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Poder
Comandados pelo ex-presidente, amotinados de alta patente estavam prontos para destruir a democracia
Publicado em 26/11/2024 10:51 - Aguirre Talento, Bruno Luiz, Saulo Pereira Guimarães, Laila Nery e Josias de Souza (UOL), João Filho (Intercept_Brasil) – Edição Semana On
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Áudios obtidos pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre os planos golpistas para manter Jair Bolsonaro (PL) na Presidência mostram a comunicação de militares enquanto tramavam a ruptura democrática.
Os áudios integram a investigação que aponta até plano para matar o presidente Lula (PT), o vice Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro do STF Alexandre de Moraes. As apurações da PF culminaram na Operação Contragolpe, deflagrada na terça-feira (19), que prendeu cinco pessoas (quatro militares e um policial federal) por suspeita de envolvimento na tentativa de golpe.
As gravações foram reveladas pelo Fantástico, da TV Globo. Os 52 áudios mostram a participação ativa do general Mário Fernandes, um dos presos na operação da PF, na articulação golpista, e conversas com outros militares como o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, e o coronel reformado Reginaldo Vieira de Abreu.
Veja e ouça algumas das principais mensagens trocadas entre militares sobre o plano golpista:
“Vou conversar com o presidente… teria que ser antes do dia 12”
O ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, afirma a Mário Fernandes que vai “conversar” com o então presidente da República sobre a possibilidade de autorizar a ação dos militares no que sugere ser a autorização para o golpe de Estado. A fala é uma resposta ao general, que, segundo as investigações da PF, foi um dos principais articuladores da intentona golpista.
“Não, pode deixar. Vou conversar com o presidente. O negócio que ele tem essa personalidade às vezes, né? Ele espera, espera, espera, espera para ver até onde vai e ver os apoios que tem. Só que, às vezes, o tempo tá curto, né? Não dá para esperar muito mais passar, né? Dia 12 seria teria que ser antes do dia 12, né, mas com certeza não vai acontecer nada. E, sobre os caminhões, pode deixar que eu vou comentar com ele porque o Exército não pode. Papa mosca de novo, né, a área militar, ninguém vai se meter até porque a manifestação é pacífica, né? Ninguém tá fazendo nada ali” – Mauro Cid a Mário Fernandes
‘Vai ser guerra civil agora ou guerra civil depois’
Em conversa com Mário Fernandes, o coronel Roberto Criscuoli falou em “guerra civil agora ou guerra civil depois” ao citar uma suposta resposta popular à vitória de Lula. Para ele, uma decisão tem que ser “tomada urgente” e o presidente – então, Bolsonaro – “não pode pagar pra ver”.
“Ô Mário, bom dia. Mário, eu tava até conversando agora com o pessoal aqui, cara. Se nós não tomarmos a rede agora, depois eu acho que vai ser pior. Na realidade vai ser guerra civil agora ou guerra civil depois. Só que a guerra civil agora tem um significativo, o povo tá na rua, nós temos aquele apoio maciço. Daqui a pouco nós vamos entrar numa guerra civil, porque daqui a alguns meses esse cara vai destruir o exército, vai destruir tudo. Aí o povo vai dizer assim, agora que mexeram com você, vocês vão pra rua. Se você resolve tomar… Então vai ficar feio. Porque ele vai destruir todo o exército. Ele vai mandar todos os 4 estrelas embora. Vai ficar com os G. Dias (general Gonçalves Dias) e alguns outros aí. Cara, não vai ficar legal, cara. É melhor ir agora. O povo tá na rua e pedindo, que, daqui a pouco, nós vamos ir por interesse próprio. Aí não vale. Aí eu não vou. Aí eu não vou. Então é a hora de ir agora, cara. Também concordo com esse texto que tu mandou. Pô, tô dentro. Mas tem que ir agora que o povo está pedindo. Não porque vão mandar os generais pra reserva. Então eu acho que essa decisão tem que ser tomada urgente, cara. E o presidente não pode pagar pra ver também, cara. Ele vai destruir o nosso país, cara. O argentino já esteve aqui com o chapéu na mão, cara. Vai esperar virar uma Venezuela pra virar o jogo, cara? Democrata é o cacete. Não tem que ser mais democrata mais agora. Ah, não vou sair das quatro linhas. Acabou o jogo, pô. Não tem mais quatro linhas. Agora o povo da rua tá pedindo, pelo amor de Deus. Vai dar uma guerra civil? Vai dar, eu tenho certeza que vai dar, porque os vermelhos vão vir feroz. Mas nós estamos esperando o quê? Dando tempo pra eles se organizarem melhor? Pra guerra ser pior? Irmão, vamos agora. Fala com o 01 aí, cara. É agora. Hoje eu tô dentro, amanhã eu não tô mais não. Amanhã é o que eu quero dizer daqui a pouco. Por interesses outros eu não vou. Nem eu e nem a turma daqui. Um saco cheio de explicar pro civil que as coisas tão sendo tomadas, que tem um cara lá que tá fazendo isso, tem um pessoal que vai falar, tem um pessoal que tá acusando, tamo pegando prova. A porra, não dá mais, cara. Não dá mais. Não é mais pra ter prova não, quer mais prova do que já teve? E o povo tá na rua pedindo? Vambora, pô! Pau!” – Criscuoli durante conversa com Mário Fernandes.
