25/04/2024 - Edição 540

Poder

A estranha CPI apoiada pelos golpistas para investigar o golpe

A história que assombra os de rabo preso com a “intentona” de 8 de janeiro

Publicado em 19/04/2023 8:48 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Henrique Rodrigues (Fórum) – Edição Semana On

Divulgação Joedson Alves - Abr

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Saliva a boca de deputados e senadores sempre que se fala da instalação de uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso. Nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais, também é assim. CPI é oportunidade de fazer negócios.

Lucram os que assinam o requerimento para criação de uma CPI e depois se arrependem e retiram a assinatura. Há sempre quem pague em dinheiro, cargos ou favores a retirada. Lucram os que são indicados por seus partidos para integrar uma CPI.

Há os que pagam para que os indicados se comportem bem, sem prejudicar seus interesses. Há quem pague para que se comportem mal, prejudicando os interesses de terceiros. Governo algum sente-se confortável se for alvo de uma CPI, e paga para não ser.

O ex-senador Jorge Bornhausen (SC) cunhou uma frase famosa: “Sabe-se como uma CPI começa, não se sabe como termina”. A que apurava a corrupção no governo Fernando Collor em 1992 estava prestes a terminar sem ter como incriminá-lo. Aí, de repente…

De repente apareceu um motorista que trabalhava para a família Collor. E ele contou que dinheiro de Caixa 2 pagara a compra de um Fiat Elba que servia ao presidente. A CPI terminou recomendando a cassação do mandato de Collor, e ele caiu.

A CPI do Mensalão do PT em 2005 fez Lula pensar em renunciar ao mandato. Foi José Dirceu, chefe da Casa Civil, quem perdeu o mandato. Antonio Palocci, ministro da Fazenda, caiu quando um caseiro o denunciou em uma CPI por fazer negócios escusos.

Está para ser instalada a CPI do Golpe de 8 de janeiro. Os bolsonaristas a apoiam porque acham que ela poderá causar embaraços ao governo que foi vítima do golpe. Como? Se concluir que o governo também foi culpado pelo golpe. Bizarro!

O governo Lula é contra a CPI porque ela poderá atrapalhar no Congresso a votação de projetos e disseminar falsas informações. Saliva a boca de deputados e senadores porque essa será uma CPI mista. Todos só têm a ganhar com ela, menos o governo.

A história que assombra os de rabo preso com o golpe de 8 de janeiro

Passados pouco mais de três meses, o ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Anderson Torres, permanece preso numa cela improvisada no Batalhão de Aviação Operacional, no Guará, cidade a 16 quilômetros de distância da Esplanada dos Ministérios.

Está 12 quilos mais magro. Deprimido, não vê a hora de ir para casa no bairro do Jardim Botânico, em Brasília, onde agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), ontem, apreenderam 55 pássaros e multaram Torres em R$ 52,5 mil por prestar informação falsa.

Entre as espécies recolhidas, estão 45 bicudos, 3 canários-da-terra, 2 tiê-sangue, 4 curiós e 1 azulão. Em fevereiro último, Torres já havia sido multado em R$ 54 mil por conta de irregularidades. Na ocasião, o Ibama encontrou cerca de 60 aves silvestres. A defesa dele diz que as irregularidades estavam sendo “solucionadas”.

A Procuradoria-Geral da República deu parecer favorável ao pedido da defesa de Torres para que ele fique preso em casa mediante uso de tornozeleira eletrônica. Disposto a colaborar com a Justiça, Torres entregou a senha do seu celular que diz ter perdido nos Estados Unidos, e também as dos seus e-mails.

Agentes da Polícia Federal que já começaram a acessar a memória do celular do ex-ministro contam que há registros ali de conversas dele com o senador Flávio Bolsonaro, o governador Ibaneis Rocha e outras autoridades da República. Parte da história conhecida do golpe fracassado de 8 de janeiro terá de ser reescrita.

O passo seguinte, que a defesa de Torres nega, será um novo depoimento dele para revelar o que ainda esconde. A isso se dá o nome de delação premiada. A reputação de muita gente corre risco. O caso de Torres está com o ministro Alexandre de Moraes.

General Heleno fugiu da CPI de Brasília por medo de testemunha da PF

A notícia que surpreendeu o Brasil na terça-feira (18) foi o aviso dado pelo general da reserva Augusto Heleno, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), de que não iria mais aceitar o convite para prestar depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Legislativa do Distrito Federal sobre os Atos Antidemocráticos levados a cabo por bolsonaristas no DF. A presença do militar aposentado estava marcada para esta quarta-feira (19).

Heleno já tinha sido convidado anteriormente, disse que aceitaria sem problemas falar sobre as acusações de que ele e o órgão que comandava estão por trás das tentativas de golpe de Estado que ocorreram no país logo após a derrota do então presidente Jair Bolsonaro (PL) para Lula (PT), chegou inclusive a solicitar outra data e horário para falar, só que menos de 24 horas antes da sessão começar, telefonou para o presidente da CPI, o deputado distrital Chico Vigilante (PT), para dizer que não compareceria mais.

Primeiro personagem a acusar Heleno e o GSI de serem as bases para o golpe (frustrado) de Bolsonaro, um servidor da Polícia Federal então lotado na Presidência da República, que passou com exclusividade todas essas informações ao longo dos últimos quatro meses para a Fórum, resolveu falar a respeito da decisão do general de simplesmente não comparecer à CPI em cima da hora.

