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Mato Grosso do Sul
Sindicato afirma que paralisia é “estratégica” e não afetará empregos
Publicado em 16/07/2025 1:35 - Semana On
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Frigoríficos de Mato Grosso do Sul suspenderam a produção de carne destinada aos Estados Unidos após o governo de Donald Trump anunciar uma tarifa adicional de 50% sobre produtos brasileiros, em uma decisão que reacende tensões comerciais e impõe sérias consequências ao setor exportador do país. A medida já impacta diretamente quatro grandes frigoríficos no estado e obriga o setor a reestruturar sua logística em busca de novos mercados internacionais.
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A paralisação afeta empresas como JBS, Naturafrig, Minerva Foods e Agroindustrial Iguatemi, que interromperam os abates e a produção destinada exclusivamente ao mercado norte-americano. A decisão, conforme confirmou o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados de Mato Grosso do Sul (Sincadems), é estratégica e visa evitar perdas financeiras com cargas que seriam taxadas ao chegar aos EUA.
“Se eu produzir e enviar carne hoje, a carga chegará aos EUA já com a tributação adicional. A taxação causou inviabilidade financeira para os produtores”, explicou Alberto Sérgio Capucci, vice-presidente do sindicato. A nova tarifa entra em vigor em 1º de agosto, mas, considerando que o tempo médio de embarque gira em torno de 30 dias, o impacto é imediato.
De acordo com dados da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul (FIEMS), em 2025, a carne bovina desossada e congelada representou 45,2% de tudo o que foi exportado do estado para os Estados Unidos, movimentando mais de US$ 142 milhões. Em 2024, esse percentual foi de 27,8%, o que equivaleu a US$ 78 milhões. Esses números mostram a relevância do mercado norte-americano para os frigoríficos locais — e o tamanho do impacto da nova política tarifária.
Além do prejuízo financeiro imediato, há também um problema logístico: o acúmulo de estoques. “Temos um volume de carne estocada que deveria ir para o mercado americano, mas que não tem mais tempo de chegar até o dia 1º de agosto. Com isso, os frigoríficos passam a ajustar suas escalas de produção para buscar a relocação desse produto”, disse Jaime Verruck, secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do estado.
A Associação Brasileira de Exportadores de Carne (Abiec) já reconhece uma redução significativa no fluxo de produção voltado ao mercado dos EUA. A expectativa agora é redirecionar a carne que seria enviada aos norte-americanos para mercados alternativos. Verruck cita o Chile e o Egito como possíveis destinos. Já o analista Fernando Henrique Iglesias, do Safras & Mercados, aposta em uma guinada ainda maior em direção à Ásia, especialmente à China e ao Vietnã — este último, que retomou recentemente as compras da carne bovina brasileira.
“Os frigoríficos vão tentar redirecionar esse produto para o mercado internacional para não gerar um efeito tão negativo. A nossa sorte é que tem mais de 100 países comprando carne do Brasil”, afirmou Iglesias. Segundo ele, a criação de um escritório da Abiec na China este ano tem ampliado oportunidades e parcerias comerciais no continente asiático.
Mesmo com o baque, a carne brasileira continua sendo a mais barata do mercado externo. Isso não passou despercebido pelos consumidores norte-americanos, que já sentem a inflação do produto no bolso. O rebanho bovino dos EUA passa por uma redução histórica, encarecendo o preço do boi e provocando uma alta nas importações. Atualmente, o preço do boi nos EUA está o dobro do valor do boi brasileiro, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Ainda assim, o Brasil ocupa apenas a segunda posição entre os maiores fornecedores de carne bovina para os EUA, atrás da Austrália. Enquanto os australianos abastecem supermercados, a carne brasileira é direcionada, sobretudo, para a indústria alimentícia norte-americana — um setor menos sensível a variações de origem, mas altamente sensível ao custo.
Apesar da relevância dos Estados Unidos, o principal destino da carne bovina brasileira segue sendo a China, que absorve 48% das exportações do setor. Os EUA vêm em segundo lugar, com 12%, de acordo com o Ministério da Agricultura. Perder esse mercado, portanto, representa mais do que uma retração econômica: é um alerta sobre a vulnerabilidade do setor a decisões políticas externas.
Por enquanto, não há indícios de que os frigoríficos vão redirecionar a carne excedente para o mercado interno, o que poderia reduzir os preços para o consumidor brasileiro. Isso porque o foco segue sendo preservar margens de lucro com exportações, mesmo que para novos destinos. A disputa geopolítica, no fim das contas, segue ditando o rumo da carne brasileira nos mercados globais.
Empregos são mantidos
Apesar da suspensão das exportações de carne bovina de Mato Grosso do Sul aos Estados Unidos, o setor industrial garante que, por ora, os empregos estão preservados. Segundo o Sindicato das Indústrias de Frios, Carnes e Derivados do Estado (Sincadems), a paralisação afeta exclusivamente a produção voltada ao mercado norte-americano e não compromete os postos de trabalho nas unidades frigoríficas.
“Por ora, não haverá demissões e redução de postos de trabalho. As indústrias estão empenhadas em buscar outros mercados que sejam viáveis para o trabalho e a exportação da nossa carne”, afirmou o vice-presidente do sindicato, Alberto Sérgio Capucci, em entrevista ao g1. A alternativa mais imediata tem sido realocar os trabalhadores em setores voltados à produção para o mercado interno ou para outros destinos internacionais.
