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Poder

A guerra pelo Senado

Extrema direita articula maioria na Casa para ameaçar o STF e redesenhar as instituições

Publicado em 17/04/2025 9:54 - Semana On

Divulgação Semana On

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À sombra do debate público e fora dos holofotes da mídia tradicional, desenha-se uma das disputas mais decisivas da história política recente do Brasil: a tentativa da extrema direita de conquistar a maioria no Senado Federal nas eleições de 2026. Mais do que garantir cadeiras no Legislativo, a meta é estratégica: reconfigurar o equilíbrio entre os Poderes, enfraquecer o Supremo Tribunal Federal (STF) e consolidar um projeto de poder duradouro, autoritário e institucionalmente enraizado.

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O ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados atuam com método e visão de longo prazo. Desde 2023, constroem candidaturas competitivas nos estados, com foco nas 54 das 81 cadeiras do Senado que estarão em disputa. Não se trata de uma corrida eleitoral convencional: é uma ofensiva política contra o sistema de freios e contrapesos, fundamento das democracias modernas.

O Senado, por seu desenho institucional, representa um território estratégico no tabuleiro republicano. É a casa que, além de legislar, julga autoridades por crimes de responsabilidade, aprova indicações para o Supremo, o Banco Central e o Ministério Público, e delibera sobre processos de impeachment de ministros da Corte Suprema — uma prerrogativa exclusiva, prevista no artigo 52 da Constituição Federal.

Não por acaso, a eleição para o Senado foi classificada por Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e senador pelo PP-PI, como “a coisa mais importante da vida do Bolsonaro”. Segundo ele declarou ao jornal Valor Econômico em junho de 2023, o ex-presidente “tem que ter maioria no Senado”.

O projeto é claro: obter ao menos 30 cadeiras em 2026 e, com isso, garantir 41 votos — número suficiente para assumir o controle da mesa diretora do Senado, indicar presidentes de comissões estratégicas, aprovar a tramitação de projetos de lei e, sobretudo, abrir processos contra ministros do STF. O objetivo declarado? “Fazer uma limpa no STF”, como afirmou publicamente o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), em outubro do ano passado.

O sistema eleitoral como vetor da estratégia

O plano bolsonarista é impulsionado por características específicas do sistema eleitoral para o Senado. Diferentemente da Câmara dos Deputados, cuja eleição se dá por sistema proporcional, o Senado adota o sistema majoritário simples: vence o candidato mais votado (ou os dois mais votados, quando há duas vagas em disputa).

Na prática, isso significa que, mesmo com 25% ou 30% dos votos válidos, um candidato pode conquistar a vaga. “Em um estado com múltiplos candidatos competitivos, basta liderar numericamente, mesmo com um número relativamente baixo de votos. Isso favorece partidos com eleitorado coeso e mobilizado, como é o caso da extrema direita”, explica Wallace Corbo, professor de Direito Constitucional da UERJ e da FGV.

Além disso, cada estado tem o mesmo número de senadores — três — independentemente de sua população. Essa estrutura federativa garante que regiões menos populosas, onde o bolsonarismo se fortaleceu nos últimos anos, tenham peso político equivalente a estados como São Paulo ou Minas Gerais.

Mandatos longos, estabilidade e influência silenciosa

O mandato de oito anos oferecido aos senadores é outro trunfo importante. Ele permite um horizonte político ampliado, longe das flutuações típicas da Câmara, onde mandatos duram apenas quatro anos. Também possibilita que senadores usem sua visibilidade para alavancar candidaturas ao Executivo — como governadores e até à Presidência — sem renunciar ao cargo.

Para a extrema direita, conquistar o Senado é mais que ocupar cadeiras: é consolidar uma plataforma de influência sobre o Executivo, o Judiciário e os próprios rumos do Legislativo. Com 41 votos, seria possível aprovar regimentos internos, formar comissões estratégicas, impor pautas de costumes e até bloquear projetos de lei ou nomeações indicadas pelo governo.

Caso o grupo alcance 49 senadores, o cenário se torna ainda mais alarmante: esse é o número necessário para aprovar emendas constitucionais. E com 54 cadeiras, torna-se viável julgar e condenar ministros do STF por crimes de responsabilidade — abrindo caminho para uma remodelação autoritária do Judiciário sob verniz legal.

A esquerda reage

Diante do avanço da extrema direita, a esquerda reconhece que não basta manter suas bases tradicionais. O PT e seus aliados de centro-esquerda decidiram agir de forma pragmática, mesmo que isso implique apoiar candidatos do centro ou até da centro-direita. “Lógico que a gente quer manter a nossa bancada do PT, mas o mais importante é ter uma maioria da base do governo no Senado”, disse Humberto Costa, senador e atual presidente interino do partido, ao Intercept Brasil.

