Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mato Grosso do Sul
Governador entrega relatório a senadores antes de missão nos EUA
Publicado em 24/07/2025 9:09 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A iminente aplicação de uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, a partir de 1º de agosto, acende um alerta vermelho no coração do agronegócio e da indústria de Mato Grosso do Sul (MS). Com setores inteiros ameaçados, como os de carne, celulose e ferro — pilares da pauta exportadora do estado —, o “tarifaço” anunciado pelo presidente Donald Trump escancara não apenas as vulnerabilidades da economia regional, mas também a dependência estrutural do Brasil em relação aos mercados centrais.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A resposta política veio rápido: na noite de 23 de julho, o governador Eduardo Riedel (PSDB) entregou um relatório técnico detalhado aos senadores Tereza Cristina (PP) e Nelsinho Trad (PSD) antes de sua viagem institucional aos EUA. A missão, aprovada pelo Plenário do Senado e liderada pela Comissão de Relações Exteriores, busca conter os impactos da medida por meio de diálogo com congressistas norte-americanos — ainda que a negociação de tarifas seja prerrogativa exclusiva do Poder Executivo.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), a sobretaxa tende a reduzir drasticamente a competitividade dos produtos sul-mato-grossenses. A celulose, que lidera a pauta de exportações do estado, pode sofrer retração acentuada. Em 2024, o setor movimentou US$ 213,4 milhões com 341,6 mil toneladas vendidas aos EUA, representando 31% das exportações. Já a carne bovina e seus derivados alcançaram US$ 225,6 milhões (33,7% do total exportado), seguidos pelo ferro-gusa, cuja produção tem 90% de sua demanda ancorada no mercado americano.
A economista Bruna Mendes Dias, da Semadesc, destaca que, embora os setores possuam cadeias produtivas consolidadas, a medida afeta diretamente o preço final ao consumidor americano, reduzindo o apelo competitivo dos produtos brasileiros. Em entrevista ao site Campo Grande News, ela alerta: “Embora ainda seja prematuro quantificar os impactos, é possível que ocorra uma retração nas exportações, especialmente se não houver reconfiguração dos acordos comerciais.”
O crescimento das exportações de Mato Grosso do Sul para os EUA nos últimos cinco anos foi vertiginoso: de US$ 243 milhões em 2020 para US$ 669,5 milhões em 2024 — alta de 175%. As importações, por outro lado, mantiveram-se abaixo dos US$ 150 milhões, o que resultou em um superávit comercial de US$ 520,6 milhões no último ano. Essa assimetria, embora vantajosa para o estado no curto prazo, pode estar entre os motivos não declarados por trás da política protecionista de Trump, que já havia adotado medidas semelhantes em seu mandato anterior.
A medida reveste-se de significado geopolítico. Em um contexto de recrudescimento das políticas nacionalistas nos EUA e de redesenho das cadeias globais de produção, o tarifaço pode ser lido como uma tentativa de reindustrialização interna e contenção de fluxos comerciais estratégicos. Como observa o cientista político Gilberto Dupas em sua obra O Mito do Progresso (Editora Unesp, 2006): “As nações centrais não hesitam em abandonar o discurso liberal quando seus interesses estratégicos são ameaçados.”
O caso também lança luz sobre a frágil inserção internacional do Brasil. A ausência de acordos comerciais bilaterais sólidos com grandes potências torna o país refém de decisões unilaterais, sem mecanismos ágeis de contestação. Como aponta o sociólogo e ex-chanceler Celso Amorim, em entrevista à CartaCapital (edição de março de 2023):
“A dependência de mercados concentrados e a ausência de estratégias multilaterais robustas deixam o Brasil vulnerável a pressões externas. Precisamos diversificar nossa inserção internacional e fortalecer o Mercosul e os BRICS como alternativas reais.”
Neste cenário, o relatório entregue pelo governador Riedel e a missão dos senadores ganham um simbolismo importante: o de que a diplomacia parlamentar pode funcionar como canal de pressão e mediação, sobretudo quando o Executivo se encontra às voltas com complexas agendas internas e externas. Tereza Cristina, que já foi ministra da Agricultura, reforçou que a visita busca “proteger os interesses do país, sobretudo da produção rural organizada e industrializada”, enquanto Nelsinho Trad destacou a importância de “uma abordagem técnica e cooperativa para evitar sanções que comprometam o emprego e a renda no Centro-Oeste”.
Ainda assim, as chances de reversão imediata da sobretaxa são incertas. A equipe do vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin tenta sensibilizar autoridades norte-americanas por meio de encontros técnicos e de apelos à reciprocidade. Uma das possibilidades discutidas em Brasília seria a invocação da chamada Lei de reciprocidade, prevista na legislação brasileira, que permite a retaliação comercial a países que adotem medidas semelhantes — embora o uso dessa ferramenta possa escalar o conflito diplomático.
A questão, portanto, não é apenas tributária, mas estrutural. A crise atual evidencia o dilema entre o modelo de inserção passiva na economia global e a necessidade de construir uma política industrial e comercial soberana, que não dependa da boa vontade — ou da imprevisibilidade — de líderes estrangeiros.
Como lembra o filósofo italiano Domenico Losurdo, em A Luta de Classes – Uma História Política e Filosófica (Boitempo, 2004), “a dependência econômica é a forma moderna de dominação política.” A lição que fica é que, enquanto o Brasil mantiver sua economia atrelada à lógica do agroexportador, seguirá vulnerável às marés do protecionismo alheio.
O futuro imediato exigirá, mais do que nunca, diplomacia firme, articulação institucional e, sobretudo, visão estratégica. O tarifaço de Trump é mais do que uma medida econômica: é um teste à maturidade da política externa brasileira e à resiliência de sua democracia econômica.
Reabilitados no CRAS, animais silvestres retornam à liberdade
Deixe um comentário