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Mensagens de Vorcaro revelam proximidade com Ciro Nogueira e o Centrão
Publicado em 05/03/2026 9:14 - Semana On
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A Polícia Federal encontrou em mensagens extraídas de celulares do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, indícios de que ele mantinha um sistema informal de priorização de pagamentos a autoridades públicas. Os diálogos foram recuperados em conversas com seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel, e passaram a integrar o material analisado no inquérito em curso.
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Segundo as investigações, Zettel encaminhava ao banqueiro listas com débitos pendentes. Cabia a Vorcaro decidir quem deveria receber primeiro e quais pagamentos poderiam ser adiados. Na prática, a dinâmica descrita pelos investigadores funcionava como uma espécie de “fila de pagamentos” direcionada a agentes públicos.
As conversas também indicariam um critério peculiar de prioridade. Em alguns casos, quanto maior a proximidade entre Vorcaro e a autoridade mencionada, menor a urgência para a liberação do dinheiro. Em mensagens analisadas pela PF, o banqueiro teria afirmado que determinados beneficiários eram “muito de casa”, sugerindo que poderiam aguardar mais tempo pelo repasse.
De acordo com relatos obtidos pela investigação, nomes de parlamentares — especialmente do Senado — aparecem nas trocas de mensagens entre Vorcaro e Zettel. O conteúdo dos diálogos guarda semelhança com trechos já mencionados em decisão recente do Supremo Tribunal Federal.
Servidor do Banco Central citado nas conversas
Entre os exemplos citados por investigadores está um diálogo em que Zettel pergunta ao banqueiro: “Belline cobrando. Paga?”. A resposta de Vorcaro teria sido direta: “Claro”.
Belline, segundo a PF, era servidor de carreira do Banco Central e ocupava posição de chefia na área de fiscalização bancária. Para os investigadores, os registros reforçam a suspeita de que ele figurava na lista de pagamentos mantida pelo dono do Banco Master.
A análise do material apreendido levou a Polícia Federal e o Ministério Público Federal a avaliarem a abertura de uma investigação paralela ao caso original. A nova frente de apuração se concentraria em possíveis crimes de corrupção e compra de apoio político no Congresso Nacional.
Nova prisão e pressão por colaborações
A situação judicial de Vorcaro se agravou após decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que determinou sua nova prisão preventiva. A medida também atingiu Fabiano Zettel e dois servidores públicos suspeitos de participar de ações de intimidação contra adversários do grupo — entre os alvos estariam jornalistas.
Nos bastidores do Judiciário, advogados e integrantes de tribunais superiores avaliam que a ordem de prisão foi construída de forma detalhada e possui baixo espaço para reversão na Segunda Turma do STF. A decisão, dizem especialistas, tende a estimular disputas internas por acordos de colaboração premiada.
Para a Polícia Federal, Vorcaro é apontado como líder de uma organização criminosa que teria atuado em diferentes frentes ilícitas, incluindo fraude financeira, corrupção, ameaças e acesso indevido a dados sigilosos.
Obstáculos jurídicos à delação
A eventual tentativa de colaboração premiada por parte do banqueiro enfrenta obstáculos legais relevantes. A legislação brasileira restringe acordos desse tipo quando o investigado é considerado chefe da organização criminosa — condição atribuída a Vorcaro pela investigação.
Especialistas avaliam que, para negociar um acordo, o banqueiro teria de convencer a Justiça de que atuava subordinado a interesses superiores ou revelar informações capazes de atingir níveis hierárquicos ainda mais altos.
Essa possibilidade alimenta apreensão em círculos políticos e administrativos em Brasília. Nos bastidores, a principal incógnita é quem poderá procurar primeiro as autoridades para firmar um acordo de delação que reduza eventuais penas.
Impacto institucional e novos constrangimentos
O avanço das investigações também pode gerar repercussões dentro do próprio Judiciário. Há discussões sobre possíveis impedimentos de ministros do Supremo caso surjam vínculos prévios ou circunstâncias que indiquem conflito de interesses.
Enquanto a investigação avança, investigadores avaliam que o material extraído dos dispositivos de Vorcaro ainda está longe de ter sido totalmente decifrado. As primeiras análises já indicariam conexões que extrapolam o sistema financeiro e alcançam setores da administração pública.
Nesse cenário, observadores em Brasília avaliam que o banqueiro mantém hoje um único ativo estratégico: as informações acumuladas ao longo de sua rede de relações políticas e institucionais. Em um processo marcado por múltiplos envolvidos e potenciais responsabilidades cruzadas, a eventual revelação desses dados pode redefinir o rumo da investigação.
Mensagens de Vorcaro revelam proximidade com Ciro Nogueira
Novos elementos extraídos do celular de Vorcaro ampliam o alcance político das investigações que cercam o Banco Master. Conversas obtidas pela Folha de S.Paulo indicam que o banqueiro mantinha interlocução próxima com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), figura central do chamado centrão no Congresso.