O movimento se assemelha à estratégia francesa de contenção à extrema direita, mencionada por Corbo, em que forças progressistas e conservadoras se uniram contra o avanço de Marine Le Pen. “Se não pudermos ter um candidato próprio, que ele seja da direita — e não da extrema direita”, disse o ex-ministro José Dirceu à Folha de S.Paulo em setembro de 2024.

O desafio, no entanto, não é trivial. Em 2026, PT, PSB e PDT terão que defender 12 das 17 cadeiras que detêm atualmente — sete delas fora do Nordeste, em regiões onde o bolsonarismo cresceu. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o senador Paulo Paim (PT) não disputará a reeleição. O nome mais cotado para substituí-lo, Paulo Pimenta, enfrenta resistência após críticas à sua atuação na Secretaria de Comunicação e durante a crise das enchentes no estado em 2024.

Em estados como o Espírito Santo, o PT pode ter que ceder espaço ao PSB. Em Pernambuco, cogita-se apoiar Silvio Costa Filho (Republicanos), atual ministro dos Portos e Aeroportos. Em Minas Gerais e Mato Grosso, o foco está em ministros do PSD que podem disputar o Senado.

Um jogo de longo prazo, com consequências imediatas

O Senado é frequentemente visto como uma casa conservadora, mas a atual movimentação da extrema direita busca algo além da manutenção do status quo: almeja uma transformação profunda na forma como o Estado brasileiro é governado. A retórica bolsonarista — que trata ministros do STF como “ditadores de toga” e promete “limpar a Corte” — se alinha à lógica do autoritarismo contemporâneo: usar as instituições para corroê-las por dentro.

Casos como os da Hungria, Polônia e Turquia ilustram como essa tática funciona. Primeiro, ocupam-se os espaços institucionais. Depois, promovem-se reformas legais para enfraquecer o Judiciário, controlar a mídia e deslegitimar adversários políticos. Tudo isso com respaldo das urnas, dentro do marco formal da democracia — mas com espírito autoritário.

O Brasil não está imune. Em 2018, a eleição de Bolsonaro foi acompanhada da ascensão de discursos que colocam em dúvida a legitimidade do Judiciário, atacam as universidades e reduzem os direitos das minorias. O Senado, com seu poder de julgamento e nomeação, é o campo ideal para consolidar esse projeto.

A eleição de 2026 será, portanto, um plebiscito silencioso sobre o futuro institucional do Brasil. Mais do que uma disputa de cadeiras, é uma batalha pela sobrevivência das garantias democráticas, dos direitos fundamentais e da separação de poderes.

Como afirmou o historiador Timothy Snyder em Sobre a Tirania: “A política não é apenas um espetáculo; é um campo de escolhas reais com consequências históricas”. Ignorar o que está em jogo no Senado seria um erro fatal para os que ainda acreditam numa república democrática, plural e baseada no Estado de Direito.

O número mágico: 16

A equação política da extrema direita é direta: com as 14 cadeiras conquistadas em 2022 e mais 11 senadores alinhados ao bolsonarismo que estarão em busca da reeleição em 2026, restam 16 vagas para atingir o “número mágico” de 41 cadeiras — a maioria absoluta do Senado.

A estratégia, revelada publicamente por aliados de Bolsonaro como Ciro Nogueira (PP-PI), não é um delírio ideológico, mas uma manobra cirúrgica de ocupação institucional. Para especialistas como o professor Wallace Corbo (UERJ e FGV), essa articulação “busca instrumentalizar os mecanismos legais do Senado para fins de desestabilização do equilíbrio entre os Poderes”. O artigo 52 da Constituição Federal atribui ao Senado poderes únicos: julgar ministros do STF, aprovar autoridades indicadas pelo Executivo, processar o presidente da República. Em outras palavras, o Senado é o coração do regime de freios e contrapesos.

E é exatamente por isso que virou alvo.

O mapa do perigo

A ambição bolsonarista é conquistar as duas vagas ao Senado nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Nessas três regiões, apenas cinco das 22 cadeiras em disputa hoje pertencem à extrema direita. Isso significa que há um campo fértil de 17 possíveis novas cadeiras em disputa — e o objetivo é conquistar pelo menos 16 delas.

O plano se estende ainda ao Norte, onde Bolsonaro venceu Lula com ampla margem em estados como Roraima, Rondônia e Acre, e ao Nordeste, onde a extrema direita mira ampliar sua bancada de três para cinco senadores.

A seguir, o cenário detalhado por região:

Sul: reduto da nova direita

Com seis vagas em jogo, a extrema direita já detém duas cadeiras e mira as quatro restantes. No Rio Grande do Sul, a saída do senador Paulo Paim (PT) abre espaço para nomes como Osmar Terra (MDB migrando ao PL) e Coronel Zucco (PL). Santa Catarina elegeu Jorge Seif (PL) com quase 40% dos votos em 2022, e deve lançar nomes como Carol de Toni e Julia Zanatta, alinhadas ao bolsonarismo. No Paraná, a disputa pode envolver Filipe Barros (PL) e Cristina Graeml (Podemos), além da possível entrada do governador Ratinho Junior, do PSD — um aliado informal do bolsonarismo.

