contra.

Faltam as manifestações de Luís Roberto Barroso, Luiz Fux e Nunes Marques, esse último também “homem de Bolsonaro”. A Corte conta no momento com dez ministros, e não onze, em virtude da recente aposentadoria de Ricardo Lewandowski. O substituto deve ser apontado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O julgamento será encerrado nesta segunda (8).

Em sua decisão, Alexandre de Moraes rebateu tese da defesa de inépcia das denúncias por estarem desprovidas de requisitos elementares, como descrição do fato criminoso e todas as suas circunstâncias. O ministro sustenta que em crimes dessa natureza, “a individualização detalhada das condutas encontra barreiras intransponíveis pela própria característica coletiva da conduta”. Acrescentou não restarem dúvidas de que todos contribuíram, “eis que se trata de uma ação conjunta, perpetrada por inúmeros agentes, direcionada ao mesmo fim”. Moraes afirmou também que a acusação “expôs de forma clara e compreensível todos os requisitos exigidos, tendo sido coerente a exposição dos fatos, permitindo ao acusado a compreensão da imputação e, consequentemente, o pleno exercício do seu direito de defesa, como exigido por esta corte”.

O atual bloco com 250 pessoas é o terceiro julgado pelo STF até agora por conta do 8 de janeiro. Os outros dois, o primeiro com 100 e o segundo com 200 pessoas, receberam a mesma decisão. Um quarto bloco, com mais 250, começa a ser julgado a partir de terça-feira (9) com prazo até dia 15. As denúncias foram apresentadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) nos inquéritos 4921 e 4922 envolvendo 1.390 pessoas. No dia 5, Alexandre de Moraes mandou soltar 40 pessoas. Com isso, 253 permanecem presas 253, sendo 67 mulheres e 186 homens.

O inquérito 4921 investiga os autores intelectuais e as pessoas que instigaram os atos. A acusação é de incitação ao crime e associação criminosa, previstos nos artigos 286 e 288 do Código Penal. O 4922 investiga os executores materiais dos crimes de associação criminosa armada (artigo 288), abolição violenta do estado democrático de direito (359-L), golpe de estado (359-M) e dano qualificado (163. A acusação envolve, ainda, o crime de deterioração de patrimônio tombado (artigo 62).

A Polícia Federal agora vai te buscar, Bolsonaro

Bolsonaro acordou com a Polícia Federal batendo à porta. O condomínio onde mora em Brasília amanheceu com policiais com metralhadoras e vestindo balaclava. A precaução dos policiais é justificada. Basta lembrar como o bolsonarista Roberto Jefferson recebeu policiais federais no ano passado: com tiros de fuzil e lançamento de granada. Todo cuidado com a turma da arminha é pouco.

A operação de busca e apreensão na casa do ex-presidente foi autorizada pelo STF no inquérito das “milícias digitais”. A polícia não tem dúvida de que um grupo de militares ligados a Bolsonaro atuou como quadrilha criminosa para adulterar carteiras de vacinação no sistema público de saúde para obter vantagens pessoais. Os militares Mauro Cid e Ailton Barros, que atuavam nas barbas do presidente da República, foram presos. O tenente-coronel Cid era o ajudante de ordens de Bolsonaro e fazia parte da sua vida íntima e da sua família, chegando a cuidar das contas bancárias pessoais dele e de Michelle Bolsonaro. Foi Cid que coordenou a tentativa criminosa de reaver as joias apreendidas pela Receita Federal na alfândega em São Paulo. O ex-major do exército Ailton Barros, também era próximo de Bolsonaro, chegando a se candidatar a deputado estadual no Rio de Janeiro usando o slogan “o 01 de Bolsonaro” — algo que só foi possível com o aval do ex-presidente.

Na decisão que autorizou a operação, Alexandre de Moraes listou seis crimes cometidos pela quadrilha: infração de medida sanitária preventiva, associação criminosa, falsidade ideológica, uso de documento falso, inserção de dados falsos em sistema de informações e corrupção de menores. O objetivo da quadrilha era adulterar as carteiras do ex-presidente, da sua filha e de integrantes da sua comitiva para enganar autoridades americanas e poder entrar nos EUA sem tomar vacina. A turma que dizia ser implacável com a corrupção, não viu problemas em corromper o sistema de saúde para falsificar documentos públicos e, assim, obter vantagens pessoais.

