22/02/2024 - Edição 525

Poder

A última grande cartada de Bolsonaro será o 7 de setembro

Sociedade civil faz ofensiva no exterior para blindar democracia brasileira

Publicado em 31/08/2022 3:39 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Leonardo Sakamoto e Jamil Chade (UOL) – Edição Semana On

Divulgação Fábio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil

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A campanha de Bolsonaro tem um monte de problemas, mas um deles, particularmente, aflige o presidente carente de votos: o comício-militar de 7 de setembro em Brasília, no Rio de Janeiro e em outras capitais. E se ele não for o que se espera?

Será a última grande demonstração de força dos bolsonaristas nas ruas antes do primeiro turno das eleições. Até aqui, tem dado para enganar com motociatas, aglomerações providenciadas por aliados e carona em eventos de terceiros, como a Festa do Peão.

Se até o dia 6 as pesquisas não indicarem que Bolsonaro avança sobre Lula, o 7 de setembro corre o risco de ficar aquém do desejado. Segundo o Instituto Quaest, 8% dos eleitores que dizem que votarão em Bolsonaro admitem votar em Lula. O contrário é 4%.

Só tratores? Milícias e garimpeiros também deveriam desfilar para Bolsonaro

O governo federal vai inovar e colocar 28 tratores desfilando ao lado de tanques e blindados na celebração do 7 de Setembro, em Brasília. Não é uma homenagem ao agronegócio, mas uma prova de que o Bicentenário da Independência foi sequestrado pelas necessidades eleitorais do presidente.

Tão inegável quanto a importância da parcela do agronegócio que segue as leis para a economia nacional é a instrumentalização que Jair Bolsonaro faz do setor. Com base em seus discursos e ações, a impressão no exterior é de que a agropecuária brasileira odeia o meio ambiente e os direitos de indígenas. O que é péssimo para os negócios.

Mas já que o presidente vai homenagear no desfile um dos setores que o apoiam, deveria fazer o mesmo com outros – sem vergonha de que esses outros joguem fora das quatro linhas da Constituição. Com a expertise carnavalesca brasileira, seria um sucesso mundial. Ia dar destaque até no New York Times.

O 7 de Setembro deveria trazer um bloco dos garimpeiros ilegais. Escavadeiras e grandes dragas sobre rodas despejariam lama na Esplanada dos Ministérios, enquanto um grupo viria atrás, coberto de pó dourado e armado até os dentes. Na caçamba de uma picape, crianças indígenas com sarampo, tuberculose e outras doenças transmitidas pelo contato com o garimpo, acenariam ao público.

Logo na sequência, para não perder a coerência, viria a ala dos madeireiros ilegais e dos grileiros de terra. Carretas com toras gigantes de angelim vermelho abririam essa parte do cortejo, seguidas por homens e mulheres carregando tambores de gasolina – usados para iniciar as queimadas que servem para limpar o solo e bombar o aquecimento global. Depois, viriam bois, muitos bois.

A fim de ter uma experiência completa, o ideal seria que uma máquina lançasse fumaça preta na multidão. Na falta dela, a função poderia ficar com um daqueles blindados fumacentos da Marinha que desfilaram para Bolsonaro em 10 de agosto do ano passado.

No ar como na terra. Para além da Esquadrilha da Fumaça (adoro), e de rasantes com jatos da Força Aérea Brasileira, o governo federal deveria convidar pequenos monomotores que decolam diariamente de mais de 1,2 mil pistas de pouso ilegais na Amazônia. São eles que abastecem o crime ambiental e evadem riquezas para fora do país sob a leniência do poder público.

Para que parar no campo? É importante seus seguidores nas cidades também estarem devidamente representados nesse momento cívico-eleitoral.

