23/04/2024 - Edição 540

Poder

A Bolsonaro só resta uma coisa: pedir a Deus para não ser preso

Silêncio de aliados após inelegibilidade gera incômodo no entorno do ex-presidente

Publicado em 04/07/2023 8:51 - Ricardo Noblat (Metrópoles), Yurick Luz e Caique Lima (DCM) – Edição Semana On

Divulgação Tânia Rêgo - Abr

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Dê-se Bolsonaro por feliz se não for preso, tantos são os processos que responde no Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior Eleitoral e, em breve, no Tribunal de Contas da União. E dê-se por feliz porque seu atual partido, o PL, ainda está disposto a pagar os advogados que o defendem. Será assim por muito tempo?

A ver. A ver também se ficará em apenas oito anos o período de inelegibilidade de Bolsonaro. Ontem (3), ele disse que “não morreu ainda”, que está na UTI e que “não é justo alguém querer dividir” seu espólio eleitoral acumulado em mais de 30 anos de vida pública. A divisão é inevitável.

O Tribunal de Contas da União deverá abrir um novo processo contra Bolsonaro a partir da decisão do Tribunal Superior Eleitoral que considerou ter havido abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião com embaixadores, ocorrida em 2022, em que Bolsonaro desacreditou as urnas eletrônicas.

A Lei da Ficha Limpa determina que gestores públicos que tiverem as contas reprovadas por irregularidade que configure ato doloso de improbidade ficam os oito anos seguintes da decisão impedidos de disputar eleições. Se condenado nesse caso, Bolsonaro ganhará mais alguns aninhos de inelegibilidade. E assim por diante.

Outro dia, Bolsonaro afirmou que será salvo porque guarda uma “bala de prata”. Perguntado, ontem, sobre qual seria a bala, respondeu que não vê ninguém com conhecimento suficiente do país para substitui-lo como candidato a presidente em 2026. É o que ele pensa, mas não o que pensam os outros.

Citou os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Romeu Zema (Novo-MG) como nomes que carecem de condições para substituí-lo. Sobre Zema, comentou:

“Eu não vou dar conselho para o Zema, mas quem queimar largada agora vai levar tiro de bazuca no lombo. Então vai com calma. Tem tempo ainda. 2026 passa por 2024”.

Como não deixa passar uma oportunidade de mentir, Bolsonaro garantiu que não foi seu pessoal “que fez o quebra-quebra” em 8 de janeiro último na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em mais uma tentativa fracassada de golpe. Foi pessoal de quem? Seus devotos fiéis sugerem que foram “infiltrados de esquerda”.

Ou seja: embora ninguém de esquerda tenha sido preso em meio à baderna: embora ninguém de esquerda tenha sido preso quando o Exército permitiu a prisão dos baderneiros acampados à porta do seu QG; e embora à esquerda não interessasse derrubar um governo de esquerda, o golpe de 8 de janeiro foi de esquerda.

Dá para acreditar? Bolsonaro não espera que a maioria dos brasileiros acredite. Basta que seus seguidores, em número decrescente, acreditem. E que, pelo menos, continuem acreditando até que aconteça um milagre capaz de reabilitá-lo a tempo de voltar a disputar eleições – em 2026, 2030 ou 2034, quem sabe?

O fim de linha chegou para Bolsonaro, só ele finge que não vê. Político sem perspectiva real de poder, pouco ou nada vale. E, de novo: agradeça a Deus e dê-se por feliz se não acabar preso.

Silêncio de aliados após inelegibilidade gera incômodo no entorno de Bolsonaro

Aliados próximos do ex-presidente Jair Bolsonaro não escondem o incômodo em relação ao silêncio de figuras como o senador Sergio Moro (União-PR) e o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), diante da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tornou o ex-capitão inelegível.

Cláudio Castro fez seu último aceno ao ex-mandatário na véspera da condenação. Na ocasião, ele disse que a inelegibilidade de Bolsonaro aumentaria a sua relevância política. Após a decisão do TSE, o governador não se pronunciou mais sobre o assunto.

“(Bolsonaro será) talvez até mais importante do que se estivesse elegível. Não tenho dúvidas de que um candidato à Presidência que teve 49% (dos votos) tem uma infinidade de seguidores, que terão um sentimento de injustiça. Com certeza, (será) ainda melhor do que elegível, não tenho dúvida”, disse Castro, no 22º Fórum Empresarial Lide.

Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás, também não prestaram solidariedade de forma pública a Bolsonaro. Ambos estiveram no palanque com o ex-chefe do Executivo em 2022 e, hoje em dia, têm investido em um bom relacionamento com o governo do presidente Lula (PT).

Moro é outro que não tem se pronunciado sobre a condenação do ex-presidente. O ex-juiz da Lava-Jato chegou a ser cobrado pelo próprio filho do ex-capitão, Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ). “Alguma manifestação do Moro em relação à inelegibilidade de Bolsonaro?”, escreveu a bolsonarista. “Terceira via tá chamuscando a beirola”, respondeu o vereador.

Romário (PL) também não manifestou opinião sobre os oito anos de inelegibilidade impostos a Bolsonaro. Assim como o deputado federal Eli Borges, Líder da bancada evangélica. Ele é um dos seis deputados do núcleo bolsonarista do PL que não externaram apoio ao ex-mandatário após a condenação pelo TSE.

Nas redes sociais, entretanto, o advogado de Bolsonaro e ex-secretário de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wanjgarten tentou minimizar a falta de manifestações públicas de apoio de alguns aliados do ex-presidente. “Os apoios privados são mais sinceros que públicos”, afirmou Wajngarten.

Ministro do TSE que votou para absolver Bolsonaro vai herdar 15 processos do ex-presidente

O ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Raul Araújo, um dos dois únicos a votar contra a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, vai assumir a relatoria de até 15 ações movidas contra o ex-presidente na corte. Os processos também pedem a inelegibilidade do capitão por irregularidades. A informação é do jornal O Globo.

O magistrado vai ocupar a corregedoria-geral da Justiça Eleitoral em novembro deste ano e, consequentemente, herdar as relatorias do posto. O posto é ocupado por um ministro do TSE vindo do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e atualmente é ocupada por Benedito Gonçalves, que se aposenta na data.

Caso nenhum dos casos pendentes contra Bolsonaro seja pautado até novembro, Raul Araújo vai herdar as 15 ações e será responsável por decidir quando elas serão pautadas. Existe a possibilidade de Benedito liberar a votação de mais uma dessas ações antes da aposentadoria, mas a maioria delas está em estágio inicial de apuração.

Caso o ex-presidente seja condenado em mais uma das ações, não haverá acúmulo de período em sua inelegibilidade, mas sofrerá outras sanções, como multas.

A mudança na relatoria dos casos levou o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, a articular nos bastidores a votação da ação movida pelo PDT, que gerou a condenação de Bolsonaro. A expectativa é que os outros processos tenham uma tramitação mais lenta após Raul Araújo assumir o posto.

Entre os casos que estarão sob relatoria do ministro a partir de novembro estão o uso de programas de maneira eleitoral, como o Auxílio brasil; a investigação sobre uma rede de perfis destinados a difundir fake news; uso do desfile do Bicentenário da Independência, no 7 de Setembro de 2022, de maneira eleitoral; viagens oficiais feitas ao exterior durante a campanha eleitora; e disparo de SMS por um número do governo do Paraná que dizia: “Vai dar Bolsonaro no primeiro turno! Senão, vamos a rua para protestar! Vamos invadir o Congresso e o STF! Presidente Bolsonaro conta com todos nós!”.


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