26/02/2024 - Edição 525

Poder

Ao menos dez jornalistas foram agredidos e roubados por terroristas bolsonaristas em Brasília

Agressões a profissionais de imprensa são uma prática tipicamente autoritária e associada ao bolsonarismo

Publicado em 09/01/2023 10:02 - Cristiane Sampaio (Brasil de Fato), A Gazeta, Exame - Edição Semana On

Divulgação

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Os extremistas pró-Bolsonaro que invadiram e depredaram os prédios dos Três Poderes no domingo (8) na capital federal agrediram pelo menos nove profissionais da imprensa, segundo dados do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF).

Uma repórter fotográfica do portal Metrópoles chegou a ser derrubada e espancada por 10 homens, além de ter o equipamento de trabalho danificado.

Outra profissional, desta vez da revista New Yorker, foi agredida com chutes e derrubada no chão. Ela foi socorrida, na sequência, por seguranças do Ministério da Defesa. A truculência da tropa bolsonarista atingiu também um repórter do jornal O Tempo, que foi atacado por criminosos que chegaram a apontar uma arma de fogo para o profissional dentro no Congresso Nacional.

Já um trabalhador da TV Band teve o aparelho celular destruído enquanto registrava os ataques dos extremistas com a câmera do equipamento. Três outros repórteres, sendo um da Agência France Press, outro da Agência Reuters e o outro da Folha de S. Paulo, tiveram os materiais de trabalho roubados, com um deles tendo sido fisicamente agredido pelos bolsonaristas.

Além disso, uma jornalista que colabora com o portal Brasil 247 chegou a ser ameaçada pelos extremistas pós-golpe e foi obrigada a apagar os registros da invasão que haviam sido feitos no celular. As agressões também atingiram um repórter da Agência Brasil, que teve o crachá puxado pelas costas enquanto registrava a depredação dos prédios. O profissional ficou com escoriações no pescoço.

Um profissional do jornal O Tempo, que pediu para não ter o nome divulgado, fez um relato das agressões. No Senado, ele foi “preso” por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro por cerca de 30 minutos, teve o celular e a mochila tomados, recebeu chutes, levou tapa na cara e foi ameaçado com armas.

“Roubaram meu crachá, quebraram ele. Pegaram minha carteira, pegaram os documentos. Roubaram meu dinheiro, R$ 20. Era só o que eu tinha. Pegaram meu celular. Repetiam a todo momento que eu era ‘petista infiltrado’. Eu respondia que não era, que estava ali a trabalho. Foi então que colocaram uma arma na minha cabeça, dizendo que eu ia morrer. Outro apareceu com outra arma, colocada nas minhas costas. E não paravam de me dar tapa na cara e xingar”, disse o repórter.

Além do jornalista de O Tempo, foram agredidos repórteres da Band e do Washington Post e fotógrafos da Folha de S.Paulo, AFP, Reuters, Poder360 e Metrópoles.

A repórter Marina Dias, que fazia a cobertura para o jornal norte-americano Washington Post, também foi atacada por vândalos que a perseguiram até a garagem do Ministério da Defesa. “Fui cercada, chutada, empurrada, xingada. Quebraram meus óculos, puxaram meu cabelo, tentaram pegar meu celular. É preciso punir essas pessoas. Isso é crime”, escreveu Marina no Twitter.

Conivência

“Infelizmente, as forças de segurança não cumpriram o seu papel. Nós esperamos que elas possam retomar o controle da situação e orientamos os nossos colegas a registrarem Boletim de Ocorrência sobre o que aconteceu. Colocamos a nossa assessoria jurídica do sindicato à disposição e fazemos também um apelo pra que as empresas também prestem todo o apoio necessário e avaliem ainda hoje e nos próximos dias as condições de segurança pra que as equipes estejam nessa cobertura”, disse ao Brasil de Fato a dirigente Juliana Nunes, da coordenação-geral do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF).

Em nota conjunta divulgada logo após o ocorrido, o SJPDF e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) atribuíram as ocorrências ao que chamaram de “inoperância” do governo do Distrito Federal, comandando pelo governador Ibaneis Rocha (MDB) – afastado de suas funções nesta segunda-feira -, e pelos setores de segurança pública e Forças Armadas.

“Permitiram a escalada da violência e se mostraram coniventes com os grupos golpistas, que não respeitam o resultado das eleições, a Constituição e a democracia. Lembramos que, por diversas vezes, o sindicato cobrou das empresas e da Secretaria de Segurança Pública do DF medidas cabíveis para garantir a segurança das trabalhadoras e dos trabalhadores da imprensa. No entanto, as agressões de hoje demonstram que, mais uma vez, isso não ocorreu”, emendam as entidades, no documento.

Fascismo à brasileira

As agressões a jornalistas são uma prática tipicamente autoritária e associada ao bolsonarismo. Os ataques a profissionais do segmento aumentaram exponencialmente sob o governo do ex-capitão Jair Bolsonaro, que esteve no poder entre 2019 e 2022. Entre 2018 e 2021, por exemplo, o número de ocorrências saltou de 135 para 430, segundo acompanhamento feito pela Fenaj. Dos 430 mencionados, 147 partiram diretamente do ex-presidente extremista, o equivalente a 34% do total.

Reação

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em nome dos sindicatos profissionais associados, repudiaram os ataques à democracia cometidos por bolsonaristas radicais em Brasília.

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) afirmou, em nota, que condena da forma mais veemente os crimes contra a democracia que se desenrolam em Brasília. “A liberdade de imprensa é inerente ao Estado democrático de direito, que não pode tolerar ou conviver com a baderna e o vandalismo”, diz o texto.

Na declaração, a ANJ condenou ainda os ataques a jornalistas que fazem a cobertura das invasões em Brasília e exigiu uma posição firme das forças de segurança contra as agressões e os atentados à liberdade de imprensa e à democracia.

Em carta aberta em suas redes sociais, a Fenaj chamou de lamentáveis os ataques à democracia brasileira, promovidos por bolsonaristas que não aceitam o resultado das eleições. “O Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF) foram invadidos, depredados e saqueados por terroristas a serviço de uma força política fascista, que tem como principal líder o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)”, escreveu a entidade.

A federação e os 31 sindicatos de jornalistas condenou golpistas que insistem em “desafiar a Constituição, mantendo acampamentos em frente a quartéis do Exército, promovendo ações terroristas em Brasília e pedindo intervenção militar”.

“É inadmissível a omissão do governo do Distrito Federal, bem como a leniência de parte das Forças Armadas, da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal diante da escalada anticonstitucional do bolsonarismo. Em qualquer país moderno e democrático, atitudes como as que temos visto no Brasil seriam severamente reprimidas e punidas, em defesa do bem maior e coletivo.

A entidade também reforçou os recorrentes ataques a jornalistas brasileiros, no exercício de seu trabalho, “vítimas de intimidações e agressões por membros e apoiadores desse grupo político violento e antidemocrático. São centenas os casos registrados nos últimos anos, quase uma dezena apenas na primeira semana desse ano”, diz a nota.

“Exigimos apuração e rigorosa punição dos responsáveis por este grave atentado à democracia brasileira, incluindo financiadores e realizadores. Alertamos, ainda, para a necessidade de as forças de segurança combaterem o cerceamento ao trabalho dos jornalistas, vítimas recorrentes da onda de violência das hordas bolsonaristas”, conclui a Fenaj.


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