Um bloco dos milicianos do Rio de Janeiro teria carros de luxo com placas cobertas com adesivo, carros alegóricos mostrando instaladores de GatoNet, representantes de financeiras que agem como agiotas e motoristas de vans. Seriam seguidos de pessoas portando rifles vindos do tráfico internacional de armas, que carregariam estandartes com o rosto de Marielle Franco e outras vítimas.

E já que estarão mesmo assistindo ao evento por que não dar a eles um espaço no desfile?

Sim, os autointitulados homens e mulheres de bem, carregando suas faixas pedindo que as Forças Armadas baixem “intervenção militar” e que o presidente dê um autogolpe de Estado. Mas também exigindo a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral e de jornalistas e, claro, atacando as urnas eletrônicas e o sistema brasileiro de votação.

A CBF poderia patrocinar essa ala. AH, mas para que pensar pequeno? Grupos de WhatsApp de empresários aliados do presidente poderiam bancar todo o desfile, os ônibus trazendo o público, bandeirinhas verde e amarelas…

Tudo isso seria um suco tão denso do Brasil de Bolsonaro que, não duvido, o coração de Dom Pedro 1º, tirado de seu descanso em Portugal para saciar as necessidades eleitorais do presidente, voltaria a bater. Pedindo para voltar para casa, claro.

Sociedade civil faz ofensiva no exterior para blindar democracia brasileira

Entidades da sociedade civil, acadêmicos, indígenas, movimentos negros, juristas e ativistas se unem para denunciar as violações de direitos humanos sob o governo de Jair Bolsonaro, alertar ao mundo sobre riscos para a democracia e tentar blindar no exterior o processo eleitoral no país.

A esperança é de que qualquer possibilidade de uma ruptura democrática no país nas próximas semanas seja respondida com uma condenação internacional, ampliando a pressão sobre Bolsonaro, militares e mesmo empresários que possam ter simpatias aos movimentos mais autoritários.

Nesta semana, dezenas de eventos, reuniões, seminários e denúncias estão sendo realizados na Europa e EUA, com o objetivo de alertar ao mundo sobre a situação brasileira.

Na ONU, a agenda de denúncias também é intensa. Desde o dia 29, cerca de 15 representantes de diferentes grupos da sociedade civil de reúnem com a entidade internacional para alertar sobre a situação dos ataques contra minorias e outros temas de direitos humanos.

O evento já estava na agenda da entidade internacional. Mas, diante dos ataques contra a democracia, ganha uma nova dimensão. Farão parte da delegação todas as grandes entidades do setor, incluindo Artigo 19, Campanha Nacional pelos Direitos à Educação, Conselho Indigenista Missionário, Instituto Igarapé, Instituto Marielle Franco, Instituto de Desenvolvimento e Direitos Humanos, Justiça Global e outros.

Para Antonio Neto, pesquisador da Justiça Global, o Brasil viveu nos últimos anos “um dos maiores ataques contra a democracia no período pós ditadura”. “Somos um dos países mais perigosos para atuação de defensoras e defensores de direitos humanos. A violência contra povos indígenas aumenta com a atuação de madeireiros e garimpo ilegal que avançam sobre seus territórios. A violência institucional ligadas a segurança publica vem atingindo diretamente a nossa população negra e jovem a cada dia. A violência política contra mulheres negras e parlamentares tem sido uma constante no ambiente físico e virtual”, disse.

“É nesse cenário de aprofundamento do racismo, do machismo e da LGBTfobia que nossa democracia é colocada em xeque por um presidente que incentiva a violência contra pessoas, movimentos sociais e organizações da sociedade civil, por um governo que ataca e reduz constantemente os espaços de participação da sociedade civil e que vem sendo denunciado reiteradamente em âmbitos internacionais por esses ataques”, disse.

Segundo ele, a delegação defenderá “a democracia, os direitos humanos e os direitos dos povos que sofrem com essas violências”.