Em mensagens enviadas em maio de 2024 à namorada, a blogueira Martha Graeff, Vorcaro descreve o parlamentar como “um dos meus grandes amigos de vida” e afirma que pretendia apresentá-lo a ela. O conteúdo sugere uma relação de proximidade pessoal entre o empresário e o líder partidário.
Meses depois, em agosto do mesmo ano, o banqueiro voltou a mencionar o senador ao comentar uma iniciativa legislativa. Segundo as mensagens, Nogueira teria apresentado um projeto que, na avaliação de Vorcaro, representaria “uma bomba atômica no mercado financeiro”, por beneficiar bancos médios e reduzir a vantagem competitiva das grandes instituições.
O comentário fazia referência a uma emenda proposta no Congresso para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. O dispositivo foi apresentado durante a tramitação da proposta de emenda à Constituição que tratava da autonomia do Banco Central.
No mercado financeiro, a proposta acabou apelidada de “emenda Master”, por potencialmente favorecer a estratégia do banco. À época, a instituição oferecia certificados de depósito bancário (CDBs) com remuneração que chegou a 140% do CDI, destacando em campanhas de marketing a proteção do FGC como argumento de segurança para investidores. A emenda, no entanto, enfrentou forte resistência de entidades do setor bancário e acabou sendo arquivada.
Outros registros mostram contatos políticos adicionais. Em uma das conversas analisadas, o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP) propõe a realização de uma videoconferência envolvendo ele, Vorcaro e Ciro Nogueira. O banqueiro responde positivamente: “Opa. Vamos. Só me chamar”.
Há também menções a eventos sociais que envolveriam o senador e sua família. Em mensagens de julho de 2024, Vorcaro discute com Martha Graeff a possibilidade de comparecer ao casamento de Duda Nogueira, filha do parlamentar, e manifesta interesse em que ela o acompanhe à cerimônia.
Procurado pela reportagem, Ciro Nogueira afirmou, por meio de sua assessoria, que mantém conversas por mensagem com centenas de pessoas, o que não implica relação de proximidade. O senador declarou ainda estar tranquilo em relação às investigações da Polícia Federal e afirmou não ter mantido qualquer conduta irregular relacionada ao caso.
Operador financeiro e doador eleitoral
A nova etapa da investigação também lançou luz sobre o papel de Fabiano Campos Zettel, pastor e empresário preso na mais recente fase da Operação Compliance Zero. Ele aparece entre os maiores doadores pessoas físicas das campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Segundo decisão do Supremo Tribunal Federal que autorizou as medidas cautelares da Polícia Federal, Zettel não atuava como personagem secundário. O documento o descreve como parte da engrenagem operacional que viabilizava financeiramente atividades vinculadas aos interesses do grupo liderado por Vorcaro.
De acordo com a investigação, o pastor teria participado da intermediação de pagamentos e da criação de instrumentos contratuais utilizados para justificar transferências de recursos. Um dos episódios citados envolve a elaboração de um contrato considerado simulado pelos investigadores.
O vínculo formal teria sido estruturado por meio da empresa Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda., utilizada, segundo a apuração, para dar aparência de legalidade a repasses financeiros associados ao grupo investigado.
As conversas analisadas pela Polícia Federal também indicam comunicação direta e frequente entre Zettel e Vorcaro para tratar da organização de fluxos financeiros e da condução de pagamentos envolvendo terceiros.
Pressão política sobre o Banco Central
O avanço das investigações também começa a produzir repercussões no campo institucional. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou na Procuradoria-Geral da República uma notícia-crime pedindo investigação contra o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em razão da supervisão exercida sobre o Banco Master.
Na representação, o parlamentar sustenta que há indícios de falhas relevantes na atuação da autoridade monetária durante o período em que a instituição financeira expandiu suas operações. Segundo o documento, o próprio Banco Central teria aberto uma sindicância interna para revisar decisões adotadas desde 2019 na supervisão do banco.
A petição questiona por que medidas mais severas — como intervenção, direção fiscal ou liquidação extrajudicial — não teriam sido adotadas quando começaram a surgir sinais de risco na instituição.
Outro ponto levantado envolve mudanças regulatórias aprovadas durante a gestão de Campos Neto. Segundo o deputado, alterações em normas relacionadas aos fatores de ponderação de risco teriam flexibilizado salvaguardas prudenciais no sistema financeiro, criando ambiente propício à expansão de operações consideradas mais arriscadas.
O documento também menciona a autorização do Banco Central para a transferência de controle do Banco Máxima para o Banco Master — operação que abriu caminho para o crescimento acelerado do grupo financeiro.
Na avaliação do parlamentar, o caso pode apontar não apenas falhas de supervisão, mas a possibilidade de captura do aparato regulatório por interesses privados. A notícia-crime pede que o Supremo Tribunal Federal determine a abertura de investigação, com participação da Procuradoria-Geral da República, além da coleta de documentos internos e o depoimento de Campos Neto e de servidores envolvidos nas decisões.
