18/05/2024 - Edição 540

Palavra do Editor

O voto nulo como opção

Publicado em 16/07/2014 12:00 -

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O voto nulo tem sido execrado historicamente por nove entre cada dez “especialistas”, pensadores, sociólogos, políticos, militantes, e – como diz o Olavo de Carvalho – tutti quanti. Trata-se, segundo estes, de um ato de idiotismo político, no qual o eleitor abre mão de suas prerrogativas cidadãs entregando o “poder” – este lindo – de bandeja.

Será?

A democracia representativa nunca foi e não é a única forma de organização social e, ainda que tenha se estabelecido como o peixe menos podre entre os sistemas políticos do século XX, está longe de atender com perfeição as demandas e necessidades das sociedades modernas. Ora, sendo assim, nada mais natural que algumas pessoas enxerguem em outras formas de organização social opções mais interessantes.

O voto nulo pode expressar uma destas opções. Na história, o voto nulo já foi uma bandeira ideológica. Era uma ideia básica dos anarquistas, um dos movimentos da esquerda, provenientes do século 19, que tiveram grande influência mundial no começo do século 20. Para eles, votar nulo era a condição para manter a própria liberdade e autonomia, se recusando a entregá-las na mão de líderes ou iluminados.

Votar nulo é um direito e, acima de tudo, uma opção política tão válida quanto qualquer outra.

Anarquistas como o filósofo francês Pierre-Josef Proudhon não viam grande diferença entre reis tiranos que oprimiam seus súditos e presidentes eleitos pela maioria. “Não mais partidos, não mais autoridade, liberdade absoluta do homem e do cidadão”, pregava Proudhon. O ideal dos anarquistas era uma sociedade organizada pelas próprias pessoas, sem autoridades e sem líderes.

Desde a Primavera Árabe, as diversas “rebeliões” populares que sacudiram o planeta, passando pelos “indignados” espanhóis e desembocando nas manifestações que começaram no Brasil em 2013 – e que se estendem até hoje em proporções menores – são demonstrações de que o atual sistema político e econômico – e todas as suas variantes de esquerda ou direita – está sendo questionado em seu cerne.

Movimentos que englobam em suas reivindicações mais participação popular e democracia direta tem, intrinsecamente, relações com raízes anárquicas e, por tabela, com o conceito de voto nulo.

Há mais idiotismo político no voto inconsciente, aquele oferecido sem base política, em troca de um tapinha nas costas ou uma cesta básica do que no voto nulo consciente. Votar nulo é um direito e, acima de tudo, uma opção política tão válida quanto qualquer outra.


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