‘Tá na cara que houve fraude… nem que seja pra divulgar e inflamar a massa’
Em conversa com um militar, Mário Fernandes fala em “clamor popular, como foi em 64 (ano do golpe militar)” para convencer o Alto Comando das Forças Armadas a endossar a tentativa de golpe. Na conversa, Fernandes fala em “inflamar a massa” para que o “start” do golpe seja “feito pela sociedade”.
“Tá na cara que houve fraude, porra. Tá na cara, não dá mais pra gente aguentar essa porra. Tá foda. Tá foda. E outra coisa: nem que seja pra divulgar e inflamar a massa, pra que ela se mantenha nas ruas, e aí, sim, talvez seja isso que o Alto Comando, que a Defesa quer. O clamor popular, como foi em 64. Porque, como o senhor disse mesmo, boa parte do Alto Comando, pelo menos do Exército, não tá muito disposto, né? Ou não vai partir pra intervenção A não ser que o start seja feito pela sociedade. Pô, Geraldo, reforça isso aí. Eu tô fazendo meu trabalho junto à brigada e o pessoal de divisão da minha turma, cara. Força, kid preto. Um bom final de semana e que esse final de semana e a próxima semana nos tragam um acalento. A gente tá precisando” – Mário Fernandes em conversa com um militar sobre os planos golpistas”.
‘Vamos para o vale tudo, eu tô pronto a morrer por isso’
Em diálogo com Mário Fernandes, o general Hélio Osório de Coelho afirma estar “pedindo a Deus” para que o presidente – na época, Jair Bolsonaro – tome uma “ação enérgica” e que irá para o “vale tudo”. Ele diz que é capaz de “morrer por essa nação” e que se recusa a viver sob o “jugo de bandidos criminosos, comunistas”, ao mostrar indignação com a vitória de Lula.
“Eu sou capaz de morrer, cara, pelo meu país, sabia? Pelo meu presidente, cara. Sou capaz de morrer por essa nação a ter que viver sob jugo de bandidos criminosos, entendeu? Comunistas. Eu sou capaz de morrer, cara, por essa nação. Só pode ter certeza disso. Não só eu, mas milhares e milhares de pessoas. Entendeu? Eu não consigo vislumbrar meus sobrinhos, minhas sobrinhas, os filhos pequenos de meus amigos, das minhas amigas, ficando sob o jugo desse vagabundo. Não consigo imaginar. Eu prefiro ir pra guerra. Eu prefiro ir pro campo de batalha. Entendeu? Viver a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Entendeu? Aprendi isso na caserna. Honrar a minha bandeira. Honrar o meu presidente. Então eu… tô pedindo a Deus pra que o presidente tome uma ação enérgica e vamos sim pro Vale Tudo. Eu tô pronto a morrer por isso. Porque o que adianta viver sem honra? O que adianta andar na rua de cabeça baixa e não poder bater no peito que um dia eu lutei pela liberdade?” – General em diálogo com Mário Fernandes.
Fernandes diz que sugeriu a Bolsonaro colocar Braga Netto de novo na Defesa para ter mais “apoio” a golpe
Em uma conversa com Marcelo Câmara, ex-assessor de Bolsonaro, Mário Fernandes relatou ter pedido ao então presidente que colocasse o general Walter Braga Netto de novo no Ministério da Defesa, no apagar das luzes do governo. Segundo ele, a mudança seria para Braga Netto desse mais “apoio” aos planos golpistas por estar “indignado” com a falta de apoio do Alto Comando das Forças Armadas aos intentos de ruptura democrática.
