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Poder
Escola homenageia terceiro mandato do petista, satiriza adversários e reafirma origem crítica do carnaval
Publicado em 16/02/2026 10:20 - Semana On
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O desfile da Acadêmicos de Niterói, que abriu a noite na Marquês de Sapucaí, transformou o enredo em palco de disputa simbólica. Com homenagem explícita ao terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a escola construiu uma narrativa que mesclou celebração política, crítica ao bolsonarismo e referências diretas a episódios recentes da história institucional do país.
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Logo em um dos carros alegóricos, um palhaço sentado atrás das grades, usando tornozeleira eletrônica danificada, evocava o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — embora seu nome não tenha sido citado. A alusão dialoga com o apelido “Bozo”, atribuído por adversários ao ex-mandatário durante seu governo. Segundo a sinopse da escola, a cena remete à resistência “a uma tentativa de golpe de Estado, que levou seus mentores para a prisão”.
A escola também associou o período anterior a “retrocessos em políticas públicas”. O texto oficial menciona brasileiros que passaram a consumir ossos durante a pandemia e recupera críticas feitas às vacinas contra a covid-19. “Teve quem dissesse que, ao tomar a vacina, a pessoa poderia virar jacaré”, afirma a sinopse, em referência a declaração de Bolsonaro à época.
A representação do ex-presidente reapareceu em diferentes alas. Em uma delas, o personagem caracterizado como palhaço fazia gestos de “arminha” com as mãos. Em outra cena, surgia entre cruzes que simbolizavam as mais de 700 mil mortes por covid-19 no país. O desfile também encenou um embate visual entre Bolsonaro e Lula: o primeiro posicionado ao lado de uma bandeira com as cores dos Estados Unidos; o segundo, junto ao pavilhão brasileiro.
Da faixa presidencial ao impeachment
A comissão de frente percorreu a cronologia recente do poder. A encenação começou com Lula transmitindo a faixa presidencial a Dilma Rousseff (PT), em referência à sucessão de 2010, quando o então presidente indicou a petista ao Planalto após dois mandatos consecutivos. Em seguida, um personagem representando Michel Temer (MDB) arrancava o adereço de Dilma, numa clara menção ao impeachment de 2016.
O último carro trouxe um boneco de Lula com a faixa presidencial, simbolizando o retorno ao cargo. No samba-enredo, a escola incluiu versos que, sem citar adversários nominalmente, ironizam o bolsonarismo com expressões como “saber perder”, “não ser digno de fugir” e “não temer tarifas e sanções”. A letra afirma ser “revolucionário saber escolher os seus heróis”, “sem mitos falsos, sem anistia”.

Críticas a Eduardo Bolsonaro e alusões aos EUA
Uma das alas voltou-se ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Integrantes desfilaram fantasiados de Mickey, segurando uma tocha semelhante à da Estátua da Liberdade que incendiava a bandeira do Brasil. A caracterização foi inspirada em charge do ilustrador Nando Motta, na qual Eduardo aparece vestido como o personagem.
A ala também incorporou o boné com a inscrição “MAGA” (“Make American Great Again”), lema associado à campanha presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos. No Brasil, o acessório já foi utilizado por políticos alinhados a Bolsonaro, como o próprio Eduardo e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
De acordo com a sinopse, a proposta era colocar a soberania nacional no centro do debate. O texto menciona a atuação de um “ex-deputado federal junto ao governo americano de Donald Trump” e classifica como “nada republicana” a relação estabelecida “em prol dos interesses de uma nação estrangeira contra o seu país”.
Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado. Em março, anunciou licença do mandato na Câmara dos Deputados para buscar sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator do processo que posteriormente resultou na condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. O ex-deputado foi um dos apoiadores da aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes pelo governo norte-americano. Em dezembro, contudo, a administração Trump retirou as sanções financeiras impostas ao ministro e à advogada Viviane Barci de Moraes.
TSE libera desfile com ressalvas
O conteúdo político do enredo foi alvo de questionamento judicial. Ao analisar ação do Partido Novo contra a realização e transmissão do desfile, ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entenderam que não seria possível classificá-lo como propaganda eleitoral antecipada, uma vez que o evento ainda não havia ocorrido. Ressaltaram, contudo, que a decisão não configurava “salvo-conduto” e que o mérito poderia ser reavaliado posteriormente.
Ao transformar a avenida em arena de memória e disputa política, a Acadêmicos de Niterói reafirmou uma tradição do carnaval carioca: a de espelhar tensões do país em forma de alegoria — com samba, ironia e mensagem explícita.
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