01/03/2024 - Edição 525

Poder

Augusto Nardes, ministro golpista, sai de cena para que o esqueçam, mas deve responder à Justiça

Golpismo na folha do TCU reforça apatifamento da extrema direita

Publicado em 22/11/2022 8:43 - Ricardo Noblat (Metrópoles), RBA, Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Valter Campanato/ABR

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Sem essa, como disse o ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), que “lamenta profundamente a interpretação que foi dada sobre um áudio despretensioso gravado apressadamente e dirigido a um grupo de amigos”.

Sem essa que “repudia peremptoriamente manifestações de natureza antidemocrática e golpistas, e reitera sua defesa da legalidade e das Instituições republicanas”. Nem seu áudio foi “despretensioso”, nem suas palavras foram mal interpretadas.

No áudio dirigido a um grupo de amigos, ele disse ser “questão de horas, dias, no máximo, uma semana, duas, talvez menos do que isso” para um “desenlace bastante forte na nação [de consequências] imprevisíveis, imprevisíveis”.

Disse ter muitas informações sobre um “movimento forte nas casernas” e que o país deve estar preparado para viver nas próximas horas, dias ou semanas um “confronto decisivo”. E que Bolsonaro se recupera para “enfrentar o que vai acontecer”.

Pressionado por ministros do Supremo Tribunal Federal favoráveis à sua punição pela fala golpista, Nardes licenciou-se do TCU sob pretexto de cuidar da saúde. Vai deixar a poeira baixar para então reocupar o cargo com a esperança de não ser punido.

Associações de tribunais de contas condenam declarações

A Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), o Conselho Nacional de Presidentes dos Tribunais de Contas (CNPTC) e o Instituto Rui Barbosa (IRB) divulgaram na segunda-feira (21), mensagem de repúdio à fala golpista de Augusto Nardes. Acesse aqui a íntegra do documento.

O comunicado da associação pondera que uma tentativa de “retratação do ministro”, tentou minimizar, após a revelação, a gravidade do áudio postado. A Atricon, entretanto, observou na conduta um “sério agravo à legitimidade democrática e ao ordenamento jurídico”. A entidade classificou que a fala de Augusto Nardes permissiva com uma situação (de agressões à democracia) “incompatível com a atuação da magistratura de Contas”.

Selvageria

A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente do PT, afirmou que juristas alertaram para a gravidade da declaração gravada do ministro do TCU. E informou que a legenda prepara duas ações contra Nardes. “Uma interpelação à Corregedoria do Tribunal de Contas da União, porque ministro do tribunal não pode ter ação política. Então ele tem de explicar o que aconteceu, e a corregedoria tomar providências”, disse Gleisi.

Além disso, a parlamentar informou que apresentará uma representação no Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo é que a fala política de Augusto Nardes se incorpore ao inquérito dos atos antidemocráticos que tramita na Corte. “As pessoas têm que ter responsabilidade com o cargo que ocupam, com o que falam, principalmente quando estimulam movimentos como os que estamos vendo. Que continuam na frente dos quartéis, e paralisando ainda algumas rodovias”, lembrou.

“No Paraná, colocaram terra numa rodovia. Uma van com estudantes se acidentou, e ele tiveram de ir para um hospital. Tivemos agora no Enem ônibus sendo barrados… Isso é selvageria. É preciso haver medidas ‘pedagógicas’ para quem patrocina isso.”

Golpismo na folha do TCU reforça apatifamento

Pilhado em flagrante num áudio em que sua voz soou como uma autêntica vivandeira de quartel, o ministro do TCU Augusto Nardes disse ter feito apenas uma análise da conjuntura para um grupo de amigos. Tudo “dentro da democracia e da liberdade de expressão.” A democracia pressupõe respeito ao resultado das urnas. A liberdade dá ao cidadão o direito de fazer tudo o que as leis permitem. E as leis não autorizam a contestação golpista de eleições legítimas.

Dirigindo-se a amigos do agronegócio, o ministro declarou num grupo de WhatsApp que “está acontecendo um movimento muito forte nas casernas”. Previu um “desenlace muito forte”, de consequência “imprevisíveis”. Afirmou que Bolsonaro “certamente terá condições de enfrentar o que vai acontecer no país”.

O que vai acontecer no país, como sabem todos os brasileiros que não contraíram erisipela mental, é a posse de Lula no dia 1º de janeiro. Mas Augusto Nardes parece acreditar que algo diferente pode acontecer, tem que acontecer, vai acontecer.

Bolsonaro submeteu parte dos agentes públicos brasileiros —civis e militares— a um processo de apatifamento. “Apatifar”, informam os dicionários, significa tornar desprezível, aviltar, envilecer. Pessoas podem se apatifar. Um pedaço da sociedade também pode se apatifar. Ou se apatifado por uma infecção virtual. O que não se admite é que o apatifamento seja remunerado pelo contribuinte.

Se deseja conspirar contra as urnas, o ministro Nardes deveria pedir demissão do TCU e acampar na frente do QG do Exército, sujeitando-se à chuva e às leis, como os outros golpistas. A presença do golpismo na folha do TCU leva o processo de apatifamento às fronteiras do paroxismo.


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