13/04/2024 - Edição 540

Poder

A pergunta que os comandantes militares se negam a responder: e se fosse a esquerda nas ruas?

Bolsoterrorismo desafia autoridade do Supremo Tribunal Federal

Publicado em 22/11/2022 1:47 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

Divulgação José Cruz/Agência Brasil

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E se ao invés de bolsonaristas, os acampados em portas de quartéis fossem militantes do PT, do MST e de movimentos sociais a pedirem um golpe sob a alegação de que houve fraude na reeleição de Jair Bolsonaro? Os militares os acolheriam dizendo que o direito ao protesto é assegurado pela Constituição?

Áreas em torno de quartéis são consideradas de segurança nacional. Em meio a centenas de pessoas sempre pode haver um terrorista prestes a atirar uma bomba ou atentar contra a vida de um soldado ou de um oficial de alta patente. Como prevenir-se de tal risco a não ser proibindo aglomerações nas proximidades?

A resposta à pergunta que os comandantes militares fingem ignorar: eles não permitiriam que militantes de esquerda acampassem em portas de quartéis para pedir um golpe ou simplesmente aplaudi-los. Permitem que os bolsonaristas o façam porque são coniventes com eles e com o candidato deles.

No último dia 15, a juíza federal Jaiza Fraxe determinou que o governo do Amazonas e a União dispersassem o ato que ocorre em frente ao Comando Militar da Amazônia. Caso não o fizessem, haveria multa de R$ 1 milhão, e pelas horas seguintes de atraso, R$ 100 mil por cada hora. A ordem não foi obedecida.

A juíza atendeu a um pedido do Ministério Público Federal que classificou o ato de “antidemocrático” que causa barulho ensurdecedor “prejudicando a saúde de pessoas com deficiências, idosos e crianças que moram na região, e interrompe o direito de ir e vir”. Em outros Estados, pedidos semelhantes não foram feitos.

Os manifestantes, que estão em frente ao Comando Militar da Amazônia desde o dia 2 de novembro, declararam não aceitar o resultado das urnas e defendem um golpe por meio de intervenção militar — uma afronta à Constituição em vigor desde 1988 e à democracia. Crime, portanto, previsto em lei.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que há 25 pontos de bloqueios e de interdições em quatro Estados: Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná e Rondônia. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, mandou no dia 10 que a Polícia Federal e a PRF desobstruam as vias públicas.

Segundo o coordenador geral de comunicação institucional da PRF, Cristiano Vasconcelos da Silva, os bloqueios e interdições atuais apresentam características mais violentas. Ele disse à CNN:

“Antes víamos manifestações, agora são atos criminosos, atos terroristas nas nossas rodovias federais, com queima de pneus, disparo de arma de fogo nos caminhões, tentativa de dinamite, explosão e queima de pontes para impedir o tráfego”.

“Tem caminhoneiros sendo agredidos, com suas cargas sendo jogadas na rodovia, estão jogando óleo nas rodovias federais. Não tem uma pauta específica, eles fazem os bloqueios e quem é contra aquilo sofre agressões”.

O golpismo civil-militar permanecerá como força política?

As eleições decretaram a vitória de Lula há três semanas e a extrema-direita não desiste de fazer barulho. O bolsonarismo segue animando sua claque com o silêncio do presidente, os abraços aos quartéis e declarações falsas ou ambíguas dos principais líderes. Uma força que une militares, políticos e empresários que desejam golpear a democracia e impedir a posse de Lula, com o argumento tresloucado de afastar o comunismo no país. Mas isso vai até quando?

Podemos esperar que a Copa do Mundo arrefeça os acampamentos militares, mas a posse de Lula e seus primeiros meses de governo prometem ser tensos. Serão muitos apitos de cachorros (dog whistle), expressão norte-americana para mensagens cifradas de líderes políticos enviadas para seu grupo de apoio. No Brasil, evidentemente, usamos a analogia do berrante para o gado bolsonarista.

