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Poder
Bolsonaro e parte da elite foram acostumados a não ver pobres como cidadãos
Publicado em 29/09/2022 10:46 - Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On
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O ministro da Economia de Jair Bolsonaro defendeu vender praias brasileiras para ricos estrangeiros em entrevista na quarta (28). “É mal gerido o troço”, disse. O governo que ajudou a produzir quase 700 mil mortos na pandemia e a elevar o número de famintos para 33 milhões, agora quer limitar uma das únicas diversões gratuitas e democráticas que sobrou. Com isso, Paulo Guedes reforça o lugar do pobre em sua sociedade.
Ele já reclamou de acesso do filho do porteiro ao financiamento universitário, desaprovou empregadas domésticas viajando à Disney, criticou o aumento na expectativa de vida da população, repreendeu os mais humildes por não pouparem (por que será que fazem isso, né?) e os associou à destruição do meio ambiente.
Acredita que está sendo pragmático ao defender vender praias, um patrimônio de todos os brasileiros, para ricos estrangeiros por R$ 1 bilhão cada. Para a maioria de nós é chocante essa visão excludente, mas a parte da elite econômica que ele representa, que compreende da mesma maneira que ele a narrativa do lugar que ricos e pobres devem ocupar na sociedade, entende bem a mensagem sobre quem são os donos do país.
Guedes joga também com um público que não é da elite, mas que se identifica com ela (chegando a operar como guerreiros do capital alheio). Esse grupo foi levado a acreditar que o Estado rouba quem “paga impostos” para entregar a “parasitas”, sejam eles funcionários ou trabalhadores de classes menos favorecidas, que querem apenas usufruir do patrimônio público.
E quando o tempo é visto como dinheiro, o descanso é encarado como prejuízo.
Escapa-lhes o fato de que todos pagam impostos – inclusive os pobres e a classe média pagam, proporcionalmente, mais imposto do que os muito ricos no Brasil através do consumo ou da renda. E todos são donos do país.
Também ignoram que os objetivos da República, previstos no artigo 3º da Constituição Federal, são a garantia dos direitos sociais junto com o desenvolvimento econômico. Pois o constituinte entendeu, de maneira correta, que uma coisa não funciona sem a outra, caso contrário não temos um país, nem um futuro comum.
Por essa lógica distorcida, seja nas praias, na Disney ou nas universidades, há “parasitas” com “nosso dinheiro” em “nosso lugar” usando “nosso patrimônio”. Um dos principais problemas do país seria, portanto, o fato de haver gente fora do lugar que lhe foi pré-determinado pela conta bancária.
E esse lugar, no caso dos trabalhadores, se dá através dos deveres do trabalho e não nos direitos de cidadão. Quer diversão? Que paguem por ela!
Essa narrativa, segregacionista e excludente, apresenta uma simbiose com a do presidente da República, que expressa a mesma coisa no plano moral que Guedes manifesta no econômico.
Nesse sentido, como eu já disse aqui mais de uma vez, tão ou mais violento que todas essas declarações é o fato de o ministro ter defendido um auxílio emergencial de apenas R$ 200 por família no início da pandemia em 2020. Graças ao Congresso Nacional, o valor acabou sendo de R$ 600/R$ 1200 por domicílio.
Soma-se a isso a interrupção do auxílio emergencial em 31 de dezembro do ano passado, o atraso de 96 dias para retomá-lo e o valor pífio dessa nova rodada, insuficiente para garantir a sobrevivência de uma família pobre e, portanto, incapaz de segurar alguém em casa para evitar o contágio por covid-19.
Guedes, enquanto empurrava a volta do benefício com a barriga, declarava que as contas do país não aguentariam isso. Chantageava a volta do auxílio com a aprovação da desvinculação de gastos obrigatórios em saúde e educação.
Tudo isso ajudou a fome a saltar de 19 milhões para 33 milhões em pouco mais de um ano.
Não é à toa que Bolsonaro gosta do ministro da Economia e a metáfora do casamento entre eles é real. Jair dizia que seu governo iria ajudar os trabalhadores através de programas que trazem “Verde e Amarelo” no nome. Dai, Paulo propunha que proteções e garantias desses trabalhadores fossem limadas em troca desses empregos.
