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Mato Grosso do Sul

Tragédia em Bonito expõe negócio de conselheiro investigado

Estância onde jovens morreram eletrocutados tem como sócio Waldir Neves

Publicado em 24/02/2026 1:15 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A estância onde dois jovens morreram após sofrerem descarga elétrica em uma tirolesa pertence ao conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul, Waldir Neves Barbosa, investigado por corrupção e lavagem de dinheiro. O local não possuía Certificado de Segurança do Corpo de Bombeiros atualizado no momento do acidente, ocorrido no sábado (21), durante uma festa de casamento.

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Pedro Henrique e Gustavo Henrique foram eletrocutados após contato com a estrutura da tirolesa, que, segundo testemunhas, estava energizada por fiação elétrica instalada de forma precária. Pedro desceu pelo equipamento, sofreu descarga elétrica e caiu na água. Ele morreu a caminho do hospital, em Bonito. Gustavo tentou socorrê-lo, mas também tocou no cabo energizado. Transferido para a Santa Casa de Campo Grande, não resistiu.

Propriedade milionária e irregularidade documental

A estância está registrada sob o CNPJ nº 41.675.508/0002-28, em nome da Walf Agropecuária e Empreendimentos Turísticos e Imobiliários Ltda., empresa que tem Waldir Neves entre os sócios. A propriedade é avaliada em R$ 4,4 milhões e tem como sócio Antônio Carlos Pereira Pires da Silva.

Outro CNPJ vinculado ao grupo empresarial (41.675.508/0001-77), matriz da companhia, está sediado em uma mansão no Residencial Damha, em Campo Grande. O imóvel foi alvo de disputa judicial após o conselheiro deixar de pagar parcelas de uma negociação que totalizava R$ 2.760.000,00. Ex-proprietários ingressaram na Justiça cobrando o débito. Posteriormente, um acordo fixou o pagamento de R$ 1,9 milhão para quitação do saldo remanescente, permitindo que o conselheiro permanecesse na residência.

A aquisição não foi feita em nome da pessoa física de Waldir Neves, mas por meio da empresa — a mesma responsável pela estância onde ocorreu a tragédia.

O Corpo de Bombeiros confirmou que o empreendimento não tinha Certificado de Segurança válido. O documento é obrigatório para atestar condições mínimas de prevenção e combate a incêndio e pânico, além de segurança estrutural de instalações elétricas e equipamentos de uso coletivo.

Especialistas em segurança de instalações elétricas alertam que estruturas metálicas associadas a sistemas de iluminação exigem aterramento adequado e dispositivos diferenciais residuais (DR), que interrompem automaticamente a corrente elétrica em caso de fuga. Segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a norma NBR 5410 estabelece critérios obrigatórios para instalações elétricas de baixa tensão, justamente para evitar acidentes desse tipo.

O engenheiro eletricista e professor da USP, Miguel Edgar Morales Udaeta, destaca que “instalações mal executadas, sem proteção adequada e sem manutenção periódica, representam risco real e imediato à vida”. A ausência de certificação atualizada amplia esse risco, pois indica falha no controle e fiscalização das condições mínimas de operação.

Investigação por corrupção e nova denúncia da PGR

A tragédia ocorre em meio a um cenário jurídico delicado para o conselheiro. Waldir Neves presidiu o TCE-MS por quatro anos e permaneceu afastado das funções por dois anos e cinco meses em decorrência da Operação Terceirização de Ouro, da Polícia Federal.

O retorno ao cargo foi autorizado em maio de 2025 por decisão do ministro Alexandre de Moraes. No entanto, novos elementos probatórios apresentados no curso da investigação motivaram pedido de reconsideração quanto à permanência no cargo.

Em 31 de janeiro de 2025, a Procuradoria-Geral da República formalizou segunda denúncia contra o conselheiro e outros quatro investigados. A acusação aponta a prática de lavagem de dinheiro por pelo menos nove vezes, entre 2015 e 2018 — período em que ele comandava a Corte de Contas.

Segundo a denúncia, o grupo teria atuado para ocultar a origem de valores provenientes de infrações penais cometidas no âmbito do TCE-MS. Os fatos foram detalhados no Inquérito 1.432, que descreve suposta dissimulação patrimonial por meio de bens e propriedades vinculados ao conselheiro e a assessores.

O ministro Francisco Falcão utilizou a nova denúncia para reforçar a necessidade de afastamento cautelar, sob o argumento de preservar a integridade das investigações. O pedido segue sob análise no gabinete de Alexandre de Moraes, no Supremo Tribunal Federal.

Waldir Neves aguarda julgamento que decidirá se se tornará réu na nova ação penal.

Entre a função fiscalizadora e o passivo judicial

O Tribunal de Contas tem como missão constitucional fiscalizar o uso de recursos públicos e zelar pela legalidade administrativa. O fato de um de seus conselheiros — responsável por avaliar a regularidade de contratos, obras e serviços — figurar como proprietário de empreendimento sem certificado de segurança válido adiciona uma camada de constrangimento institucional ao caso.

A morte de dois jovens em circunstâncias que envolvem possível negligência estrutural coloca sob escrutínio não apenas a responsabilidade empresarial, mas também a coerência ética de agentes públicos que exercem funções de controle.

Enquanto as famílias aguardam respostas sobre as causas do acidente e eventual responsabilização civil e criminal, o caso conecta duas dimensões sensíveis: a falha concreta de segurança que resultou em mortes e o histórico de investigações por ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro envolvendo o proprietário da estância.

A apuração policial sobre o acidente e o julgamento no STF devem avançar em paralelo. Em ambos os casos, a questão central é a mesma: responsabilidade. Seja na gestão de um empreendimento turístico, seja na condução de um órgão encarregado de fiscalizar o dinheiro público.

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