“Cara, eu tô aloprando por aqui. E eu queria que tu reforçasse também, pô. Eu falei com o Cordeiro ontem, falei com o presidente. Porra, cara, eu tava pensando aqui, sugeri o presidente até… Porra, ele pensar em mudar de novo o OMD, porra. Bota de novo João Braga Neto lá. João Braga Neto tá indignado, porra. Ele vai ter um apoio mais efetivo. Reestrutura de novo, velho. Ah, não, porra, aí vão alegar que eu tô mudando isso pra dar um golpe. Porra, negão. Qualquer solução, c///aveira, tu sabe que ela não vai… acontecer sem quebrar ovos, sem quebrar cristais. Então, meu amigo, parte pra cima, apoio popular é o que não falta. E, porra, tem que tomar cuidado, cara. Ontem eu fiquei preocupado com a saúde do presidente. Ele tem que se cuidar, cara. E levantar a cabeça, porra. Partir pra cima. Ainda que seja caindo, porra, ele vai cair de pé, porra” – Mário Fernandes a Marcelo Câmara.
‘Pedi o pessoal (para) ir lá para casa do presidente, ele nem apareceu’
Numa das mensagens, o coronel Vieira de Abreu reclama com Fernandes da ausência de Bolsonaro em um evento que reuniu apoiadores do então presidente.
“Pô, eu pedi o pessoal ir lá pra casa do presidente, lotaram, ficaram três horas lá, ele nem apareceu. Deve tá com vergonha, né? Aí pedi o pessoal ir lá pra casa do Arthur Lira. Aí, pô, eu tô com vergonha de pedir. Porra, puta merda. Ele que tenha coragem moral, pelo menos até quinta-feira falar que não quer mais, né? O pessoal pelo menos passar o Natal em casa.”
Monitoramento do GSI
Os áudios enviados pelo PF Wladimir Soares, preso por integrar equipe que planejava matar presidente também revelam que ele monitorava membros do GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República).
Wladimir, que atuava no apoio à segurança de Lula depois das eleições, ainda em 2022, passou dados restritos para a segurança pessoal do então presidente, Jair Bolsonaro. Ele, que estava na coordenação de segurança de hotéis em Brasília, enviava mensagens e fotos de futuros membros do GSI. No dia 13 de dezembro, Wladimir informou ao assessor especial de Bolsonaro, Sérgio Cordeiro, sobre a chegada de Misael Melo da Silva, assessor do Gabinete Pessoal de Lula, nomeado em 1º de janeiro de 2023.
“Ô irmão, eu tô aqui na Coordenação desse evento, né velho, de posse. Aí eu vim pras fixas dos hotéis, coordenando isso aqui. Aí o gerente ligou dizendo que esses caras entraram… tá no nome de Misael essa reserva. E que entraram quatro caras que não quiseram se identificar, dizendo ser Polícia Federal, aquela coisa toda. Mas não são, né. Saíram também sem se identificar e eles acionaram a gente. Eu não sei se são do GSI, se não são. Se tem a ver com o nosso governo atual e tão trabalhando pro outro, entendeu meu irmão? Muita coisa pode acontecer a gente não sabe. Eles tão total… dizendo que são secretos e tudo, né. Disseram que estavam em missão secreta e não podiam dizer” – Wladimir Soares, da Polícia Federal, em mensagem encaminhada para Sérgio Cordeiro, assessor especial de Bolsonaro, no dia 13 de dezembro, às 11h44.
“Fala Cordeiro. Beleza? Seguinte meu irmão já tá tudo resolvido aqui. O Misael é do GSI, sim. E… ele tá à disposição aí do, do, do, do, candidato, né, Luís Inácio. E o que acontece, cara. Ele… como rolou aquela situação no prédio da Polícia Federal [referência a tentativa de invasão ao prédio da PF em Brasília, no dia 12 de dezembro de 2022] em Brasília, ontem, eles acionaram a equipe do COT. E uma equipe do COT, como o Lula estaria ali no prédio, né, do, do MELIÁ, é… uma equipe o COT ficou à disposição, próxima. Então, eles hospedaram essa equipe do COT aqui no Windsor. Certo? Mas, isso aí foi, foi tudo acertado mesmo. Tá bom? Só pra, de repente, você ter essa informação. Valeu meu irmão? Um abraço. Vamos torcer, meu irmão. Tamo aqui nessa torcida. Essa porra tem que virar logo. Não dá pra continuar desse jeito, não, irmão. Vamos nessa. Eu tô pronto” – Wladimir Soares, no dia 13 de dezembro às 12h07.
Segundo a PF, após a troca de mensagens, ambos pesquisaram mais sobre Misael Melo da Silva, em fontes abertas. Até 27 de abril de 2022 Misael ocupava o cargo de assistente do ex-presidente Bolsonaro.