Guedes não limitou Bolsonaro, como imaginavam alguns analistas nas eleições de 2018. Pelo contrário, ele o fortalece. São um só animal político, com duas cabeças.
Conta uma anedota filosófica que Alexandre, o Grande, ao visitar o filósofo Diógenes, que não era o Chaves, mas também passava os dias em um barril, disse a ele: “Peça-me as riquezas que quiser que eu lhe darei”. Ouviu de resposta um pedido para que o imperador não fizesse sombra para o sol que o filósofo estava tomando. “Apenas não tire de mim o que não pode me dar.”
Vale para a alegria na Grécia antiga, mas também para a do Brasil de 2022.
Bolsonaro e parte da elite foram acostumados a não ver pobres como cidadãos
Jair Bolsonaro tem sido bastante criticado por dizer que pobres foram acostumados a não aprender uma profissão. E merece, claro. Mas ele externou um pensamento comum a uma parte da elite e da classe média que acredita que resolver o problema dos pobres é inventar profissão para eles.
“Tirar as pessoas da linha da pobreza é um trabalho gigantesco, são pessoas que foram ao longo dos anos acostumadas a não se preocupar, ou o Estado negar uma forma de ela aprender uma profissão”, afirmou o presidente em entrevista ao canal Rede Vida.
Eleição após eleição, temos visto candidaturas do PSDB, por exemplo, apontando a criação de escolas técnicas como essa solução. Sem querer desmerecer a sua importância (posso atestá-la, pois fiz o ensino médio em uma e, antes de mim, meu pai também), mas essa mensagem irrita muita gente nas periferias. A impressão é que, ao pobre, o curso técnico, ao rico, a universidade.
Por que o aumento nas vagas em cursos de nível superior público não tem a mesma importância na pauta eleitoral que a criação de ETECs? A resposta talvez compartilhe da mesma percepção que a declaração de Bolsonaro – que diz abertamente o que outros ensaboam para falar.
Para quem é pobre e das periferias, há um orgulho de chegar à universidade, que ainda é vista como uma forma de ampliação dos horizontes e de melhora econômica e social. Pois isso, apesar dos ataques do bolsonarismo à formação de nível superior, apontar que o lugar do pobre também é a universidade tem apelo.
Não à toa, a campanha petista ao governo paulista insiste em falar mais sobre o Haddad ministro da Educação, responsável pela implementação do ProUni e pela expansão da rede federal de universidades, do que do Haddad prefeito de São Paulo, que não conseguiu a reeleição.
Ironicamente, a USP Leste, último grande empreendimento de universidade pública estadual na capital, foi fundada durante o governo do neocamarada Geraldo Alckmin.
A implementação de cotas reduziu a aparência monocromática de universidades públicas estaduais e federais, mas ainda há um longo caminho para a ocupação desses espaços de forma mais democrática. Basta ver a reação violenta de quem teve seus privilégios reduzidos com a medida. E essa ocupação passa, necessariamente, pela abertura de novas vagas.
Mas a declaração de Bolsonaro também precisa ser lida para além dessa análise.
Em sua preconceituosa matriz de interpretação do mundo, o presidente considerou por muitos anos que programas de distribuição de renda eram uma fábrica inútil de produtores de filhos porque é assim que ele e uma parcela do país enxergam os pobres: um grupo interesseiro que, diante da oferta de uns caraminguás, prefere parar de trabalhar e de estudar.
“O Bolsa Família é uma mentira, você não consegue uma pessoa no Nordeste para trabalhar na sua casa. Porque se for trabalhar, perde o Bolsa Família”, afirmou em entrevista à Record News, em 2012.
“O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada”, disse em entrevista ao documentarista Carlos Juliano Barros, em 2015.
Ah, mas isso é o passado, antes de ele ser presidente – dizem alguns. Então, segura essa:
“Não tem como tirar o Bolsa Família do pessoal, como alguns querem. São 17 milhões de pessoas que não têm como ir mais para o mercado de trabalho. Com todo o respeito, não sabem fazer quase nada”, explicou em 27 de outubro do ano passado, em entrevista à TV A Crítica.
“Não sabem fazer quase nada.” Essa ideia de que pobre precisa ser tutelado está no DNA do bolsonarismo e de uma parcela da elite.
Pela intenção de voto de quem ganha até dois salários mínimos até aqui, creio que eles discordam do presidente.
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