“Mais uma vez o governo anterior, o governo Bolsonaro, que era um governo militar, né, mostra a sua incapacidade de revelar à sociedade, aos cidadãos, enfim, o que de fato aconteceu. Isso mostra pra todo mundo que tudo que foi feito durante quatro anos, de 2019 a 2022, foi algo deletério, profundamente prejudicial, à população brasileira. Na primeira oportunidade que um general de quatro estrelas, da reserva, no caso, que foi ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, tem de apresentar sua defesa, apresentar elementos, apresentar seu ponto de vista, e falar à sociedade civil e ao mundo político numa CPI, para falar mesmo sobre tudo que existiu e tudo que ocorreu, ele simplesmente se acovarda. General Heleno é um covarde, é um típico general de ocasião. Imagine você um general desses se o Brasil estivesse em guerra contra qualquer país do mundo. Você confiaria num cara desses? Confiaria num cara que tem mais de 40 anos no Exército Brasileiro, chefiando as Forças Armadas, para defender a soberania do país? Claro que não. Ele é um covarde. Tinha todas as possibilidades, tinha todos os argumentos para aparecer lá e mostrar sua versão, mas não… Se acovardou e isso só mostra mais uma vez tudo aquilo que eu mencionei anteriormente, lá de meados de dezembro (de 2022), quando houve aquela tentativa de invasão da sede da Polícia Federal com aquela história de que queriam resgatar o tal líder indígena que ninguém sabe quem é. O GSI sempre esteve por trás do golpe e os militares estavam comprometidos com isso”, começou dizendo o profissional de Segurança que dentro do Palácio do Planalto reportou para a Fórum imagens exclusivas e em tempo real da invasão realizada pelos bolsonaristas em 8 de janeiro, assim como forneceu elementos da participação dos militares do GSI no acampamento do QG do Exército e no escarcéu realizado de maneira profissional no fim do dia em que Lula foi diplomado, 12 de dezembro.

O servidor da PF seguiu falando sobre o comportamento de Heleno, assim como de outros generais, e explanou sobre o clima de desconfiança generalizado após o notório envolvimento dos militares na tentativa de golpe de Estado que acabou frustrada.

“Cadê o general valentão, né, o tal general que teria o histórico da valentia, de ser supostamente comprometido com o Exército Brasileiro, o ‘glorioso Exército de Caxias’? Se acovardou. Colocou o rabinho entre as pernas e foi para a casa. E sabe por quê? Porque ele sabe que está comprometido até o talo. Até as últimas consequências, ele esteve com o golpe, que foi gestado pela alta cúpula do Exército Brasileiro, e ele é parte disso. Ele gestou esse golpe desde o princípio, desde quando se verificou que não havia a possibilidade de ganhar democraticamente nas urnas as eleições. O povo foi lá pras urnas e decidiu que não queria mais o governo ‘militar’, queria um governo progressista. Foi por pouco, mas foi o que o povo decidiu. E quando o povo escolheu como presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eles não admitiram isso. Fica bem claro pelo comportamento dele e de alguns outros generais, pelas falas, pelo gestual e por vários indícios de que foi exatamente isso… Aí falam do Anderson Torres. O Anderson Torres foi só o canal do golpe, e o GSI foi a gestão do golpe. O Anderson Torres foi só o ponta de lança do golpe, tanto é que ele está preso. O que aconteceu no dia 8 de janeiro ficará marcado na história também pela incompetência, pela conivência, do Exército Brasileiro por tentar, ao longo das horas de duração da invasão do (Palácio do) Planalto, liberar da detenção aqueles golpistas, justamente porque eles foram lá acreditando que o Exército Brasileiro ia dar um golpe. E eles não prenderam ninguém. O golpe, quem trabalhava lá dentro sabe, foi gestado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, e, não à toa, a sua função de dar segurança ao presidente da República hoje mudou, já que a função da chamada segurança pessoal, da segurança aproximada e do controle da segurança de área estão fora do alcance desses militares e fora das mãos do GSI, mesmo do atual, porque todos também sabem que o pessoal do Heleno ainda está lá dentro”, acrescentou o funcionário público.

Por fim, a fonte no Palácio do Planalto nos conturbados dias de tentativa de ruptura institucional no país ainda reforçou e relembrou todas as informações levantadas anteriormente sobre a participação de agentes do GSI nos episódios golpistas, ironizando o general Augusto Heleno, que em 14 de dezembro, logo após o PF o acusar numa reportagem da Fórum, disse que o servidor “nem mesmo existia”.

“Eles (do GSI) estavam no acampamento em frente ao QG (do Exército, em Brasília), eles tinham agentes dentro das manifestações que ocorreram em 12 de dezembro, que ocorreram no dia 8 de janeiro, dia das invasões. Você tem noção de como eles usaram a dissonância cognitiva para gerar essas confusões? Usaram de conhecimentos de terrorismo e contraterrorismo, como nos dias 12 de dezembro e na véspera de Natal, quando quase explodiram um aeroporto? Os caras iam explodir um aeroporto! A sorte é que a Polícia Federal está investigando isso e ela vai puxar o fio da lógica… E o ponto final são esses caras (GSI) e eu acredito que eles ainda vão ser presos. O Heleno é um covarde porque primeiro ele disse que eu não existia, e ele sempre soube da minha existência. Aí, depois que ele confirmou que eu existia, ele vai e solta aquela nota, mas mesmo assim não desmentiu. Agora que ele tinha a oportunidade de ir até lá (CPI da Câmara Legislativa do DF), de contar todas essas verdades dele, ele foge. Mas isso não faz com que ele deixe de estar comprometido com isso até as últimas consequências”, finalizou o servidor.


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