Quem também alerta para o risco de ruptura democrática é Enéias da Rosa, da Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil. “Diante de todas as ameaças golpistas que vem sendo narradas pelo atual presidente e candidato à reeleição, quer impactam sobre a sociedade e sobre às instituições democráticas, o processo eleitoral no Brasil marca um momento muito importante para o jogo democrático e para os rumos do país”, disse.

“Neste sentido, garantir eleições livres e com respeito aos resultados das urnas é fundamental”, afirmou.

“Por outro lado, a agenda da democracia no país, após o processo de redemocratização, fez uma trajetória importante, mas ainda com muitos desafios a serem contornados”, admitiu.

“O país ainda tem muito a fazer para o enfrentamento de mazelas históricas que beneficiam parcelas privilegiadas e não a sociedade como um todo, em especial grupos que historicamente sofrem violações ou que não tem acesso a direitos básicos como é o caso dos povos indígenas, de povos e comunidades tradicionais, da população negra em geral, mas em especial das mulheres negras, das juventudes das periferias, da comunidade LGBTQIA+ entre outros”, disse.

Fernanda Lapa, representante do IDDH, explicou que a mobilização tem como objetivo “apresentar e denunciar à comunidade internacional as fissuras que foram causadas em nossa democracia nos últimos anos”.

“Mesmo diante de tantos ataques e retrocessos em direitos humanos no Brasil, nós não desistimos e continuamos o trabalho de monitoramento das principais violações às comunidades, grupos e povos mais afetados”, afirmou.

“Vamos apresentar diversos relatórios elaborados democraticamente com participação de entidades de todas as regiões do brasil, comprovando a situação com dados científicos e sérios e não com noticias ou discursos falsos que dividem de forma prejudicial nossa sociedade”, completou.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo também faz parte da delegação e irá levar às reuniões da ONU denúncias dos ataques realizados pelos aliados de Bolsonaro contra a imprensa. Segundo a entidade, houve um aumento de 350% nos ataques contra profissionais da imprensa entre 2019 e 2021. Apenas no ano passado, foram 453 incidentes registrados.

No dia 1 de setembro, o Tribunal Permanente dos Povos ainda irá anunciar sua decisão sobre a queixa que foi apresentada ao órgão contra Bolsonaro. A expectativa é de que haja uma condenação simbólica de seu governo, por conta das violações aos direitos humanos, principalmente no que se refere às respostas à pandemia.

Entre os dias 12 e 14 de setembro, a entidade Conectas Direitos Humanos ainda realizará um evento na sede da ONU em Genebra para alertar à comunidade internacional sobre as ameaças ao sistema eleitoral e o funcionamento das urnas. A ofensiva tenta aproveitar a concentração de entidades e governos, que farão parte do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Enquanto isso, nas principais universidades da Europa e EUA, uma campanha será lançada para transformar setembro no “mês de defesa da democracia brasileira”. Nesses centros de excelência, eventos vão debater a crise política no Brasil e mandar uma mensagem clara de apoio à democracia.

Alguns dos maiores centros acadêmicos do mundo como a Universidade de Harvard, Brown e Princeton estão se mobilizando para promover debates e seminários sobre a situação brasileira e as ameaças à democracia.

O organizador da iniciativa, o acadêmico James Green, indicou ainda que cerca de 50 eventos vão acontecer pelo mundo em setembro para tentar criar uma consciência internacional dos riscos que o Brasil enfrenta neste momento. Green é hoje o coordenador da US Network for Democracy in Brazil e presidente do Conselho de Diretores do Washington Brazil Office.

Além dos EUA, conferências estão sendo organizadas na França, Espanha, Alemanha, Portugal e em países da América Latina.

Uma carta ainda será entregue nos próximos dias ao mandatário da Casa Branca, assinada por políticos, acadêmicos e personalidades de todo o mundo. O manifesto tem como objetivo frear qualquer possibilidade de que uma eventual ruptura democrática no Brasil por parte de Jair Bolsonaro tenha respaldo internacional ou de governos como o dos EUA.


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