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Mato Grosso do Sul
Indígenas de Dourados enfrentam desabastecimento crônico de água
Publicado em 14/04/2025 10:57 - Semana On
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Em pleno século XXI, famílias indígenas da reserva de Dourados (MS) seguem dependendo de baldes, galões e da solidariedade entre vizinhos para sobreviver. Em novembro de 2024, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) anunciou a destinação de R$ 2 milhões para construção de dois poços de abastecimento nas aldeias Bororó e Jaguapiru. Quatro meses depois, os canos continuam ausentes, as torneiras seguem secas, e a promessa virou silêncio.
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Mais de 13,4 mil pessoas vivem nas duas aldeias que formam uma das maiores reservas indígenas em área urbana da América Latina, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As aldeias abrigam majoritariamente indígenas Guarani Kaiowá e Terena — povos que, historicamente, enfrentam deslocamentos forçados, violência fundiária e negligência estatal.
A rede de abastecimento existente, construída há 25 anos, está em colapso. Caminhões-pipa da Defesa Civil e da Saúde Indígena tentam suprir a demanda com até oito viagens diárias, mas é insuficiente. A crise se agravou a tal ponto que famílias relatam passar até duas semanas sem uma gota d’água. A escassez impede atividades básicas: banho, alimentação, ida à escola.
“Não tem como ir na escola, como que vão sujo? Os outros que estão grande também falam que não vão pra escola sem tomar banho”, contou Eliane, mãe de sete filhos. “Fiquei olhando e fiquei muito triste, porque minha caixa estava vazia, estava sem água.”
Violência estrutural e resistência
O desabastecimento não é fruto do acaso. É expressão de uma violência estrutural — como conceituada por Johan Galtung, um dos pais dos estudos da paz — que se perpetua por meio da omissão institucional. Trata-se de uma negligência histórica do Estado brasileiro em relação aos povos indígenas, que remonta à colonização e persiste, mesmo sob governos democráticos.
A falta d’água não é só ausência de infraestrutura. É violação de direitos. É um obstáculo à saúde, à educação, à dignidade humana. Como afirma o professor de Direito da USP, Oscar Vilhena Vieira: “A ausência de políticas públicas efetivas para populações vulneráveis é uma forma de discriminação institucionalizada.”
Do protesto à promessa
Em novembro de 2024, após semanas de colapso no abastecimento, indígenas bloquearam a rodovia MS-156 em protesto. A repressão foi violenta: o Batalhão de Choque da Polícia Militar entrou em confronto com os manifestantes e três indígenas foram hospitalizados. A repressão foi amplamente criticada por organizações de direitos humanos e pelo próprio MPI, que considerou o uso da força “inadmissível e desproporcional”.
Em resposta, o governo anunciou a perfuração de dois super poços, com captação prevista de até 15 mil litros de água por hora. Mas o projeto emperrou. Até o momento, não há previsão para início da construção dos dutos.
O paradoxo democrático
O Brasil é signatário de tratados internacionais que reconhecem o direito à água e ao saneamento como essenciais à dignidade humana. A Constituição de 1988 consagra os direitos dos povos indígenas às suas terras, à sua cultura e à sua autonomia. E, no entanto, em pleno regime democrático, milhares de cidadãos originários vivem em condições análogas ao abandono.
“Nos territórios indígenas, o direito à água e ao saneamento é garantido pelo Governo Federal sob a competência da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI)”, afirmou o MPI, em nota. Mas as palavras não têm sido acompanhadas de ação eficaz. A morosidade na execução de políticas públicas alimenta o ciclo de escassez e desconfiança.
O corpo que resiste, a memória que persiste
O território da reserva de Dourados é também um território de resistência. A comunidade resiste à espera. As mães, como Samanta Severino Ricarte, que trabalha à noite e carrega baldes pela manhã, demonstram uma força que transcende o abandono. “É difícil porque a gente tem que se preocupar para não faltar comida em casa e agora também para ter água”, disse.
Giovane Ricarte, que cresceu sem água, repete o ritual que conheceu na infância: “Se eu não armazenar de manhã, à tarde já não tem.” A memória coletiva dessas comunidades é atravessada por promessas não cumpridas e pela persistência em manter viva sua cultura, sua língua e seus modos de vida, mesmo quando falta o mínimo.
O caso de Dourados não é isolado. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, 44% das casas em territórios indígenas não têm acesso regular à rede geral de abastecimento de água. Em algumas regiões da Amazônia Legal, esse número chega a 80%. Em outras palavras, a crise hídrica é uma chaga aberta em centenas de aldeias brasileiras — reflexo da invisibilidade institucional.
Uma ferida política, social e moral
O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos define os povos indígenas como “sujeitos epistêmicos da resistência”, ou seja, aqueles que, mesmo marginalizados, produzem conhecimento e mantêm viva a esperança de um outro mundo possível. A luta por água em Dourados é também uma luta por reconhecimento e por justiça.
Enquanto isso, a água, bem mais básico e simbólico da vida, segue sendo artigo de luxo para comunidades inteiras. Um paradoxo inaceitável num país que se apresenta como potência ambiental e multicultural.
Se a água é vida, onde está o direito de viver plenamente para esses brasileiros?
Essa pergunta ecoa como denúncia e chamado à ação. O tempo das promessas já passou. Como diz a ativista indígena Sonia Guajajara, atual ministra dos Povos Indígenas, em diversos pronunciamentos: “O que os povos originários querem não é favor. É respeito.”
A sede que mata não é apenas física — é também institucional. E ela precisa ser enfrentada com a urgência que a vida exige.
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