22/07/2024 - Edição 550

Palavra do Editor

O ovo da serpente

Publicado em 28/03/2014 12:00 -

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Há certas palavras que nos remetem ideias pré-concebidas que acabam por nos fazer crer que são inerentes a determinado tipo de pensamento político e não a comportamentos pessoais muito próximos a nossa realidade cotidiana. O totalitarismo é uma destas palavras. Ocorre que, ao contrário do que imaginamos, o totalitarismo tem múltiplos tentáculos, que tentam sufocar a sociedade com investidas à direita e à esquerda do espectro sócio-político e mesmo em nosso dia a dia.

Totalitarismo é um sistema político no qual o Estado, normalmente sob o controle de uma única pessoa, político, facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada.

Os regimes ou movimentos totalitários mantêm o poder político através de uma propaganda abrangente divulgada por meios de comunicação controlados pelo Estado, por um partido único, e muitas vezes é marcado pelo culto à personalidade, controle sobre a economia, regulação e restrição da expressão, vigilância em massa e o disseminado uso do terrorismo de Estado.

Sempre que você se defrontar com alguém que pensa e sente com o partido, ama e odeia com o partido, quer com o partido e age com o partido, corra. Fuja rápido.

Foram totalitaristas regimes ideologicamente diferentes como o nazismo de Adolf Hitler, o fascismo de Benito Mussolini, o comunismo de Josef Stalin e de Mao Tse-tung. Dentro de suas diferenças pontuais, todos ansiavam um domínio absoluto daqueles sob seu jugo.

Se olharmos com atenção, poderemos identificar regimes totalitários em todo o planeta, alguns bem pertinho de nós. Poderíamos reconhecer também tentativas sutis de controlar o cidadão pelo culto à personalidade bem aqui, no Brasil.

O totalitarismo, no entanto, se expandiu na modernidade para além das fronteiras dos partidos e do Estado. Em texto dedicado a Noam Chomsky, Jean Ziegler escreve: “Existem três totalitarismos: o totalitarismo stalinista, o totalitarismo nazista, e, agora, o ‘tina’”, palavra formada com as iniciais da expressão inglesa “there is no alternative” (não há alternativa), utilizada por Margaret Thatcher para proclamar o caráter inelutável do capitalismo neoliberal. A "tina", em sua concepção de integração global, trabalharia para a integração econômica planetária, mas somente em prol dos interesses das altas classes financeiras, dos bancos e dos fundos de pensão, potências que controlariam também as mídias.

Seja fascista, comunista ou oriundo dos excessos do mercado globalizado o totalitarismo ascende por uma característica específica: um sistema moral onde as culpas pessoais são insubstantivas em si mesmas, dependendo tão somente da cor política e transmutando-se em virtudes tão logo tragam vantagens ao “lado certo” do espectro ideológico.

Nestes dias em que lembramos os 50 anos do “Golpe de 64” é importante que foquemos nossa atenção sobre este aspecto. Sempre que você se defrontar com alguém que “pensa e sente com o partido, ama e odeia com o partido, quer com o partido e age com o partido”, corra. Fuja rápido. Você está diante do ovo da serpente, frente a frente com o germe da intolerância totalitária.


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