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Mato Grosso do Sul

Polícia investiga uso de IA para criar imagens íntimas falsas de alunas em Campo Grande

Levantamento identifica 173 vítimas de deepfakes sexuais em escolas pelo país

Publicado em 04/03/2026 9:09 - Semana On e Agência Brasil

Divulgação Lupa

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A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul investiga a produção e a venda de imagens íntimas manipuladas digitalmente envolvendo estudantes de uma escola particular de Campo Grande. Segundo relatos de vítimas, adolescentes teriam utilizado ferramentas de inteligência artificial para inserir o rosto de colegas em fotografias de nudez, criando montagens falsas que foram posteriormente compartilhadas e comercializadas em grupos de mensagens. É o que revelou extensa reportagem das jornalistasDébora Ricalde, Geisy Garnes e Rafaela Moreira, do g1 MS e da TV Morena.

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Pelo menos cinco alunas teriam sido alvo das manipulações. Uma das vítimas, de 15 anos, relatou à reportagem como descobriu que sua imagem havia sido utilizada em conteúdos falsificados digitalmente.

De acordo com a estudante, colegas teriam coletado fotos das meninas em redes sociais e utilizado aplicativos capazes de alterar imagens com o auxílio de inteligência artificial. As montagens, segundo as denúncias, eram oferecidas por cerca de R$ 50 a outros alunos.

“Uma amiga que também passou por isso recebeu um áudio dizendo que um desses meninos tinha pegado fotos nossas, colocado na inteligência artificial e criado um grupo com outros colegas para divulgar as imagens”, contou a adolescente.

Ao tomar conhecimento da situação, ela decidiu procurar um dos estudantes suspeitos. Segundo a jovem, ele admitiu ter participado da manipulação das imagens, embora não tenha apresentado uma justificativa para o ocorrido.

“Quando eu fiquei sabendo senti muita raiva. Quando fui falar com ele parecia que eu tinha perdido o chão. Perguntei por que ele tinha feito aquilo, mas ele não soube responder”, disse.

As identidades dos envolvidos não são divulgadas por se tratar de menores de idade.

Caso é investigado pela polícia

A investigação está a cargo da Delegacia Especializada de Atendimento à Infância e Juventude (Deaji). A delegada responsável pelo caso, Daniella Kades, explica que a prática pode ser enquadrada como ato infracional previsto no artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que trata da manipulação ou produção de material sexual envolvendo menores.

Segundo a delegada, a legislação também prevê responsabilização para todos os envolvidos na circulação do conteúdo.

“Quando há manipulação ou alteração de imagens com uso de inteligência artificial envolvendo menores, estamos diante de um ato infracional. O Estatuto prevê responsabilização para quem produz, divulga, armazena ou comercializa esse tipo de material”, explicou.

Como os suspeitos são menores de 18 anos, eles não respondem criminalmente com base no Código Penal. Nesses casos, a conduta é tratada como ato infracional, podendo resultar na aplicação de medidas socioeducativas previstas no ECA.

A polícia informou que já solicitou à escola a identificação formal dos estudantes envolvidos e segue reunindo provas para dar andamento à investigação.

De acordo com a delegada, este é o terceiro caso envolvendo manipulação de fotografias com uso de inteligência artificial registrado em ambiente escolar na capital sul-mato-grossense apenas neste início de ano letivo.

Venda das imagens

Segundo o relato da mãe de uma das vítimas, os estudantes teriam criado um grupo para oferecer acesso às montagens a outros colegas da escola.

“Eles começaram a comentar na escola sobre o grupo e cobravam para quem quisesse ver as imagens. Não foi só a minha filha que sofreu isso, outras meninas também foram vítimas”, afirmou.

Ao descobrir o ocorrido, a mãe procurou a escola e, em seguida, registrou boletim de ocorrência na polícia.

“Quando cheguei lá, um desses meninos estava conversando com a minha filha e assumiu que tinha pegado fotos dela e manipulado as imagens com inteligência artificial. A primeira atitude foi procurar a delegacia, porque isso precisa ser investigado”, relatou.

Impactos emocionais

A adolescente afirma que o episódio trouxe consequências emocionais significativas. Desde então, ela passou a fazer acompanhamento psicológico.

“Tem dias em que tento esquecer, mas às vezes me olho no espelho e me sinto invadida. Sei que o corpo não era o meu, mas o rosto era”, disse.