Forças armadas viraram fábrica de terroristas
Tio França não foi o único a querer matar Alexandre de Moraes. Bolsonaro e o seu núcleo de militares golpistas também quiseram. Além do ministro, o presidente eleito e seu vice também estavam na mira da gangue golpista.
As provas colhidas pela Polícia Federal são fartas, robustas e não deixam pedra sobre pedra. A tentativa de golpe não só aconteceu como pretendia-se um banho de sangue.
Além do ex-presidente, outras 36 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal por tentativa de golpe de Estado, abolição do estado democrático de direito e organização criminosa.
Os investigadores não têm dúvida de que, sob o aval do então presidente, os militares planejaram os assassinatos de autoridades e mobilizaram agentes públicos das Forças Armadas para cometer os crimes.
O plano, batizado de Punhal Verde e Amarelo, foi discutido com pelo menos 35 militares, muitos deles de alta patente. Tudo foi planejado em reunião na casa do general Braga Neto, ex-ministro da Defesa e candidato a vice de Bolsonaro, e o documento com os detalhes foi impresso por uma impressora do Palácio do Planalto.
Bolsonaro avisou aos comparsas que o plano tinha uma data limite para ser executado: 31 de dezembro de 2022. Bolsonaro sabia de tudo. Nenhum desses fatos está no terreno da suposição. Tudo está calçado por áudios, fotos, mensagens de texto, dados de geolocalização, documentos e imagens de câmeras de segurança levantados pela investigação.
Já faz um tempo que o bolsonarismo se vê encurralado pela realidade dos fatos levantada pela investigação, mas nesta semana a coisa evoluiu para um xeque-mate.
Se a delação de Mauro Cid já era o batom na cueca de Bolsonaro e cia, agora tem-se em mãos um filme pornô hardcore com participação ativa de boa parte da cúpula militar. O castelo golpista dentro das Forças Armadas desmoronou.
Quatro militares de elite já foram presos. Dos 37 indiciados pela PF, 25 são militares, entre eles oficiais de alta patente que foram ministros do governo Bolsonaro, como os generais Braga Netto, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira.
Os milicos que foram presos faziam parte dos Kids Pretos, um grupo especial das Forças Armadas treinado para ações de sabotagem e insurgência popular. O lema do grupo é: “qualquer missão, em qualquer lugar, a qualquer hora e de qualquer maneira”.
Em uma das mensagens trocadas entre os Kids Pretos cinco dias após a eleição de Lula, um deles escreveu: “Democrata é o cacete. Não tem que ser democrata mais agora”. É irônico e satisfatório imaginar que dois anos depois o autor dessa frase seria preso pela democracia. Como diria o golpista-mor — e colunista convidado da Folha — Jair Bolsonaro, “aceitem a democracia.”
As forças armadas foram corroídas pelo golpismo e atuaram de forma permanente para incitar a desordem. A prisão de todos os militares envolvidos na tentativa de golpe é urgente. Além disso, é preciso que o governo federal faça tudo o que estiver ao seu alcance para extirpar o golpismo das Forças Armadas. Isso está longe de ser feito.
O ministro da Defesa, José Múcio, minimizou o papel das Forças Armadas na tentativa de golpe e disse que os crimes foram cometidos por “um grupo isolado”. Mesmo após 2 anos no cargo, o ministro segue fazendo vista grossa para o golpismo institucionalizado entre os militares. Quem está desbaratinando a quadrilha golpista da instituição é a Polícia Federal e o STF, enquanto Múcio prefere evitar a fadiga.
Não é minimamente razoável, por exemplo, que dois dos milicos presos por participar do plano de assassinato de Lula, estarem atuando na missão de segurança da cúpula do G20. Não se trata de tarefa fácil e é até compreensível a cautela de Múcio para mexer nesse vespeiro. Mas essa é uma briga inadiável.
As forças armadas tornaram-se uma fábrica de militares fanatizados por uma ideologia reacionária e golpista. É uma incubadora de Tios Franças. Trata-se de uma instituição caríssima para os cofres do estado, mas que oferece pouco ou quase nada de volta à sociedade além de tentativas de golpe. Ou faz-se uma limpeza radical na instituição e uma reformulação total dos seus métodos ou outros governos serão assombrados pelo golpismo militar no futuro.
É necessário também falar sobre o papel do PL na trama. Valdemar da Costa Neto, presidente do partido e integrante do braço político do plano golpista, também foi indiciado.
A PF reuniu indícios de que a estrutura do partido foi usada “para financiar a estrutura de apoio às narrativas que alegavam supostas fraudes às urnas eletrônicas, de modo a legitimar as manifestações que ocorriam em frentes as instalações militares”.
