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Poder

A escalada violenta dos bolsoterroristas é fruto da conivência das forças de segurança

STF aperta o cerco e prende golpistas, mas é preciso mais pressão da sociedade para defender a democracia

Publicado em 19/12/2022 9:33 - João Filho (The Intercept_Brasil), Leonardo Sakamoto (UOL), Congresso em Foco – Edição Semana On

Divulgação Vermelho

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No fim do mês passado, o jornalista João Filho, do Intercept_Brasil, escreveu sobre a necessidade imperiosa de se punir os atos de terrorismo que começavam a tomar proporções perigosas. Naquele momento, os terroristas já haviam queimado ambulâncias, postos de pedágio, apedrejaram um caminhoneiro que furou um dos bloqueios e atiraram contra uma viatura policial. A bandidagem seguiu agindo sob o silêncio conivente de Jair Bolsonaro e protegidos pela impunidade.

Os golpistas já estão há quase 2 meses cometendo crimes na frente dos quartéis e nas estradas, sempre debaixo do nariz dos militares, que permanecem de braços cruzados. Como era claro que aconteceria, a impunidade fez com que a violência dos terroristas fosse escalando ainda mais. O ápice se deu na noite da última segunda-feira, após Lula ter sido diplomado como presidente da República. Brasília foi transformada em um palco de guerra. Os golpistas que estão acampados em frente aos quartéis, depredaram e incendiaram diversos carros e ônibus, explodiram botijões e tentaram invadir a sede da Polícia Federal. Os policiais reagiram com bombas de efeito moral e balas de borracha — uma ação repressiva bastante comum em protestos de professores, mas raríssima contra os atos criminosos de extrema direita. Apesar da reação, ninguém foi preso em flagrante.

Dizer que os policiais teriam efetuado muitas prisões em flagrante caso os terroristas fossem de esquerda é uma obviedade. Basta lembrarmos das manifestações de 2013, quando Rafael Braga foi condenado a quase 5 anos de prisão por — vejam só que ironia! — violar o Estatuto do Desarmamento. Ele portava na mochila uma garrafa de Pinho Sol e outra de água sanitária, que supostamente seriam usadas para fabricação de coquetel molotov. Trata-se de uma brincadeira de criança se compararmos com o que têm feito os criminosos da extrema direita nos últimos dias. É o famoso Estado Democrático de Direita funcionando normalmente.

Diante das cenas de alto grau de violência, políticos e militantes bolsonaristas praticaram seu esporte favorito: culpar a esquerda. Segundo eles, esquerdistas se infiltraram entre eles para cometer crimes e queimar o filme do bolsonarismo. Mas eles não apresentaram nem um mísero indício que sustentasse a tese. Claro, essa é só mais uma conspiraçãozinha fajuta que agride a lógica e o bom senso, mas que serve para alimentar o gado alucinado.

Bolsonaristas usaram como pretexto para a tentativa de invasão à sede da Polícia Federal a prisão do Cacique Serere, um indígena apoiador de Jair Bolsonaro. A prisão dele foi decretada pelo STF após um pedido da PGR. Serere organizou a invasão à sala de embarque no aeroporto de Brasília e convocou pessoas armadas para tentar impedir a diplomação de Lula. Serere é um criminoso que foi alçado à condição de cacique pelo bolsonarismo, já que a sua comunidade indígena não o reconhece como tal. Serere quase completa a cartela do bingo da picaretagem bolsonarista: é filiado ao partido de extrema direita Patriota, foi candidato a prefeito no interior do Mato Grosso sem apoio da comunidade indígena, é financiado por um fazendeiro bolsonarista, atua como pastor evangélico e já foi preso por tráfico de drogas. Depois de Kelmon, o falso padre, agora o bolsonarismo tem também um cacique fake pra chamar de seu.

