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Poder

Após barulho nas eleições, Forças Armadas silenciam sobre atos golpistas

Grupos de PMs do DF difundem fake news e mensagens golpistas

Publicado em 18/01/2023 10:43 - Leonardo Sakamoto e Chico Alves (UOL), Plinio Teodoro (Fórum) – Edição Semana On

Divulgação Exército

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Nem as Forças Armadas, nem o Ministério da Defesa publicaram, até agora, nota oficial repudiando a invasão golpista do Congresso, do Palácio do Planalto e do STF no último dia 8. A falta de uma manifestação em defesa das instituições em suas páginas e redes sociais contrasta com as declarações frequentes do período eleitoral, criticadas como interferência indevida.

Uma manifestação pública oficial repudiando os atos ajudaria no arrefecimento dos ânimos de que vem clamando por uma intervenção das Forças Armadas. O silêncio ocorre em um momento em que militares vêm sendo criticados por conivência com os acampamentos de caráter golpista.

A última nota oficial do site do Ministério da Defesa é “Relatório das Forças Armadas não excluiu a possibilidade de fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas”, de 10 de novembro do ano passado. Ironicamente, a força motriz dos atos golpistas de 8 de janeiro foram exatamente as mentiras contadas pelo então presidente Jair Bolsonaro sobre a falta de lisura do sistema eleitoral.

Os militares haviam sido duramente criticados por golpistas depois que o tal relatório não afirmou que a eleição foi roubada. Para agradá-los, o Ministério da Defesa de Bolsonaro publicou a nota baseada na falácia de que fraudes são possíveis porque os militares não conseguiram provar que são impossíveis.

A última nota conjunta assinada pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica disponível nas páginas das forças data de 11 de novembro, defendendo que manifestações são legítimas, referindo-se àquelas em torno de instalações militares que pediam golpe de Estado. O texto afirmava que eventuais restrições a esses atos eram “condenáveis”, em um recado a quem tentava por fim à bomba-relógio que viria a explodir na semana passada. Ressalte-se que o país ainda vivia o período eleitoral, que terminou com a diplomação de Lula em 12 de dezembro.

Os comandantes também avaliaram que “eventuais excessos cometidos em manifestações que possam restringir os direitos individuais e coletivos ou colocar em risco a segurança pública” são condenáveis. Mas, após o 8 de janeiro, não houve condenação em nota pública por parte dos novos comandantes que assumiram com a troca de governo.

Tampouco houve um tuíte reprovando os ataques às sedes dos Três Poderes. O silêncio nas redes sociais sobre o assunto contrasta com o comportamento de outrora, quando o então comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, usou sua conta na rede para pressionar o Supremo Tribunal Federal contra um habeas corpus a favor de Lula em 2018.

As Forças Armadas podem se pronunciar sobre assuntos que dizem respeito às funções que lhes cabem de acordo com a Constituição Federal, obedecendo ao Ministério da Defesa. Contudo, durante o governo Jair Bolsonaro, opinaram sobre o que não lhes dizia respeito, como o sistema eleitoral. Seria salutar, portanto, o silêncio que agora fazem sobre os atos golpistas se esse silêncio não fosse no sentido contrário de algumas de suas ações.

Exército pune militares, mas protegeu acampamento golpista

O Exército agiu para indiciar e punir membros que participaram de atos, como o coronel da reserva Adriano Testoni, que ficou famoso por aparecer em um vídeo babando e xingando a cúpula da força de “bando de generais filhos da puta, covardes, Alto Comando do caralho”, entre outras coisas, por não terem se engajado no golpe. Ele também foi demitido do Hospital das Forças Armadas, onde trabalhava.

Outros, como o capitão de mar e guerra reformado Vilmar José Fortuna, que participou do ato golpista,foi demitido de cargo que ocupava no Ministério da Defesa.

Mas as forças vêm sendo criticadas pelo comportamento de seus membros da ativa, como o comandante do Batalhão da Guarda Presidencial do Exército, major Paulo Jorge Fernandes da Hora, investigado por dificultar a ação da polícia para retirar os golpistas do prédio.

E, principalmente, pela demora em desmobilizar o acampamento golpista em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, usado como cabeça de ponte para o ataque aos prédios da Praça dos Três Poderes.