Foi o PL que alugou a casa que abrigou o comitê de campanha de Bolsonaro e que, após o segundo turno, foi usada como um QG da trama golpista. No inquérito, Mauro Cid aparece pedindo R$100 mil para o general Braga Netto, que é filiado ao PL, para financiar o plano de assassinato de autoridades dos Kids Pretos.
Braga Netto respondeu dizendo que era para pegar com o PL. Tudo indica que o partido de Valdemar teve papel fundamental para a organização criminosa, o que pode culminar com a cassação do seu registro.
Ainda temos um longo caminho pela frente. A investigação agora segue para o STF e posteriormente será encaminhada à PGR, que analisará as provas levantadas pela PF e decidirá se denuncia ou não os envolvidos. Todos os caminhos percorridos até aqui levam Bolsonaro e os golpistas para a cadeia.
A democracia não tem opção: ou extirpa essa gente nefasta de uma vez ou será assombrada mais uma vez em um futuro próximo. A História nos deu a lição: a anistia aos golpistas de 64 gerou os golpistas de 22.
Esse ciclo precisa ser quebrado. O golpismo deve ser aniquilado de forma definitiva pelas forças da democracia. Tio França e os Kids Pretos são a prova de que o espírito golpista continua vivíssimo.
Bolsonaro soou em entrevista como um cínico réu confesso
Após tirar férias do próprio ócio, Bolsonaro desembarcou em Brasília. Concedeu uma reveladora entrevista. Nela, soou como um cínico réu confesso. Indiciado como golpista, admitiu que procurou saber “se existia alguma maneira na Constituição para resolver o problema.” Que problema? “Tinha insatisfação no Brasil”, limitou-se a dizer.
De fato, havia uma insatisfação difusa no país em 2022. Mas a maioria do eleitorado despejara seu descontentamento nas urnas, enviando Bolsonaro mais cedo para casa. Tomado pelas palavras, o derrotado cogitou quase tudo, até a decretação de um estado de sítio. Só não pensou em passar a faixa para Lula.
Bolsonaro fez pose de ofendido com o palavreado chulo e criminoso dos seus cúmplices. “Esses áudios vazados aí me ofendem”, disse o capitão, como que puxando a faca para os oficiais do “Punhal Verde Amarelo”, nome dado ao plano que previa a execução de Lula, Alckmin e Moraes.
Os militares indiciados junto com Bolsonaro começam a perceber que as versões do chefe da organização criminosa soam desconexas. Mas convergem sempre para um mesmo ponto: sejam quais forem as provas reunidas pela Polícia Federal, todos os crimes foram cometidos pelos outros. O tenente-coronel Mauro Cid já havia experimentado a mesma sensação. Deu em delação.
Bolsonaro fará do julgamento no Supremo o comício de sua vida
Bolsonaro sabe o que fez no verão passado. Já percebeu que o Supremo Tribunal Federal o condenará à prisão. Se o comportamento que exibe a caminho do patíbulo serve para alguma coisa é para sinalizar que o capitão transformará o seu julgamento num grande comício. O comício do resto de sua vida.
É mais fácil comover-se com uma pedra do que extrair emoção do puxa-saquismo sanfoneiro do ex-ministro do Turismo Gilson Machado. Os olhos de Bolsonaro marejaram porque a lágrima tornou-se parte da coreografia da vitimização. O capitão fortão precisa acionar de vez em quando o modo fraquinho.
O fortão falou como um ditador vebezuelano na reunião ministerial de julho de 2022: “Nós sabemos que, se a gente reagir depois das eleições, vai ter um caos no Brasil, vai virar uma grande guerrilha, uma fogueira no Brasil. Agora, alguém tem dúvida que a esquerda, como está indo, vai ganhar as eleições? Não adianta eu ter 80% dos votos. Eles vão ganhar as eleições.”
O fraquinho soou manso e lacrimejante: “Alguns falam que o meu defeito foi jogar limpo num país onde tinha muita coisa escondida. Mas valeu a pena. Se eu for embora hoje, valeu a pena”. Ao fundo, uma canção desconexa —”O dinheiro do Brasil ia para o povo, não para Cuba…”— e os acordes desafinados.
Bolsonaro sabe o que o aguarda. “Posso ser preso agora, ao sair daqui”, disse, após desembarcar no aeroporto de Brasília. No banco dos réus, a encenação não tem serventia. Nas redes sociais, a coreografia vitimista alimenta o conspiracionismo da perseguição, mote do comício hipertrofiado de Bolsonaro.
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