20/06/2024 - Edição 540

Mato Grosso do Sul

Riedel firma pacto interfederativo e MS se antecipa na prevenção e controle de incêndios no Pantanal

Bioma registrou mais de 900% de aumento nos focos de queimadas em 2024

Publicado em 06/06/2024 9:20 - Semana On, Jorge Abreu (Folha de SP) – Edição Semana On

Divulgação MS Gov

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O governador Eduardo Riedel assinou ontem (5) junto ao Governo Federal e outros estados o Pacto Interfederativo para o Combate aos Incêndios no Pantanal e na Amazônia. O objetivo dessa iniciativa é antecipar e integrar ações de prevenção e controle do fogo nas duas regiões, que devem sofrer nos próximos meses os efeitos de uma forte estiagem.

A assinatura e anúncio do pacto aconteceu em Brasília (DF), em cerimônia que fez alusão ao Dia Mundial do Meio Ambiente, e contou com a presença da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, além do governador sul-mato-grossense Eduardo Riedel e os governadores e representantes dos demais estados.

“Importante registrar que o Pantanal é um bioma historicamente muito susceptível às queimadas nessa época de seca. Tivemos um histórico 2020, que foi fora de qualquer proporção, e em 2024 as condições de clima que estão colocadas são piores que naquele ano. Então estamos muito preocupados e agindo para não repetir aquele cenário”, frisa Riedel.

O governador de Mato Grosso do Sul – onde está 65% do Pantanal – ainda destaca que desde 2020 o Estado se estruturou para enfrentar tal problema. “Estamos trabalhando duramente, com toda a nossa força, pois já começou a época de incêndios lá, com mais de 800, 900 focos. Já estamos fazendo esse combate, tanto é que a área é menor por causa da nossa ação”.

Quanto à cooperação firmada hoje, Riedel destaca que é um instrumento que soma esforços na preservação. “Mato Grosso do Sul já alocou praticamente R$ 50 milhões em prevenção, e tem colocado esse esforço gigante para poder evitar essa queimadas que em anos como esse, de muito déficit hídrico, de muita massa seca, costuma acontecer no Pantanal. Vamos usar toda nossa capacidade e esse acordo auxilia nisso, para ampliar essa ação”.

Além do pacto interfederativo (firmado hoje por MS, MT, PA, AC e RR), foram assinadas para outras regiões do Brasil 13 iniciativas que vão desde a criação de novas áreas protegidas pelo Governo Federal a até programas nacionais de conservação e cooperações entre instituições federais.

“O que estamos vendo no Rio Grande do Sul em chuva e os efeitos dessa chuva, vamos ver em estiagem provavelmente na Amazônia e no Pantanal. Vamos ter um fenômeno com incêndios e queimadas”, destaca a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva.

Marina ainda explica que materiais orgânicos chamados turfas alimentam as chamas dos incêndios subterrâneos que ocorrem em áreas remotas, dificultando o trabalho de frente ao fogo, que é natural para o período de seca no Pantanal, mas toma proporções fora da normalidade e de ameaça à vida se aliadas às condições climáticas de seca previstas.

Antes das assinaturas, várias ações do Governo Federal em conjunto com os estados foram elencadas por Marina, apontando para números de redução do desmatamento nos primeiros cinco meses deste ano e em outros períodos. No Cerrado, por exemplo, houve diminuição de 12,9% em comparação ao mesmo período (janeiro a maio) de 2023.

Já no Pantanal, os números apresentados são um retrato de agosto de 2022 até julho de 2023. Nesse período, a queda do desmatamento foi de 9,2%. “Temos no Pantanal essa inflexão, e aqui está o governador Eduardo Riedel, de Mato Grosso do Sul, onde foi feita uma lei [a Lei do Pantanal] para proteger esse bioma. Já temos esse resultado inicial”, afirma Marina.

Pantanal registra mais de 900% de aumento nos focos de queimadas em 2024

Depois de uma atípica temporada intensa de fogo em novembro passado, o pantanal volta a ficar sob alerta. De janeiro ao início de junho de 2024, os focos de incêndio no bioma aumentaram 974% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Os dados são do Programa de BDQueimadas, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Atualizada diariamente, a plataforma mostra que, até terça-feira (4), o bioma somava 978 focos, enquanto em 2023 o número era de 91.

O valor acumulado neste ano é o segundo maior dos últimos 15 anos, atrás apenas de 2020, quando foram registrados 2.135 focos. Naquele ano, cerca de 30% do bioma foi consumido pelas chamas.

Cyntia Santos, analista de conservação do WWF Brasil, explica que o clima se mantém quente na maior parte do dia no pantanal e as chuvas abaixo das médias históricas desde o fim do ano passado colaboram uma situação preocupante.

“O alerta é enorme, principalmente com relação a quantidade de focos que tomam uma proporção muito grande. O pantanal está muito seco e a temperatura durante o dia é alta. Se não forem contidos, esses fatores juntos contribuem para ameaça de fogo e riscos de incêndios”, disse.

De acordo com a analista, os dados oficiais, também monitorados por entidades ambientalistas, são fundamentais para o planejamento de ações de combate ao fogo e para as estratégias das brigadas voluntárias treinadas, que atuam nas áreas de maior incidência nos estados do Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul.

Entre os municípios mais afetados, segundo o levantamento, estão Aquidauana, Miranda, Corumbá e Porto Murtinho, no MS, e Poconé, Barão de Melgaço, Cáceres e Itiquira, no MT. As áreas fronteiriças com a Bolívia também estão entre as ameaçadas.

“Em algumas regiões, o fogo tem acontecido de forma bastante intensa, como na Serra do Amolar, que teve uma grande queimada. Nossos parceiros e instituições que também atuam localmente tiveram que acionar o governo, inclusive para ajudar a conter o fogo”, relatou.

Apesar da alta, Cyntia Santos afirma que a situação atual no pantanal ainda não é comparável à registrada no final do ano passado. A estiagem e a onda de calor de novembro levaram os estados de MT e MS a decretar situação de emergência, após o registro de mais de 2.000 focos de incêndio em menos de duas semanas.

“A gente já está percebendo que a ameaça está tão grande quanto do ano passado. A intensidade da seca e a baixa quantidade de água disponível no território, já está caminhando para níveis mais ameaçadores, de fogos de extensão mais larga”, frisou.

O Serviço Geológico Brasileiro reportou que o rio Paraguai, o principal da região, apresenta os menores níveis históricos. A estação de medição de Porto Murtinho (MS), conforme os dados, manteve uma altura abaixo de 250 cm desde o início do ano, enquanto o normal costuma ser entre 250 e 550 cm no período.

Além da falta de chuvas, a analista do WWF Brasil afirma que as ações humanas estão entre as principais causas para o agravamento do risco de incêndios florestais. Entre elas estão os próprios focos iniciais e queimadas, provocados de forma acidental ou intencionalmente criminosa, e o desmatamento, que deixa o solo mais vulnerável.

Em abril, o pecuarista Claudecy Oliveira Lemes foi multado em quase R$ 2,8 bilhões pelo “desmate químico” de uma área de mais de 80 mil hectares no pantanal —equivalente ao tamanho da cidade de Campinas (SP). As propriedades rurais dele ficam em Barão de Melgaço, no Mato Grosso, um dos municípios mais devastados do bioma.

O fazendeiro teria usado agrotóxicos, entre eles o 2,4-D, um componente do chamado “agente laranja” usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Ele é investigado para saber se usou dinheiro de empréstimo do Branco do Brasil, por meio a uma brecha na lei, para a prática criminosa.


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *