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Poder
No Brasil de Bolsonaro, Datafolha é apenas mais um comunista a ser abatido
Publicado em 22/09/2022 12:47 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On
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As pernas e os braços que chutaram e socaram um pesquisador do Datafolha, na terça (20), no interior de São Paulo, foram de Rafael Bianchini, um bolsonarista violento. Mas quem incitou o crime mora no Palácio do Alvorada, em Brasília. Sim, a agressão está, politicamente, na conta de Jair.
Após finalizar a entrevista com um morador na cidade de Ariranha, o pesquisador foi atingido pelas costas e teve seu tablet derrubado. Ao reagir à agressão, passou a ser atacado também pelo filho de Bianchini, precisando ser salvo por outros moradores que testemunharam a cena. Então, o bolsonarista foi buscar uma peixeira em casa, sendo contido pelo filho.
A cena remeteu imediatamente à outra, com outro Rafael, também bolsonarista, que após esfaquear 15 vezes o seu colega de trabalho petista após uma briga que começou por desavença eleitoral, foi até um barracão e pegou um machado para cortar fora a cabeça da vítima.
Benedito dos Santos foi morto por Rafael de Oliveira, em Confresa (MT), horas após Bolsonaro defender, em comício na praia de Copacabana no 7 de Setembro, que era necessário “extirpar da vida pública” adversários políticos da esquerda. Foi a segunda morte de um petista por um bolsonarista em briga política na eleição.
É necessária muita má fé ou muito cinismo para afirmar que não há relação alguma entre os reiterados ataques aos institutos de pesquisa proferidos pelo presidente da República e seus aliados e o clima de insegurança que paira sobre esses trabalhadores nas ruas. E o Datafolha registra uma escalada de hostilidades, como nunca se viu.
Jair tenta convencer os seus seguidores que os institutos mentem e distorcem os fatos porque os resultados das pesquisas, que mostram ele atrás de Lula na disputa presidencial, não os agradam.
A sobreposição dos discursos de lideranças políticas, religiosas e sociais ao longo do tempo, fomentando ódio contra institutos de pesquisa, políticos, magistrados, jornalistas, entre outros, distorce a visão de mundo de seus seguidores e torna a agressão “necessária” para tirar o país do caos e extirpar o “mal”, alimentando a violência.
Muitos seguidores fanáticos encaram um ataque a um trabalhador de um instituto de pesquisa como uma missão quase divina em nome do “mito”, não um crime contra um trabalhador. Segundo o Datafolha, há 21% dos brasileiros que acreditam em tudo o que ele diz, sendo alimentados pelas mentiras do presidente.
A máquina de campanha do presidente vem inundando as redes sociais e aplicativos de mensagens com ataques aos institutos de pesquisa, principalmente o Datafolha, contando com a ignorância de parte dos brasileiros sobre matemática. Apresentam enquetes sem nenhum lastro científico como iguais a pesquisas que operam dentro das regras da estatística.
Uma conhecida tática adotada para manipular o eleitorado tem sido usar imagens de aglomerações a fim de tentar convencer que o apoio ao presidente é bem maior do que realmente é. Partem de um fato concreto (o candidato é realmente uma pessoa popular capaz de atrair muita gente, como levou no 7 de setembro) para vender uma extrapolação falsa (essas multidões demonstram que a maioria dos brasileiros está com o candidato).
Percebem a diferença? Muita gente não, e o bolsonarismo surfa na ignorância.
Um caso de violência como esse era uma infelicidade esperando apenas para acontecer. E se Bolsonaro e sua trupe não mudarem imediatamente o seu modo de agir, desumanizando os institutos de pesquisa e os associando ao mal, a infelicidade pode virar tragédia ou desgraça.
No Brasil de Bolsonaro, Datafolha é apenas mais um comunista a ser abatido
Na aparência, Rafael Bianchini é um brasileiro convencional que mora na cidade paulista de Ariranha. Eis senão quando, de repente, salta de dentro da alma de Bianchini um espírito miliciano a serviço do bolsonarismo.
Com o aval tácito de Bolsonaro, um presidente cultor da arma e do extermínio, o sujeito agride a socos e pontapés um pesquisador do Datafolha. Ele entra em casa. Volta armado de faca. Se não fosse contido, assassinaria um trabalhador.
Os otimistas acham que os intolerantes políticos são perigosos. Os pessimistas preferem achar que eles são mesmo. O direito ao otimismo foi revogado num país em que o presidente faz da distribuição de armas um projeto social e expõe em comício o plano de “extirpar” opositores.
Num país assim, a morte surge do nada nas circunstâncias mais improváveis —numa festa de aniversário no Paraná ou num papo entre colegas de trabalho no Mato Grosso. Nesse Brasil rupestre de Bolsonaro, o Datafolha é apenas mais um comunista a ser abatido —ou extirpado.
Se Bolsonaro não fosse o conto do vigário no qual os bolsonaristas caíram, haveria na Presidência um personagem que valoriza Deus, pátria, família e liberdade. Nessa hipótese, ninguém seria cínico o bastante para lutar pela vida em gestação e, simultaneamente, tramar a morte de vivos incômodos.
O governo não cobraria patriotismo antes de melhorar a pátria. A família presidencial não seria uma pessoa jurídica do ramo imobiliário. E ninguém cometeria crimes em nome da liberdade.
O Brasil tem saudades do tempo em que a liberdade era o direito de fazer tudo o que as leis permitem.
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