Parece que finalmente os bolsonaristas criminosos começarão a ser punidos. Além da prisão do falso cacique, na semana passada o ministro Alexandre de Moraes já havia determinado multa de R$ 100 mil aos proprietários de caminhões identificados nos bloqueios no Mato Grosso. Além da multa salgada, Xandão bloqueou os documentos e proibiu a circulação desses veículos. A investigação revelou ainda que parte desses caminhões já esteve envolvida em crimes como tráfico de drogas, contrabando e crimes ambiental. Esqueça o caminhoneiro tiozão que se informa pelo zap. Estamos falando de uma bandidagem da pesada.

Na última quarta-feira, a bandidagem bolsonarista sofreu um novo revés. Em uma ação engatilhada por Xandão, a Polícia Federal desencadeou a maior operação contra os financiadores dos atos golpistas até agora. Foram cumpridos mais de 100 mandados de busca e apreensão contra os golpistas em diversos estados. Xandão determinou a quebra de sigilo bancário, o bloqueio de contas de dezenas de empresários, a apreensão de passaportes e a suspensão de certificados de registro de CACs. Só em um dos endereços em Santa Catarina foi encontrado um arsenal de guerra: 11 armas, entre elas uma submetralhadora, um fuzil, um rifle com luneta e muita munição.

Dois deputados bolsonaristas do Espírito Santo, Carlos Von Schilgen (Democracia Cristã) e Capitão Assumção (PL), também foram alvo da operação. Eles são acusados de crime contra a honra, incitação ao crime e tentativa de golpe de estado. Os deputados estão proibidos de sair do estado, usar as redes sociais, dar entrevistas, participar de eventos públicos e devem usar tornozeleiras eletrônicas.

Xandão também quer entender a conivência das autoridades com os criminosos que transformaram Brasília em um cenário de guerra na última segunda-feira. Ele estabeleceu um prazo de 48 horas para que o ministro da Justiça e o governador do DF expliquem quais foram as ações adotadas para conter os terroristas.

Mas é preciso ir além. Há muitas digitais do governo federal presentes na coordenação dos atos violentos. Não se trata apenas de conivência. Em entrevista para a revista Fórum, um servidor da Polícia Federal lotado na Presidência acusa o GSI de coordenar os atos terroristas em Brasília. Sergundo ele, trata-se de um caso de “terrorismo de Estado” que foi planejado pela Inteligência do Planalto. “O GSI está na cabeça disso, e o uso da área do QG, que é militar, é do Exército, não é à toa. (…) O GSI tem hoje poder para controlar mais de mil militares diretamente lá dentro (do QG do Exército e nos acampamentos) e eles estão literalmente bancando, mantendo e abrigando essa gente lá dentro (da área do QG) e logicamente ninguém fardado está aparecendo, porque essa é a forma de operar deles, uma guerra híbrida que alimenta e fomenta tudo que está ocorrendo ali. É explícito para quem está perto que o GSI está incitando isso com esses civis, todo mundo que está por ali (Gabinete da Presidência) sabe disso”, denunciou o servidor. O GSI, comandado pelo General Heleno — aquele que lamentou o fato de Lula não estar doente — nega o conluio com os terroristas.

Desde que ficou sabendo o resultado da eleição, o país assistiu aos terroristas agredindo, ameaçando, sabotando, saqueando, sequestrando e incendiando o país. Faltando apenas 15 dias para a posse de Lula, parece que finalmente a democracia reagiu e começou a enquadrá-los. Mas não basta punir os autores e financiadores dos crimes. É preciso ir pra cima dos mandantes principais. Todos os indícios apontam para Jair Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas. É preciso expurgar o mal pela raiz para que ele não volte a atormentar a democracia nunca mais.

“Bolsonaro não vai agir. Vocês serão presos”, diz vice-líder do governo

Vice-líder do governo na Câmara, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) pediu aos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que deixem os acampamentos em frente aos quartéis. Segundo ele, Bolsonaro não vai ceder aos apelos por um golpe de Estado e precisa dizer isso claramente para o seu eleitorado, sob risco de cometer uma covardia e se apequenar.

