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Poder

Ação de Flávio Dino contra farra das emendas no Congresso deixa chantagistas à flor da pele

Deputados criticam decisão do ministro, que suspendeu o pagamento de R$ 4,2 bilhões em emendas sem critérios de transparência e rastreabilidade

Publicado em 24/12/2024 7:23 - Semana On

Divulgação Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

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A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender a liberação de R$ 4,2 bilhões em emendas de comissão é mais do que uma medida técnica. Ela representa um gesto contundente contra a opacidade que há anos caracteriza a gestão do orçamento público brasileiro. Enquanto líderes do Congresso acusam Dino de exacerbar a crise entre os Poderes, outros apontam a decisão como um marco na luta por um orçamento mais transparente e alinhado aos princípios constitucionais.

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Além de suspender os pagamentos, Dino determinou a abertura de inquérito pela Polícia Federal, ampliando o alcance das investigações sobre possíveis irregularidades no manejo desses recursos. A medida é uma resposta a práticas que, segundo ele, afrontam diretamente a ordem constitucional e a confiança pública. Mas a decisão também expôs um sistema político em tensão, onde o controle de bilhões de reais em recursos tornou-se uma arena de disputas por poder e influência.

Um Congresso blindado e um Judiciário vigilante

O orçamento público brasileiro tem sido, há décadas, palco de disputas que extrapolam os limites do interesse público. Desde o início do governo Jair Bolsonaro, o Congresso Nacional ampliou sua influência sobre os recursos por meio das chamadas “emendas do relator”, conhecidas popularmente como “orçamento secreto”. Esse mecanismo permitia que parlamentares direcionassem bilhões de reais sem qualquer identificação formal, inviabilizando a fiscalização.

Quando o STF declarou essas emendas inconstitucionais em 2022, o Congresso encontrou nas emendas de comissão uma forma de manter o controle sobre bilhões de reais. Apenas em 2023, o volume dessas emendas cresceu 300%, alcançando R$ 7,6 bilhões. Para 2024, o valor ultrapassará os R$ 15 bilhões. Esse crescimento foi justificado sob o argumento de descentralizar os recursos e atender demandas locais, mas na prática reproduziu os problemas de falta de transparência do modelo anterior.

Flávio Dino, ao avaliar o caso, apontou que essas emendas mantinham o mesmo vício de origem das emendas de relator: a dificuldade em rastrear quem estava por trás da destinação dos recursos. Como destacou Dino em seu despacho, “não há como se afirmar que os recursos públicos estejam sendo utilizados de forma a atender ao interesse público quando sequer é possível identificar seus verdadeiros proponentes”.

A manobra exposta: Lira, o Congresso e a opacidade

A decisão do STF foi motivada por um pedido do PSOL, que revelou um ofício assinado por 17 líderes partidários mudando a destinação de R$ 4,2 bilhões em emendas. Esses recursos deveriam ser aprovados pelas comissões permanentes do Congresso, mas, na prática, a decisão foi centralizada pela cúpula da Câmara dos Deputados. Arthur Lira (PP-AL), presidente da Casa e um dos principais articuladores dessa manobra, foi diretamente beneficiado: Alagoas, seu reduto político, seria o estado mais contemplado, com quase R$ 500 milhões.

Essa centralização do poder sobre as emendas reflete um padrão histórico em que o orçamento público se transforma em moeda de troca política. Segundo a revista Piauí, o modelo foi facilitado por uma portaria do governo federal que deixou brechas para que as emendas fossem empenhadas — uma etapa anterior ao pagamento — sem o crivo de transparência exigido pelo STF.

A manobra gerou reações em cadeia. Dino, ao suspender os pagamentos e acionar a Polícia Federal, argumentou que a medida era necessária para proteger o interesse público e garantir que as verbas fossem destinadas com rastreabilidade. Contudo, líderes da Câmara acusaram o ministro de agir de forma midiática e de exacerbar a crise entre os Poderes.

Um governo em xeque e o futuro das emendas

Enquanto Dino reforça os critérios de transparência, o governo Lula tenta se equilibrar entre a pressão do Congresso e a vigilância do STF. O Planalto teme que a decisão de Dino contamine as discussões sobre o orçamento de 2025, ainda pendente de aprovação. Líderes governistas, como José Guimarães (PT-CE), foram signatários do ofício que viabilizou a manobra das emendas, o que aumenta a complexidade da crise.

No entanto, as críticas a Dino não estão limitadas ao Congresso. No governo, há quem questione a estratégia de abrir uma investigação policial paralela à suspensão dos pagamentos. Alguns assessores do Planalto acreditam que a medida poderia ter sido tomada de forma menos confrontacional, evitando um desgaste político tão amplo.

Por outro lado, a decisão de Dino é vista como uma resposta à perpetuação de um sistema político que resiste a mudanças estruturais. Como destacou o cientista político Fernando Abrucio, da FGV, “o orçamento público no Brasil tornou-se uma ferramenta de barganha política, e decisões como a de Dino são fundamentais para quebrar esse ciclo”.

O que a história nos ensina

A crise atual não é inédita. Desde o mensalão, em 2005, até o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, o controle do orçamento público tem sido um fator central nas disputas políticas no Brasil. Figuras como Eduardo Cunha, Rodrigo Maia e outros ex-presidentes da Câmara enfrentaram consequências graves ao utilizarem sua posição para negociar recursos de forma obscura.

Arthur Lira, que já anunciou sua candidatura ao Senado em 2026, pode enfrentar um caminho semelhante. Como apontou Flávio Dino, “o olimpo não tem escada”, uma referência à queda de ex-líderes que não souberam se reinventar após deixar o comando da Câmara.

Democracia e transparência: o caminho adiante

A decisão de Dino é um marco na luta por maior transparência e accountability no uso do orçamento público. No entanto, ela também expõe os desafios de um sistema político que se recusa a ceder privilégios. O Congresso, ao invés de se comprometer com reformas, busca brechas para perpetuar práticas que desrespeitam os princípios democráticos.

A sociedade brasileira precisa decidir que tipo de democracia quer construir. Como afirmou Ayres Britto, ex-ministro do STF, “a democracia é a transparência a céu aberto”. Sem um compromisso real com a ética e o interesse público, o orçamento continuará sendo uma ferramenta de poder, e não um instrumento de justiça social.

A decisão de Flávio Dino, ainda que vista como uma interferência por alguns, é um lembrete de que a democracia exige vigilância constante. O futuro das emendas parlamentares dependerá da capacidade dos Poderes de encontrar um equilíbrio entre o controle político legítimo e o respeito às normas constitucionais. Afinal, sem transparência, não há democracia, apenas um simulacro de poder público a serviço de interesses privados.


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