Mato Grosso do Sul abriga atualmente 62 empresas dedicadas ao abate e à fabricação de produtos de carne bovina, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado (FIEMS). Essas empresas empregam 17.251 trabalhadores, o que demonstra a relevância econômica e social do setor para a economia local. Uma retração abrupta, portanto, teria impacto direto no mercado de trabalho regional, especialmente em municípios do interior onde os frigoríficos são as principais fontes de emprego.
Apesar da tensão, o sindicato trabalha para garantir a manutenção das atividades por meio da adaptação das escalas de produção e do redirecionamento de cargas. Os esforços também envolvem articulações com o governo estadual e federal em busca da abertura de novos mercados e possíveis negociações diplomáticas que amenizem os efeitos da taxação.
Capucci reforça que o momento é desafiador, mas que não há clima de pânico nas plantas frigoríficas. “As indústrias já sentem a redução. Para não inviabilizar os empregos, a sugestão do sindicato é que os frigoríficos aloquem os funcionários em outros setores”, afirmou.
Enquanto o setor empresarial age para contornar os impactos comerciais, a postura do sindicato revela uma tentativa de blindar a base trabalhadora de efeitos imediatos. Num país com altos índices de informalidade e desemprego estrutural, preservar quase 20 mil postos diretos ligados à indústria da carne em apenas um estado é, por si só, um esforço estratégico de contenção de danos.
Tarifa dos EUA ameaça exportações de tilápia de MS
A piscicultura de Mato Grosso do Sul, um dos setores mais promissores do agronegócio regional, também está sob ameaça. Com 99,6% da tilápia produzida no estado sendo exportada aos Estados Unidos, a imposição da tarifa extra de 50% por parte do governo Trump coloca em risco imediato a viabilidade econômica das exportações e provoca temores de sobrecarga no mercado interno.
O alerta vem de produtores, indústrias e entidades do setor, que veem na taxação um baque que pode comprometer não apenas o faturamento, mas a própria dinâmica produtiva da cadeia da tilápia. “Imagina a gente ter que pagar armazenagem para manter esse produto e depois ainda ter que vender esse produto mais barato do que o nosso custo de produção. Acaba afetando a viabilidade da produção”, afirmou José Charl Noujaim, gerente de exportação de uma indústria sul-mato-grossense.
Segundo a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS), o volume de exportação de tilápia aos EUA desde 2019 já gerou US$ 3,2 milhões em receita para o estado. Embora os números sejam inferiores aos movimentados por carnes bovinas, a dependência quase total do mercado norte-americano torna o segmento especialmente vulnerável a mudanças tarifárias.
O estado é hoje o 5º maior produtor de tilápia do Brasil, segundo o Anuário da Piscicultura 2024, da associação Peixe BR, e o 8º na produção geral de peixes de cultivo. Esse desempenho é resultado direto de investimentos em tecnologia, incentivos públicos e estratégias de qualificação de mão de obra que consolidaram Mato Grosso do Sul como uma força emergente na aquicultura nacional.
Mas o cenário promissor agora convive com incertezas. No frigorífico onde atua Noujaim, cerca de 25% da produção mensal de tilápia — o equivalente a 250 toneladas — é destinada exclusivamente ao mercado americano. A operação, que envolve logística aérea e envio diário de filés frescos, demanda investimentos altos e pouco tolera oscilações no fluxo de exportações.
“Para o consumidor nesse momento de certa forma vai ter vantagem, mas para o produtor vai afetar no volume de produção”, comenta Noujaim. Com a retração das vendas externas, a expectativa é que o aumento de oferta no mercado interno force uma queda nos preços, beneficiando o consumidor brasileiro — mas pressionando as margens da indústria, já afetadas por custos logísticos e operacionais elevados.
Dados do IBGE mostram que o crescimento da piscicultura no estado foi vertiginoso nos últimos anos. Mato Grosso do Sul saiu da 14ª posição em 2017 para a 10ª em 2022 no ranking nacional da produção de peixes de cultivo, com sua participação subindo de 2,2% para 3,8%. Entre janeiro e agosto de 2024, o estado registrou o abate de 16,8 milhões de peixes, quase 67% a mais que no mesmo período de 2023.
Apesar desse crescimento, a concentração das exportações em um único país expôs o setor à fragilidade de depender de um único parceiro comercial. As empresas agora tentam renegociar contratos com compradores americanos na esperança de amortecer o impacto das tarifas. “Temos conversado com os nossos clientes para achar o melhor caminho para o menor impacto para a gente. Não sabemos se vamos ter que renegociar preços, ou se eles vão repassar alguma parte para o consumidor”, explicou Noujaim.
Enquanto isso, o governo estadual articula com o governo federal uma tentativa de prorrogação da medida imposta por Trump, na tentativa de ganhar tempo para negociações diplomáticas e alternativas comerciais. A urgência é clara: se não forem encontradas saídas rápidas, o risco é de retração na produção, desemprego no setor e desperdício de uma cadeia produtiva construída com investimentos públicos e privados ao longo dos últimos anos.
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