E são apitos contínuos. Walter Braga Netto, vice na chapa derrotada, disse para apoiadores na última sexta-feira: “Vocês não percam a fé, é só o que eu posso falar para vocês agora”. E não explicou mais nada. Em vídeo publicado no sábado, o general André Luiz Allão, comandante da 10ª Região Militar do Exército, em Fortaleza (CE), disse à tropa que protegerá os participantes e tentou normalizar esses atos.

Só os militares são golpistas? Valdemar Costa Neto, presidente do PL, divulgou vídeo questionando mais uma vez a legitimidade das urnas. Toda classe política bolsonarista, Bia Kicis, Carla Zambelli, os filhos do atual presidente, entre tantos, usam suas redes sociais incansavelmente com mensagens contra a democracia.

Mas só militares e políticos? E os empresários que ajudam a bancar os acampamentos e as fake news nas redes sociais são o quê? Basta lembrar do grupo de empresários que virou alvo de mandados de busca e apreensão em agosto deste ano, determinados pelo ministro Alexandre de Moraes. Nas mensagens, eles defenderam um golpe de Estado no Brasil caso Lula vencesse as eleições. Luciano Hang, os representantes das empresas Coco Bambu, Mormaii, Tecnisa foram citados. Há 4 dias Moraes determinou o bloqueio das contas bancárias de 43 pessoas físicas e empresas suspeitas de financiar os atos que contestaram a vitória de Lula.

Mais que emular o discurso de 64, a extrema-direita mantém o tripé que sustentou o golpe e a ditadura civil-militar que governou o país por cerca de duas décadas. Excetua-se apenas o apoio maciço da imprensa na época, já que hoje em dia, os algoritmos fazem parte de sua base de sustentação.

O lugar comum costuma associar o golpe de 1964 aos fardados. Mas é preciso sublinhar que militares, políticos e empresários estão todos juntos contra a democracia, em sua versão 2022. É um fio ideológico que ficou submerso até a segunda vitória de Dilma e que tão cedo não deixará nosso cenário político. A ameaça à democracia permanecerá e sua defesa não pode depender apenas da Justiça ou das decisões do STF.

Bolsoterrorismo desafia autoridade do Supremo

A versão tropical do Capitólio ganhou ares de bolsoterrorismo. Rodovias voltaram a ser bloqueadas no final de semana por manifestantes lobotomizados pelas redes sociais bolsonaristas e financiados pelo agrogolpismo e outras fontes de fanatismo endinheirado. Os novos bloqueios, mais violentos do que os anteriores, desafiam a autoridade do Supremo Tribunal Federal e testam a resistência da democracia brasileira.

As erupções de bolsoterrorismo ocorrem nas pegadas da ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal para que fossem bloqueadas as contas bancárias de 43 empresas e empresários suspeitos de financiar atos de contestação ao resultado das urnas. Tomada em segredo no dia 12 de novembro, a ordem de Xandão só ganhou as manchetes na quinta-feira da semana passada. Neste domingo, alvos mato-grossenses do ministro começaram a receber a visita de rapazes da PF.

No início da noite de domingo, a Polícia Rodoviária Federal contabilizava 12 interdições parciais e nove bloqueios totais de estradas federais —a maioria em Mato Grosso. Na BR-163, entre as cidades mato-grossenses de Nova Mutum e Lucas do Rio Verde, dez em homens encapuzados destruíram um posto de pedágio, uma ambulância e um caminhão-guincho.

Em Rondônia, houve violência nas cidades de Vilhena e Ariquemes. Na primeira, oito manifestantes foram em cana. Na segunda, pelos menos seis veículos de um supermercado foram destruídos e incendiados. Houve mais uma prisão. A violência é estimulada pela erisipela, uma infecção na perna que afetou a língua de Bolsonaro. O silêncio do presidente anima as erupções de violência que infeccionam a democracia. Contra o bolsoterrorismo, o melhor antibiótico e a prisão dos financiadores.


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