Sudeste: expansão com nomes de peso

No Rio de Janeiro, o bolsonarismo já domina: Flávio Bolsonaro e Carlos Portinho (ambos PL) buscarão a reeleição. O estado é, hoje, o único com três senadores da extrema direita. São Paulo pode ver a candidatura de Eduardo Bolsonaro, acompanhado por Guilherme Derrite ou Ricardo Salles. Em Minas Gerais, cogita-se Paulo Guedes como nome de peso — e, em um cenário mais radical, até Nikolas Ferreira, caso haja alteração legal na idade mínima para o Senado. No Espírito Santo, Gilvan da Federal (PL) pode enfrentar Renato Casagrande (PSB), figura forte no estado.

Centro-Oeste: dobradinhas e rachaduras internas

No Distrito Federal, a aposta está em Michelle Bolsonaro, possivelmente ao lado de Bia Kicis ou Ibaneis Rocha (MDB). Em Goiás, Gustavo Gayer e Major Vitor Hugo disputam a bênção de Bolsonaro em meio à crise com Ronaldo Caiado. No Mato Grosso do Sul, o nome mais forte é Gianni Nogueira (PL). No Mato Grosso, o ex-senador José Medeiros e o governador Mauro Mendes aparecem como favoritos.

Norte: onde Bolsonaro venceu com folga

Com 14 vagas em disputa e três já ocupadas por bolsonaristas (Marcos Rogério, Mecias de Jesus e Eduardo Gomes), a região é alvo estratégico. No Acre, Marcio Bittar deve migrar para o PL. Em Roraima, há articulação para que o deputado Hélio Lopes, do PL do Rio, migre para disputar vaga. No Amazonas, Capitão Alberto Neto e Wilson Lima são os nomes mais cotados. A retórica beligerante de Bolsonaro encontra ressonância em regiões marcadas pela precarização do Estado e pela presença militar.

Nordeste: o desafio maior

O reduto histórico da esquerda também entra no radar. Em Pernambuco, Bolsonaro aposta em Gilson Machado (ex-ministro) ou Anderson Ferreira. Em Alagoas, Eudócia Caldas pode ser substituída por Arthur Lira, figura-chave do Centrão e aliado do bolsonarismo. Em Ceará e Piauí, o cenário ainda está em disputa, mas nomes fortes da extrema direita devem emergir.

Democracia como trincheira: o que está em jogo

A estratégia bolsonarista para o Senado não é isolada. Ela faz parte de uma lógica maior, observada em democracias em crise como Hungria e Polônia, onde líderes autoritários instrumentalizaram as instituições para corroê-las de dentro. A cientista política Wendy Brown, em seu livro Undoing the Demos (2015), alerta que “a democracia liberal pode ser desmantelada não por um ataque externo, mas por sua própria lógica interna quando capturada por projetos antidemocráticos”.

Timothy Snyder, historiador de Yale, reforça em Sobre a Tirania (2017): “As instituições não se protegem sozinhas. Cabe aos cidadãos e aos representantes defendê-las”. O Senado, nesse contexto, deixa de ser apenas uma casa revisora. Torna-se um campo de batalha entre a continuidade democrática e o risco de uma regressão institucional.

A resposta da esquerda: pragmatismo ou rendição?

Frente a esse cenário, o PT e aliados do campo democrático adotaram uma postura pragmática. Onde não houver viabilidade de vitória, o plano é apoiar candidatos moderados ou do centro, como ministros do PSD e do MDB. Simone Tebet (Planejamento), Carlos Fávaro (Agricultura) e Silvio Costa Filho (Portos) são cotados para representar essa frente ampla. Humberto Costa, presidente interino do PT, foi claro: “O mais importante é ter maioria da base do governo no Senado. Vamos abrir mão de candidaturas para apoiar candidatos de centro”.

É uma aposta no que o filósofo político Norberto Bobbio chamaria de “realismo democrático”: abrir mão de pureza ideológica para preservar a essência da institucionalidade republicana.

O Senado será o espelho do Brasil de amanhã

A eleição de 2026 para o Senado não será apenas mais uma disputa eleitoral. Será um referendo sobre o futuro institucional do Brasil. Não se trata de escolher entre partidos, mas entre dois modelos de sociedade: um baseado no autoritarismo, na concentração de poder e na destruição dos freios institucionais; outro que, mesmo com todas as suas limitações, ainda tenta sustentar a pluralidade, a liberdade e a convivência democrática.

O número mágico da extrema direita é 16.

O da democracia é vigilância ativa, articulação ampla e voto consciente.

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