O Exército também impediu a entrada da Polícia Militar no acampamento na noite do dia 8. Dois blindados foram deslocados para a entrada do Setor Militar Urbano, para deixar claro o recado. Isso foi corroborado em depoimento pelo ex-comandante da PM, Fabio Augusto Vieira, exonerado do cargo após a intervenção federal no DF. As prisões puderam acontecer apenas na manhã seguinte, dando tempo para muitos escaparem.

Depoimento de Vieira e do próprio governador Ibaneis Rocha, afastado das funções pelo STF por conta da omissão diante do caos, apontam que a PM já havia tentado desmobilizar o acampamento em dezembro e o Exército não autorizou.

O ministro da Defesa, José Múcio, chegou a dizer a Lula antes dos ataques que um processo de desidratação pacífica estava surtindo efeito. De fato, o número de golpistas reduziu em dezembro, mas o acampamento golpista continuava lá, protegido pelos militares.

O QG do Exército, dessa forma, serviu de QG para o ataque à sede da PF e a queima de carros e ônibus no dia 12 de dezembro, para planejar e organizar a colocação de uma bomba em um caminhão de combustível a fim de explodir o Aeroporto de Brasília no dia 24 e, finalmente, como base para o terrorismo do dia 8.

Sobre os ataques de 12 e 24 de dezembro, também não há nenhuma nota oficial.

Comandante do Exército, general Arruda é denunciado pelo MPF por acampamentos golpistas

O Ministério Público Federal (MPF) acatou uma notícia-crime da deputada eleita Luciene Cavalcante (PSOL-SP), que vai assumir a cadeira da agora ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na Câmara Federal, e denunciou o general Júlio César de Arruda, comandante do Exército, por prevaricação pela inação diante dos acampamentos golpistas montados por apoiadores de Jair Bolsonaro em frente aos quartéis-generais da força.

Luciene ressalta a falta de empenho do comandante do Exército em desmobilizar os acampamentos, que serviram para abrigar terroristas que destruíram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o edifício-sede do Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 8.

“Os depoimentos feitos à Polícia Federal demonstram que o acampamento do Distrito Federal foi estratégico para o ato golpista, e nesse sentido é urgente investigar os relatos que dão conta da participação, seja por ação ou por omissão, do alto comando do Exército”, diz a notícia-crime.

A deputada cita na ação a barreira montada por soldados do Exército para proteger o acampamento na noite do dia 8, após os atos terroristas na Praça dos Três Poderes.

“Isso tipifica crime de prevaricação com relação à atuação do Exército junto ao acampamento golpista e à falta de segurança dos Três Poderes no dia 8”, afirma.

Arruda está no centro da crise entre o Planalto e as Forças Armadas. Em café com jornalistas na semana passada, Lula mirou o comandante do Exército quando afirmou que as “Forças Armadas não são poder moderados” em meio à críticas aos militares.

Ainda nesta semana o presidente deve se reunir com Arruda e os comandantes da Marinha e da Força Aérea Brasileira (FAB) para tentar buscar um alinhamento dos militares com o governo.

O anúncio foi feito pelo ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, que esteve nesta terça-feira (17) reunido com o alto comando militar e o ministro da Defesa, José Múcio. Segundo o ministro, a pauta da reunião, entretanto, não foram os atos terroristas, mas sim a modernização das Forças Armadas que Lula planeja empreender.

“A ideia do presidente é discutir com o Ministério da Defesa a modernização das nossas Forças Armadas. Em qualquer lugar do mundo há, nas principais nações, um alinhamento dos investimentos na defesa da nação, dos investimentos nas Forças Armadas, com ciência, tecnologia, desenvolvimento de conhecimento, com formação de mão de obra. E o presidente já tinha definido desde a campanha que gostaria de modernizar as Forças Armadas”, disse Costa em rápida coletiva de imprensa após a reunião, adicionando que Lula deve se reunir com os comandantes das três forças ainda esta semana.

Grupos de PMs do DF difundem fake news e mensagens golpistas

Dezenas de memes, vídeos e mensagens postadas em grupos de WhatsApp criados e compostos por policiais do Distrito Federal mostram a ligação da Corporação com o bolsonarismo golpista. Os integrantes são na maioria policiais militares, embora também haja alguns civis. Muitos são da reserva, mas é expressiva a participação de PMs da ativa.