“Eu vou ser chamado de traidor por aqueles que acham que o presidente Bolsonaro vai agir, e eu, olhando na sua câmera, digo: não vai. E digo: não se iludam. E digo mais: saiam das portas dos quartéis, vocês serão presos e não haverá ninguém que os defenda”, afirmou o deputado em entrevista ao site bolsonarista Jornal da Cidade Online.

Para o deputado bolsonarista, o presidente deve romper o silêncio e pedir desculpas aos seus apoiadores por ter criado falsa expectativa de que ainda poderia se manter no poder.

“Assim como agora, subi na tribuna esta semana para pedir ao presidente que tome uma decisão e comunique essa decisão ao seu povo, seja qual for, mesmo que seja a mais triste e dolorosa de que nada será feito. Que ele diga ao seu povo que consultou o jurídico, tentou criar caminhos e não há caminhos. Quero pedir perdão por ter gerado esperança a vocês, mas, neste momento, me resta com altivez assumir meu papel de grande líder do país para que possamos nos soerguer nos próximos quatro anos”, afirmou.

Otoni de Paula também critica o comportamento de Bolsonaro de, ao se manifestar, usar palavras e fotos “enigmáticas” que instigam seus seguidores. “O silêncio, pior que o silêncio, as frases enigmáticas, as fotos enigmáticas, isso está fazendo tão mal ao povo, isso chega a beirar – sei que a palavra é muito forte – a covardia, manipulação do povo”, disse. “Ele não tem o direito de estar em silêncio ou liberar frases enigmáticas. O presidente Bolsonaro precisa falar claramente ao seu povo. Se ele não o fizer, sairá pequeno. Ele sofrerá a maior derrota de todas”, acrescentou.

Ainda na entrevista ao Jornal da Cidade Online, o emedebista ressalta que há casais se separando e pessoas perdendo o emprego por estarem há mais de 40 dias acampados em frente a quartéis-generais pedindo intervenção militar.

Otoni de Paula disse ter certeza de que o ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e relator do inquérito dos atos antidemocráticos no Supremo Tribunal Federal, ordenará a prisão de parlamentares.”Só está esperando o recesso parlamentar para nos prender. Não tenho dúvida disso”, declarou. Questionado sobre quem poderia ser preso, ele respondeu: “Quem ele quiser prender. ele vai fazer isso com sorriso no rosto, o mesmo que ele deu quando disse que ainda tinha muita gente para ser preso e foi aplaudido”.

O vice-líder do governo também cobrou que Bolsonaro se manifeste, sob pena de se apequenar. “O presidente Bolsonaro precisa falar claramente ao seu povo. E, se ele não o fizer, ele sairá pequeno, ele sofrerá a maior derrota de todas, que não foi nas urnas, porque nas urnas ele ainda saiu grande demais, com capital político maravilhoso”, declarou.

Otoni retornou à vice-liderança do governo na Câmara em abril. Ele havia sido afastado da função em julho de 2020 depois que xingou Alexandre de Moraes de “lixo”, “canalha” e “esgoto do STF”. O deputado foi incluído então no inquérito dos atos antidemocráticos.

https://www.youtube.com/watch?v=OiGJa_H01OE

Reação

Nos últimos dias, a Justiça deu mostras de que pode agir para trazer o país de volta à normalidade. O pastor bolsonarista Fabiano Oliveira, que estava foragido há cinco dias, foi preso em um ato de bolsonaristas em frente ao 38º Batalhão de Infantaria do Exército em Vila Velha, na Grande Vitória (ES), nesta segunda-feira (19), de acordo com informação da superintendência da Polícia Federal (PF).

O superintendente da PF no estado, Eugênio Ricas, afirmou que o pastor não reagiu à prisão. “Foi preso pela PF, sem resistência, encaminhado ao DML [Departamento Médico Legal] e entregue ao sistema prisional”, detalhou.

