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Mato Grosso do Sul

Resiliência: Pantanal sul-mato-grossense se revela um gigante cheio de vida

Fazendas investigadas por início dos focos de incêndio são periciadas, afirma presidente do Ibama

Publicado em 18/07/2024 10:06 - Débora Ricalde (G1MS), Semana On – Edição Semana On

Divulgação Gov MS

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Apesar de ferido por incêndios na maior seca desde 1951, o Pantanal continua bem vivo, sendo abrigo de 4,7 mil espécies, entre elas 3,5 mil de plantas, 650 de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 de peixes de água doce. A estiagem atinge a maior planície alagável do mundo, uma área do tamanho de Bélgica, Países Baixos, Suíça e Dinamarca juntos.

A maior parte desse complexo fica em Mato Grosso do Sul, onde o olhar do repórter fotográfico Saul Schramm se deparou com vida abundante. Os flagrantes feitos em Corumbá revelam como estão animais como jacarés, veados, tuiuiús, tucanos e garças, parte deles em lugares onde o fogo não chegou.

Além da fauna e flora, o Pantanal tem gente, como os ribeirinhos, funcionários das fazendas e aqueles que vivem do turismo. De acordo com o vice-presidente da Acert (Associação Corumbaense das Empresas Regionais de Turismo), Ademilson Esquivel, o setor é responsável por 1.000 empregos diretos e R$ 45 milhões injetados por temporada só em folha de pagamento. São associados: 19 barcos hotéis, 2 barcos de passeio, 3 hotéis, 1 concessionária e 1 loja de equipamentos náuticos.

“O pessoal de fora acha que está tudo pegando fogo, o que não é a realidade. Eles não têm noção do tamanho do Pantanal, mas o turismo está trabalhando normalmente. Corumbá é um dos maiores municípios do País (em extensão territorial) e não tivemos desistência porque o nosso raio de ação é de 320 quilômetros de rio”, explica Ademilson.

Segundo o presidente da Fundtur-MS (Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul), Bruno Wendling, os incêndios chegaram a poucas áreas turísticas e o segmento não sentiu impacto. “Não há apontamento de prejuízo. Pode haver um ou outro cancelamento ou remanejamento localizado. O importante para nós é comunicar com clareza para o turismo como está a situação”, afirma. “Nas pousadas do Pantanal, especialmente nos municípios de Aquidauana e Miranda, onde são realizados os safáris, não há presença de fogo nem de fumaça”, acrescenta.

A recomendação é que operadores, agentes de viagens e turistas entrem em contato diretamente com as propriedades hoteleiras (pousadas, barcos hotéis e hotéis da região) antes de realizar qualquer mudança na programação das viagens. Corumbá é o 2º maior destino turístico de Mato Grosso do Sul, perdendo apenas para Bonito.

Incêndios

Cinco por cento do Pantanal foi consumido pelo fogo; 95% não. Mas no imaginário popular, criou-se a sensação de uma tragédia ainda maior, já que nem todos conhecem a imensidão do bioma. São cerca de 150 mil km², com 90 mil deles no Pantanal de Mato Grosso do Sul.

As imagens das chamas na planície rodaram o mundo em junho e vieram para assustar. Na ocasião, os focos estavam muito perto da área urbana de Corumbá. Quem passava pela BR-262, caminho obrigatório para quem vai por terra à chamada Capital do Pantanal, encontrava incêndios logo ao lado da pista.

Pior ainda foi a cena do tradicional Arraial do Banho de São João, do contraste da festa popular com um incêndio ao fundo, do outro lado do rio Paraguai, o que gerou diversas críticas. Na ocasião, a fumaça invadiu a cidade e percorreu enormes distâncias.

Sedento de água e repleto de material combustível, a maior área úmida do planeta secou e se tornou suscetível aos incêndios, que tomaram uma dimensão preocupante dada a importância do bioma.

Mas a chegada de uma frente fria e a ação rápida e efetiva dos bombeiros militares de Mato Grosso do Sul, com auxílio da Força Nacional, além de agentes do Ibama, ICMBio, fuzileiros navais, policiais militares e brigadistas do PrevFogo, controlaram o avanço dos incêndios e trouxeram alívio.