Segundo especialistas, episódios de exposição digital envolvendo adolescentes podem provocar sentimentos de vergonha, ansiedade e isolamento social, além de afetar o convívio escolar.

A jovem afirma que o apoio da família e de amigos tem sido fundamental para lidar com a situação.

“Minha mãe, minha família e meus amigos têm me ajudado bastante. Sem esse apoio seria muito mais difícil”, relatou.

O que é deepfake

A tecnologia conhecida como deepfake utiliza inteligência artificial para alterar vídeos ou fotografias, permitindo substituir rostos ou modificar conteúdos com alto grau de realismo.

Embora tenha aplicações legítimas em áreas como cinema, publicidade e entretenimento, o uso da tecnologia para manipular imagens íntimas sem consentimento tem se tornado uma preocupação crescente entre autoridades e especialistas em segurança digital.

A popularização de aplicativos capazes de realizar esse tipo de edição tem ampliado os desafios para escolas, famílias e órgãos de investigação.

Orientação às famílias

A Polícia Civil orienta pais e responsáveis a ficarem atentos ao uso das redes sociais por crianças e adolescentes. Em casos de violência digital, a recomendação é preservar provas — como capturas de tela, links e mensagens — e procurar imediatamente uma delegacia.

Segundo a delegada responsável pela investigação, esses registros são fundamentais para a apuração dos fatos, já que conteúdos podem ser apagados ou dispositivos descartados.

Para a adolescente que decidiu relatar o caso, a principal preocupação é que situações desse tipo não sejam tratadas como brincadeira.

“A nossa geração passa muito tempo na internet, mas precisa ter responsabilidade. O que aconteceu comigo é um crime e pode causar danos”, afirmou.

Levantamento identifica 173 vítimas de deepfakes sexuais em escolas

Mapeamento feito pela organização SaferNet Brasil identificou 173 vítimas de deepfakes sexuais em instituições de ensino públicas e privadas de dez estados brasileiros.

De acordo com a Safernet, as deepfakes sexuais são imagens ou vídeos de nudez criados com inteligência artificial (IA) generativa sem o consentimento das pessoas retratadas. A tecnologia é utilizada para manipular o rosto das vítimas em conteúdos falsos, o que configura violação de privacidade e da dignidade humana.

O relatório completo será lançado em março. O estudo começou a ser feito em 2023 com base em monitoramento de notícias e conta com recursos do fundo SafeOnline, gerido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). A organização mostra que as denúncias de crimes cibernéticos aumentaram 28% em 2025.

Perfil das vítimas

Segundo a pesquisadora da SaferNet Brasil Sofia Schuring, todas as vítimas identificadas são mulheres, incluindo alunas e professoras. O estado de São Paulo lidera o número de ocorrências, com 51 vítimas, seguido por Mato Grosso (30), Pernambuco (30) e Rio de Janeiro (20). O levantamento também identificou 60 autores dos crimes.

Central de Denúncias

Além do mapeamento por notícias, a SaferNet opera a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos. Desde 2023, o canal recebeu 264 links (URLs) relacionados a este tipo de crime.

“Analisamos 264 links reportados que podiam ter vínculo com o compartilhamento de deepfakes sexuais não consentidos e de materiais artificiais de abuso sexual infantil. Desses, 125 continham imagens reais de abuso sexual infantil”, afirmou Sofia Schuring.

A pesquisadora explicou que 8% do total das URLs continham conteúdo artificial de abuso e exploração sexual infantil. “Esses links hospedavam conteúdos, eram ferramentas de criação ou grupos de disseminação”, completou.

A central também registrou dez casos de deepfakes envolvendo adultos e 20 casos de vazamento de imagens íntimas reais (sem uso de IA).

Atuação criminosa

De acordo com a SaferNet, os grupos que compartilham esses conteúdos operam de forma organizada, fundamentados em três pilares: bots de notificação (que enviam alertas automatizados), plataformas de mensagens como o Telegram e fóruns na dark web.

“Eles se apoiam em falhas de governança tanto das plataformas quanto do nosso sistema de fiscalização desses conteúdos”, explicou Sofia.

Diante do cenário, a organização defende o banimento das ferramentas de notificação e a “asfixia financeira” dessas redes criminosas.

Como denunciar

Denúncias sobre crimes cibernéticos, como abuso sexual infantil e crimes de ódio, podem ser feitas de forma anônima pela Central Nacional de Denúncias da SaferNet Brasil.

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