Fabiano Oliveira teve a sua prisão preventiva decretada na última quinta-feira (15), sob acusação de integrar milícias digitais e promover movimentos antidemocráticos.

O bolsonarista autodenominado “Sarneyzinho do Maranhão”, que viralizou esta semana com um vídeo em que faz ameaças de morte ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), também foi preso pela Polícia Federal, na sexta-feira (16).

A prisão do radical, que foi candidato a deputado estadual na eleição de 2018, foi efetuada na divisa entre o Maranhão e o Piauí. A PF ainda não divulgou detalhes das circunstâncias da detenção do bolsonarista.

No vídeo que viralizou, Sarneyzinho do Maranhão xinga o ministro do STF e promete executá-lo. “Senhor Alexandre de Moraes, o senhor não passa de um bandido do PCC. Será que nesse país não tem homem pra fuzilar esse vagabundo? Cadê os caminhoneiros desse país que não fazem nada? Cadê o Exército, Marinha e Aeronáutica? Será que só tem frouxo e covarde nesse país? Só o presidente, só?”, diz o bolsonarista.

Na sequência, ele ameaça explicitamente Moraes de morte. “Quero mandar um recado para o bandido do Alexandre de Moraes. Aqui quem vos fala é o Sarneyzinho do Maranhão. Cuidado. Meus homens já estão de olho em ti, já estão te arrodeando em Brasília e São Paulo. Minha ordem é para executar. Já coloquei meus homens à disposição para te executar. Cuidado com tua vida, vagabundo”, dispara.

Bolsonaristas veem ‘recados secretos’ do presidente e reforçam golpismo

Redes de seguidores radicais do presidente da República vêm se dedicando à interpretação de imagens postadas em perfis ligados a ele encaradas como “recados secretos” para manterem a mobilização na porta dos quartéis. As mensagens cifradas levam a crer, segundo os apoiadores, que Bolsonaro e as Forças Armadas vão impedir a posse de Lula

Centenas de bolsonaristas estão acampados nos arredores de instalações militares em várias cidades do país, aguardando, de 72 horas em 72 horas, que tanques venham às ruas para ocupar o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, atropelar o resultado das urnas e manter o perdedor do segundo turno, ou seja, Jair, no poder. Apesar disso, não há qualquer sinalização de ruptura democrática.

O perfil “Bolsonaro TV”, do aplicativo de mesmo nome que reúne conteúdo sobre Jair e é ligado a ele (a própria conta oficial do presidente no Twitter pediu “faça download de nosso app”), vem sendo usado para disparar essas mensagens cifradas.

Elas não defendem golpe militar, nem pedem para que os manifestantes permaneçam acampados ou trancando rodovias, o que evita o risco de responsabilização criminal de Bolsonaro, do vereador Carlos Bolsonaro, que comanda a vida digital do pai, e de aliados. Mas deixam recados que são rapidamente entendidos pelos seguidores no sentido desejado pelo bolsonarismo.

Tão logo uma imagem é postada, começa uma gincana de interpretação. Todas levam os excitados seguidores do presidente a acreditar, em um sebastianismo com gosto de leite condensado, que é questão de dias, quiçá horas, até que a verdade se revele e o PT seja impedido de voltar ao poder.

Copos verdes no lugar de soldados e Jair comparado a Pedro I

Há publicações cuja referência é mais simples, como uma foto de Bolsonaro jogando xadrez com sua filha, Laura, de 12 anos. Ela ensejou milhares de comentários de que o “xeque-mate” está próximo e de que “o presidente está jogando pacientemente e vai ganhar da esquerdalha”. E, por isso, todos devem resistir nos quartéis, nas estradas, no WhatsApp e no Telegram.

Em outra, mais complexa, um Bolsonaro sorridente observa um celular, com uma pilha de copos verdes descartáveis em primeiro plano na imagem e uma caneta. “Das 7 falta só 1 canetada para as FA [Forças Armadas]? Elásticos (2?) = prender. Copos = Soldados Exército posicionados Capitão feliz = tudo certo”, sugere uma seguidora.