A iniciativa ocorre enquanto a Operação Compliance Zero amplia o cerco em torno do entorno político e financeiro de Daniel Vorcaro, indicando que as repercussões do caso podem ultrapassar o setor bancário e alcançar instâncias sensíveis do sistema político e regulatório brasileiro.
Tentativa de suicídio sob custódia da PF
Luiz Phillipi Mourão, de 43 anos — identificado pela Polícia Federal como colaborador próximo de Vorcaro — sofreu uma tentativa de suicídio enquanto estava sob custódia da corporação, em Belo Horizonte.
Segundo informações divulgadas pela imprensa brasileira, Mourão foi encontrado desacordado na cela da superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais na quarta-feira (4), poucas horas após ter sido preso na nova fase da Operação Compliance Zero. Ele havia sido detido por determinação do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.
Ao localizarem o investigado, agentes tentaram realizar manobras de reanimação e acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Mourão foi encaminhado ao Hospital João XXIII, na capital mineira, onde os médicos iniciaram o protocolo clínico para confirmação de morte cerebral.
De acordo com informações divulgadas pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o quadro evoluiu para morte cerebral — condição que, pela legislação brasileira, é considerada equivalente ao óbito. Até o final da noite do mesmo dia, contudo, a Polícia Federal e a defesa do investigado ainda não haviam confirmado oficialmente a morte.
Os advogados Robson Lucas e Vicente Salgueiro afirmaram, em nota, que estiveram com Mourão por volta das 14h do dia da prisão e que ele se encontrava “em plena integridade física e mental”. A defesa declarou ter tomado conhecimento do episódio apenas após a divulgação de um comunicado oficial da Polícia Federal.
A corporação informou que o caso será objeto de apuração interna e que os elementos coletados serão encaminhados ao gabinete do ministro relator no Supremo.
Operador de estrutura paralela
Nas investigações da Polícia Federal, Mourão aparece descrito como um dos responsáveis pela execução operacional de uma estrutura informal ligada ao grupo empresarial investigado. Em mensagens atribuídas a Vorcaro, ele era chamado pelo apelido de “Sicário” — termo em espanhol associado a matadores de aluguel.
Segundo a PF, Mourão coordenaria um núcleo denominado “A Turma”, supostamente encarregado de atividades de vigilância, intimidação e coleta de informações sobre pessoas consideradas adversárias do banqueiro. De acordo com os investigadores, o grupo teria sido remunerado com cerca de R$ 1 milhão mensais para executar essas ações.
Entre os registros analisados pela polícia estão mensagens em que Vorcaro solicita a Mourão levantamento de informações sobre funcionários e orienta ações de pressão contra determinadas pessoas. Em uma das conversas, o banqueiro pede que o operador “levante tudo” sobre um funcionário e menciona a necessidade de “assustar” outros alvos.
As trocas de mensagens também citam o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, como possível alvo de monitoramento. Em um dos diálogos atribuídos ao banqueiro, aparece a sugestão de acompanhar os passos do jornalista para obter informações pessoais.
Em outro trecho, há referência a uma agressão simulada, supostamente planejada para ocorrer durante um assalto. Mourão responde à mensagem perguntando se a ação deveria ser executada.
Após a divulgação desses conteúdos, Vorcaro afirmou, por meio de nota, que nunca teve a intenção de ameaçar ou intimidar jornalistas e que as mensagens teriam sido retiradas de contexto. A defesa de Mourão também nega qualquer envolvimento dele em atividades criminosas.
Acesso indevido a bases de dados
Outro eixo das investigações diz respeito ao acesso irregular a sistemas de informação sensíveis. Segundo a Polícia Federal, Mourão teria utilizado credenciais de terceiros para consultar bases de dados de órgãos públicos brasileiros, incluindo sistemas da própria PF e do Ministério Público.
A apuração aponta ainda tentativas de acesso a bancos de dados de organismos internacionais, como o FBI e a Interpol.
Além da coleta de informações, o investigado também teria participado de iniciativas voltadas à remoção de conteúdos considerados prejudiciais ao grupo investigado. De acordo com decisão judicial citada no processo, mensagens indicam o envio de comunicações que simulavam solicitações institucionais para plataformas digitais.
Essas comunicações, segundo a investigação, buscavam obter dados de usuários ou retirar conteúdos da internet sem a devida validação formal de autoridades públicas.
Histórico judicial
Mourão já figurava no radar das autoridades antes da atual investigação. Ele responde a processo por lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa em um caso ligado a um esquema de pirâmide financeira que teria operado entre 2018 e 2021.
A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público de Minas Gerais e aceita pela Justiça em 2021.
Com a possível morte do investigado, o episódio tende a abrir uma nova frente de questionamentos sobre a cadeia de responsabilidades no caso. Além das implicações humanas e jurídicas do episódio, investigadores avaliam que o desaparecimento de um personagem considerado peça operacional da estrutura pode afetar a reconstrução completa das atividades atribuídas ao grupo investigado.
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