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Poder
Crise do Pix, preço dos alimentos e desinformação alimentam insatisfação popular
Publicado em 27/01/2025 11:15 - Semana On
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A primeira grande crise de popularidade do governo Lula em seu terceiro mandato transcende as flutuações estatísticas de aprovação e desaprovação. Os números da pesquisa Quaest, divulgada nesta segunda-feira (27), revelam um momento de inflexão: a desaprovação ao governo subiu para 49%, superando pela primeira vez a aprovação, que caiu para 47%. Embora a margem de erro de um ponto percentual sugira empate técnico, o recado das ruas é claro: há um desgaste significativo no apoio ao presidente, que atinge em cheio os pilares históricos de sustentação petista — as classes populares e o Nordeste.
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A crise do Pix, provocada por uma onda de desinformação amplificada por figuras públicas da extrema direita, emerge como o estopim imediato. A proposta de ampliar a fiscalização de transações financeiras, em um esforço para combater crimes econômicos e aumentar a arrecadação, foi distorcida em discursos que alarmaram a população, gerando pânico e desconfiança. Mesmo com o recuo do governo, a narrativa negativa permanece: 66% dos entrevistados acreditam que o Planalto “errou mais do que acertou” na gestão do episódio.
O impacto político dessa crise, contudo, não se resume à comunicação. Como aponta o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, o desgaste revela um descompasso entre o governo e as expectativas populares, especialmente em relação ao cumprimento de promessas de campanha. Em janeiro de 2025, 65% dos brasileiros acreditam que Lula não está entregando o que prometeu, o maior índice desde o início do mandato.
Bases eleitorais em erosão: o alerta do Nordeste
O Nordeste, tradicionalmente a fortaleza eleitoral do lulismo, registrou uma queda de 8 pontos percentuais na aprovação do governo, passando de 67% para 59% em um único mês. Trata-se de um sinal de alerta grave. Historicamente, o Nordeste simboliza o eleitorado mais fiel ao projeto petista, devido às políticas redistributivas que marcaram os governos Lula e Dilma Rousseff, como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e os investimentos em infraestrutura na região.
Essa perda de apoio não ocorre isoladamente. Entre as classes de baixa renda, outro bastião do petismo, a aprovação caiu de 63% para 56%. Esse grupo, que experimentou avanços significativos durante os anos dourados do lulismo, hoje enfrenta um cenário de insegurança alimentar agravado pela inflação de alimentos, que subiu 7,69% em 2024, acima da inflação geral de 4,83%. Para os mais pobres, a alta do custo de vida elimina os efeitos positivos de indicadores como o crescimento de 3,5% do PIB ou a queda do desemprego para 6,1%, a menor taxa desde 2012.
A relação entre economia e política é complexa, mas não há dúvidas de que, no Brasil, o preço dos alimentos é um termômetro central do humor popular. Quando o custo do feijão e do arroz sobe, os eleitores não procuram explicações em fatores externos como as mudanças climáticas ou o dólar; responsabilizam diretamente o governo. Esse fenômeno, observado desde a redemocratização, coloca Lula diante de um desafio histórico: reconectar-se com as demandas imediatas da população sem perder de vista projetos estruturais de longo prazo.
A democracia em tempos de desinformação e polarização
A crise do Pix também expõe um problema estrutural da política contemporânea: o impacto corrosivo da desinformação no debate público. As fake news que associaram as mudanças no Pix a uma suposta invasão de privacidade financeira ou aumento de impostos foram decisivas para moldar a percepção popular. Mais de 11% dos entrevistados citaram o tema como a principal notícia negativa do governo, superando em muito questões como inflação (2%) e corrupção (3%).
Esse fenômeno não é novo, mas atinge novos patamares no Brasil contemporâneo. Desde 2018, a extrema direita consolidou o uso de desinformação como estratégia política, explorando o vácuo comunicacional dos adversários para construir narrativas de fácil apelo emocional. A normalização da mentira como método político, como bem aponta Felipe Nunes, é um desafio não apenas para o governo Lula, mas para a democracia brasileira como um todo.
Esse contexto coloca em xeque a eficácia de medidas paliativas, como a recente nomeação de Sidônio Palmeira para o Ministério da Comunicação. Embora o reforço na comunicação governamental seja necessário, o problema é mais profundo: trata-se de um abismo entre governo e sociedade, em que as demandas populares não são traduzidas em políticas claras e eficazes.
O legado histórico e os desafios de 2026
A crise de popularidade de Lula também lança sombras sobre seu plano político para 2026. A oposição, ainda fragmentada, observa o desgaste do governo com interesse renovado. No cenário atual, especula-se sobre a viabilidade de uma candidatura “nem-nem” — nem Lula nem Bolsonaro — que possa capitalizar o cansaço da polarização.
Lula, contudo, não enfrenta apenas o desafio de recuperar sua popularidade; precisa lidar com questões estruturais que afetam a governança em tempos de crise climática, inflação e insegurança alimentar. Assim como Bolsonaro foi julgado pela gestão desastrosa da pandemia de Covid-19, Lula será avaliado por sua capacidade de responder às crises de alimentos e energia, exacerbadas pelas mudanças climáticas.
A histórica dependência do Brasil de uma economia baseada no agronegócio e no petróleo torna o país particularmente vulnerável a esses fatores. Embora o governo tenha feito avanços no combate ao desmatamento, como a redução de 33% das taxas na Amazônia em 2024, faltam políticas robustas para adaptar a produção agropecuária às novas condições climáticas. Sem isso, o preço dos alimentos continuará a pressionar a percepção popular, tornando ainda mais difícil qualquer tentativa de reconstruir a confiança perdida.
Governar na tempestade
Os desafios enfrentados por Lula não são inéditos, mas a combinação de crise econômica, desinformação e erosão democrática cria uma tempestade perfeita que pode definir o futuro de sua gestão e do Brasil. O Planalto precisa ir além da comunicação e apresentar soluções concretas para problemas como inflação, violência e mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que resgata a confiança popular em seu projeto político.
A história recente mostra que os governantes não são julgados pelas crises em si, mas pela forma como as enfrentam. Lula, com sua longa trajetória política, sabe disso melhor do que ninguém. A questão central não é apenas recuperar os índices de aprovação, mas redefinir seu governo como uma força capaz de enfrentar os desafios do presente e pavimentar um caminho para o futuro — um futuro que, sem ações efetivas, pode escapar de suas mãos.
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