Mais uma imagem com o presidente fazendo careta e uma música ao fundo e, com ela, muitas interpretações. “Decifrando a foto: cara de marra (indica que ele tem uma carta na manga/debochando dos inimigos); a música instrumental, então não tem letra para traduzir, mas é do filme Matrix, coloca no Google Rob Dougan – Clubbed to Death 3º vídeo que vai aparecer, uma sociedade inteira andando em uma direção e um homem se liberta e corre em direção contrária, nas últimas cenas começa a queimar atrás dele que é arremessado para a mesma outra dimensão. Resumo: vamos sair da Matrix do sistema, confiem em mim”, afirmou uma bolsonarista.

Em outra foto postada, Bolsonaro está montado em um cavalo, com uma bandeira e um troféu, entre seguidores.

“A foto lembra o quadro ‘a proclamação da independência’ (amanhã é um dia decisivo para nossa independência); o troféu na mão (confirma quem é o vencedor); bandeira do Brasil (símbolo da resistência). Em resumo, a foto significa: nós vencemos, o Brasil terá sua nova independência (isso é uma promessa)”, aponta mais uma seguidora.

Quem vem publicando essas imagens desde que o presidente adotou o silêncio como método ao final da eleição sabe que elas geram reações nos seguidores. Aproveitam o que pesquisadores da desinformação chamam de “viés de confirmação” – fenômeno que leva as pessoas a acreditarem em uma interpretação dos fatos que corrobora suas crenças. Isso é potencializado por outro fenômeno, o da “câmara de eco” da própria rede, em que os bolsonaristas ouvem coisas nos grupos em que participam que eles mesmos gostariam de ter dito, o que tende a confirmar a validade das interpretações.

Postagens incluem até Mario Kart e He-Man

Um vídeo com uma cena do icônico jogo Mario Kart, postado na quarta (14), é outro exemplo. Nele, Mario, de vermelho, está na frente até ser ultrapassado por Luigi, de verde, na última hora e vencer. Como toque especial, a imagem está de cabeça para baixo.

“Gente eu entendi que o Mário vermelho estava na frente ganhando roubando tentando derrubar os adversários jogando sujo, aí no último momento veio acho que o Luigi de verde e passou ele. Lula roubando e o Bolsonaro passando na frente no último momento sem trapaça”, afirmou uma de dezenas de interpretações semelhantes.

Em mais uma postagem com temática infanto-juvenil, o personagem de desenho animado He-Man empunha a sua espada em frente ao Castelo de Gryascull. “Castelo verde = Quartéis e militares são seguros. He-Man em frente ao castelo = patriotas em frente aos QGs faz a força e o capitão comanda.. Azul do Céu + Castelo Verde + Águia voando = FFAA estão juntas com o capitão”, diz um perfil. E completa: “Só não entendi porque o símbolo do Vasco no peito do He-Man kkk”. No que é completado por outro perfil, que afirma que a Cruz de Malta é o símbolo “das cruzadas, guerras santas”.

Um curto vídeo de um canoísta vencendo uma cachoeira gigante. “Cachoeira: o inimigo, o perigo a força contrária (com todo respeito mãe natureza). Desfecho: venceremos, com o Sr. Presidente, até o último homem”, afirma uma interpretação de bolsonarista.

A gincana de interpretação seria apenas pitoresca caso não se tratasse de parte de um processo voltado à manutenção de atos de caráter golpista. Para além da natureza criminosa das ameaças à democracia, essas mobilizações vêm provocando violência em várias partes do país.

Empresários bolsonaristas em Novo Progresso (PA) que bloqueavam a BR-163 atacaram carros da Polícia Rodoviária Federal com pedras e tiros em 7 de novembro. Caminhões foram incendiados em Itaúba (MT) para trancar a rodovia e dificultar o escoamento da produção em 21 de novembro. E ônibus e carros foram queimados, em Brasília, na última segunda (12), por bolsonaristas radicais, que também tentaram invadir a sede da Polícia Federal.