Pelo céu, veio ajuda, mas a água que caiu foram de aeronaves: das cinco Air Tractor (1 do Corpo de Bombeiros Militar de MS e outras 4 do ICMBio), dois helicópteros da CGPA (Coordenadoria Geral de Policiamento Aéreo), 1 helicóptero do Ibama, dois helicópteros “Pantera” e 1 helicóptero “Cougar”, do Exército Brasileiro, além do cargueiro KC390, da Força Aérea Brasileira.

Por terra, estão sendo empregados 4 caminhões de combate a incêndio e 16 caminhonetes do Corpo de Bombeiros Militar, 10 caminhonetes da Força Nacional, todas equipadas com kit pick-up, mochilas costais, sopradores e equipamentos de proteção individual.

Heróis anônimos

Na linha de frente de combate aos incêndios estão homens e mulheres que anonimamente atravessam o dia e a noite arriscando a vida em defesa do Pantanal. São pessoas como o soldado Gabriel Lobo de Oliveira, que passou dois dias combatendo um incêndio na região do Abobral, no Porto da Manga.

“No primeiro dia, fizemos todo o planejamento e combate, mas na madrugada, infelizmente, o incêndio pulou o aceiro e fizemos um novo planejamento para esse combate. Mesmo cansado, a gente aprende a não desistir. A vontade é de fazer acontecer, realizar nosso serviço e não deixar que essas coisas acabem com nosso treinamento. O sentimento que a gente tem é de resiliência. Mesmo que algo ruim aconteça, a gente tem que continuar. No incêndio florestal não é sempre que a gente ganha, a gente perde muito, mas o que faz a gente ganhar é não desistir e aplicar sempre os nossos conhecimentos”, contou o soldado Lobo.

“Sempre quando se consegue debelar incêndio, mesmo que seja cansativo, o sentimento que vem depois é imensurável. Dá até vontade de chorar, depois que tudo dá certo”, finaliza.

Fazendas Investigadas

Os 20 focos de incêndio que deram início ao fogo no Pantanal de Mato Grosso do Sul (MS) e Mato Grosso (MT) estão sendo periciados. A informação foi repassada pelo presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rodrigo Agostinho, na terça-feira (16), em Corumbá.

Junto de Agostinho, as ministras Simone Tebet e Marina Silva e o governador do estado, Eduardo Riedel (PSDB), estiveram na cidade que registrou recorde de incêndios florestais neste ano. Mais de 770 mil hectares foram consumidos pelo fogo em 2024 no Pantanal.

Conforme o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, todas as propriedades onde tiveram os primeiros focos de calor estão sendo visitadas e investigadas. Caso a caso, as propriedades rurais são periciadas com o objetivo de auxiliar na constatação se houve ou não crime.

“Estão sendo investigados caso a caso, avaliando todas as situações. A gente não vai pré-julgar ninguém e se for comprovado incêndio criminoso serão punidos”, finalizou Agostinho.

Reunidos em Corumbá, as autoridades informaram também que atualmente o bioma pantaneiro possui 24 focos ativos, sendo apenas dois desses foram do controle.

“Esse é um momento em que a gente pode até celebrar, mas é só uma celebração inicial. Nós vamos ter que manter nossas equipes mobilizadas, a nossa base, por isso o recurso extraordinário que foi aprovado de forma atempada. Nós sabemos que a partir do final da semana vai vir uma onda de calor, baixa umidade e risco de novo de termos incêndio, portanto Corpo de Bombeiros, Ibama e ICMBio, todos os parceiros, vamos nos manter mobilizados”, falou a Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, Marina Silva.

Área queimada

Segundo os dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA-UFRJ), de 1 de janeiro até o dia 14 de julho de 2024 foram registrados 3.940 focos de calor no Pantanal, sendo 79% em MS e 21% em MT.

Embora a última semana tenha registrado uma queda, as áreas queimadas são entre 3,9 e 5,15%. Dessas, 85% são privadas; 7,4% terras indígenas; 4,8% unidades de conservação federais, 1,4% unidades de conservação estaduais e 1,4% Reserva particular do patrimônio natural (RPPNs).


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