Em três dias de observação de diálogos nesses grupos foi possível detectar:

– Publicações de falsos meios de comunicação relatando mentiras sobre o sofrimento de pessoas presas nas portas de quartéis ou durante os atos golpistas em Brasília;

– Memes que dão falsamente a entender que há censura no país para quem reclama do governo Lula;

– Fake news sobre quantias astronômicas que Lula teria depositado no Banco do Vaticano;

– Vídeo de um suposto criminoso que diz defender grupos golpistas e faz ameaças ao ministro do STF Alexandre de Moraes e a Lula;

– Fake news de que o ministro da Justiça, Flávio Dino, iria desarmar as polícias;

Após as invasões aos prédios da praça dos Três Poderes, a atuação da PM do Distrito Federal foi muito criticada. Soldados foram vistos mexendo no celular e comprando água de coco enquanto as depredações aconteciam ou estavam por começar. Poucos se dispuseram a enfrentar os invasores.

Por causa disso, o então comandante-geral da PM do DF, coronel Fábio Augusto Vieira, foi preso por determinação de Moraes.

Na corporação, em que boa parte dos integrantes são simpatizantes de Bolsonaro, a prisão do chefe foi mal recebida. Isso serviu para multiplicar ainda mais o conteúdo de desinformação e contestação ao resultado das urnas nesses grupos de WhatsApp.

Por dentro dos grupos de WhatsApp de PMs do DF

No grupo Conservadores DF, frequentado por policiais, circulou na segunda (16) postagem que tratava os eleitores de Lula como “jumentos”, havia críticas à decisão de Moraes de arquivar pedido de prisão contra Dino, ataques ao ex-ministro petista José Dirceu e um meme em que o personagem da Disney Zé Carioca diz ao Pato Donald que no Brasil ninguém pode reclamar (uma alusão a censura).

No grupo da associação de policiais Cabe (Caixa Beneficente da PMDF), um participante que seria um coronel PM da reserva diz que esteve nos acampamentos golpistas e que participou das depredações do dia 8, onde afirma ter sido ferido na perna. Ele defende o impeachment de ministros do STF e de Lula, além de uma paralisação de caminhoneiros. “Se não, estaremos perdidos”, escreveu.

Nesse mesmo grupo, foi citada uma falsa proposta de decreto que teria sido feita por Flávio Dino para que a Polícia Militar seja desarmada. Esse decreto não existe.

No grupo CFSd 95 (referência ao Curso de Formação de Soldados de 1995), foi postado na segunda-feira um vídeo de um homem que se faz passar por integrante de uma facção criminosa e diz que está preparando a “tropa” para resgatar os golpistas presos em Brasília. O homem —não identificado— faz ameaças a Moraes e a Lula.

Ontem, no grupo Força Reserva, que congrega policiais da reserva, da ativa e alguns civis, foi repassado um texto com orientações do “nosso presidente Jair Bolsonaro” sobre como os direitistas devem se comportar nas redes sociais diante de manifestações da esquerda.

Desde o último fim de semana, mensagens que correm nessas listas alertam para que se tome cuidado com o teor das mensagens postadas, já que “um delegado da PF” intimou o administrador de uma dessas listas a comparecer à Superintendência da PF, em Brasília, para esclarecer “participação, em ambiente virtual coletivo, de propagação de mensagens com conteúdo de desinformação, que podem caracterizar atos antidemocráticos”.

A coluna procurou a Polícia Federal para saber se esses grupos estão sendo investigados, mas a resposta foi que “oficialmente, a posição é de que a PF não se manifesta sobre eventuais operações e investigações em andamento”.

A PM do DF também foi procurada, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Policiais que não concordam com o teor das mensagens postadas nesses grupos lamentaram à coluna o nível de radicalização de alguns de seus colegas. Reconhecem que a maior parte da corporação é simpatizante de Bolsonaro, mas criticam especialmente um grupo menor de fanáticos bolsonaristas que dissemina desinformação.

“A forma que a extrema direita pretende usar é a contaminação das instâncias oficiais com mensagens do subterrâneo bolsonarista”, diz o historiador João Cézar de Castro Rocha.

Para ele, que estuda a narrativa de ódio do bolsonarismo, a divulgação desse tipo de conteúdo em grupos de policiais é de uma “gravidade enorme”.

“O pior legado de Bolsonaro é a bolsonarização das forças de segurança. Que mensagens assim circulem em grupos da PM é algo gravíssimo, mostra que a bolsonarização corrói por dentro as instituições. Não há democracia possível se não houver controle da desinformação.”


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