O presidente da República, até o momento, não criticou esses três atos de violência provocados por seus seguidores. Nem comentou as interpretações das mensagens cifradas que alimentam o golpismo.

Assista a “As Vozes de Bolsonaro”, novo documentário do UOL:

Bolsonaristas acampados na frente dos quartéis não gostam de trabalhar?

Um dos maiores passatempos da extrema direita tem sido chamar movimentos sociais de vagabundos por seus acampamentos que reivindicavam o direito de plantar, de morar, de viver. Agora, a extrema direita passa semanas acampada em frente aos quartéis produzindo nada além de golpismo, algazarras que atrapalham os vizinhos e terror com atos violentos. E chama a si mesma de “revolucionária”.

Nem todo mundo concorda com os métodos dos movimentos sociais, como as ocupações de terras griladas, de imóveis vazios pela especulação imobiliária ou de territórios tradicionais por indígenas, para forçar a ação do Estado. Mas muita gente compreende que suas reivindicações são justas. A mesma sociedade, contudo, vê com nojo a defesa de golpe militar para manter o perdedor das eleições no poder, ignorando a vontade do voto.

Nos acampamentos de movimentos, os trabalhadores não passam o dia sem fazer nada, ao contrário do que foi dito durante anos de difamação. Eles plantam ou saem para trabalhar.

É verdade que muitos dos que participam das micaretas golpistas em frente aos quartéis vêm e vão em turnos. Mesmo assim, é grande a quantidade de pessoas que gastam horas úteis na semana participando de atos contra a democracia. Imaginem se essas horas fossem adotadas em algo de bom para o Brasil, como a luta contra a fome?

Bombardeados pelas mentiras propagadas pelo presidente da República e seus aliados, os golpistas veem a si mesmos como membro de uma elite revolucionária de uma “primavera brasileira”.

Comparam-se a movimentos internacionais que visam a derrubar tiranos ou reestabelecer a democracia quando, na verdade, são eles que querem criar um ditador e atropelar as instituições.

A falta de percepção sobre isso não é pateticamente fofo como um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento, mas produz o que os alemães chamam de “fremdschämen” – o sentimento de vergonha alheia. E dado o desespero de alguns que começam a perceber que Lula subirá sim a rampa, confesso que também há um pouco de “schadenfreude” – o sentimento de satisfação diante do infortúnio alheio. Até porque o infortúnio deles é a sorte da nossa democracia.

Esses acampamentos de natureza golpista, que não produzem nada a não ser ameaças ao Estado de direito, precisam acabar urgentemente. Pois qnquanto o MTST ganha um prêmio da ONU por usar suas ocupações para servir mais de 1,5 milhão de refeições gratuitas a quem passa fome nas ruas, as ocupações golpistas têm promovido terror e violência.

Empresários bolsonaristas em Novo Progresso (PA) que bloqueavam a BR-163 atacaram carros da Polícia Rodoviária Federal com pedras e tiros em 7 de novembro. Caminhões foram incendiados em Itaúba (MT) para trancar a rodovia e dificultar o escoamento da produção em 21 de novembro. E ônibus e carros foram queimados, em Brasília, na última segunda (12), por bolsonaristas radicais, que também tentaram invadir a sede da Polícia Federal.

Milhares de pessoas conseguem permanecer na porta dos quartéis porque são apoiadas por doações de pessoas físicas e jurídicas. Sim, a indolência golpista não é sustentada pelo vento.

Investigações da Polícia Federal já levaram o Supremo Tribunal Federal a decretar ordens de prisão, de busca e apreensão e de bloqueio de contas. Mas ainda é pouco. O Brasil precisa desmobilizar esse golpismo antes da virada do ano.

É direito de qualquer brasileiro se manifestar por uma causa. Mas quando essa causa é o golpismo, torna-se obrigatório perguntar: quem, de fato, é o vagabundo?


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