Parte inferior do formulário

O fato é que o cerco está se fechando para Jair Bolsonaro. Agora, além de Anderson Torres, outros dois aliados próximos amanhecem vendo o sol nascer quadrado. Nesse momento, temos 3 homens-bomba para Jair Bolsonaro na cadeia. Todos estão calados, se mantendo fiéis ao chefe, mas isso pode mudar. A partir de agora, Bolsonaro não irá dormir uma noite sequer pensando na possibilidade da PF bater à sua porta na manhã seguinte, mas dessa vez para levá-lo para a cadeia.

Chega a ser ridículo imaginar que o ex-presidente e seus comparsas estejam em apuros com a lei por causa de uma investigação de falsificação de carteiras de vacinação. Apesar de ser um crime grave, é café pequeno perto das atrocidades perpetradas pelo núcleo bolsonarista nos últimos anos. Mas essa é só a pontinha do iceberg. A CNN teve acesso aos áudios encontrados pela PF no celular de Mauro Cid. Neles, os ajudantes de Bolsonaro planejavam abertamente um golpe de estado a 15 dias do fim do seu mandato. O teor golpista das conversas é claro e não oferece margem para qualquer outra interpretação. Um golpe militar foi tramado na antessala do Palácio do Planalto por pessoas da mais alta confiança do presidente da República.

Barros descreveu o roteiro golpista nos áudios: pressionar o comandante do Exército, prender Alexandre de Moraes e colocar as Forças Armadas em ação. “Se for preciso, vai ser fora das quatro linhas”, disse, explicitando o desejo por violar a Constituição e manter seu chefe no poder. Nessas conversas não se utilizou de códigos ou meias palavras. O golpismo está límpido e claro: “Tem que ser dada a missão ao comandante de prender o Alexandre de Moraes (…) com decretos de Lei e Ordem, botar as Forças Armadas chefiadas por Bolsonaro para agir”. Perceba que os passos desse roteiro eram exatamente os mesmos que estão descritos na minuta do golpe encontrada na casa de Anderson Torres.

A tentativa de golpe militar tramada pelos aliados mais próximos de Bolsonaro é um fato difícil de negar. Já era antes de aparecerem os áudios, mas agora se tornou impossível. “Mas será que o presidente sabia dessa tramoia?”, podem perguntar os mais inocentes.  A resposta deve vir com outras perguntas: será que um presidente que defende o golpe de 64, que passou 4 anos enfiando a faca no pescoço da democracia, que anunciou que descumpriria as decisões do STF e que contestou sem provas o processo eleitoral, sabia que militares da sua mais alta confiança tramavam um golpe que o manteria no cargo? Apesar da resposta ser óbvia, juridicamente ainda falta o batom na cueca para levar o golpista-mor para a cadeia. As possibilidades disso acontecer são grandes. A PF está com apetite investigatório e irá vasculhar o celular apreendido de Bolsonaro. Além disso, a fidelidade dos seus ajudantes militares presos será colocada à prova de fogo nos próximos meses.

A família Bolsonaro nunca esteve tão encalacrada com a justiça. Além do caso das joias e da prisão dos ajudantes que tramaram um golpe e falsificaram carteiras de vacinação da família, ainda foi descoberto nesta semana um esquema milionário de rachadinha no gabinete de Carlos Bolsonaro durante uma investigação do Ministério Público. A maré virou para os Bolsonaros. As investigações da PF ainda estão em andamento e a CPMI do 8 de janeiro começará em breve. Bolsonaristas serão convocados, acareações poderão ser feitas e é possível que em breve teremos mais militares bolsonaristas indo para a cadeia. A prisão de Jair Bolsonaro parece uma possibilidade cada vez menos remota. Será um grande dia para a democracia.


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