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Mato Grosso do Sul
O advogado da família diz que Paulo teria ficado por pelo menos 10 dias à base de pão e água
Publicado em 22/07/2025 12:40 - Ranieri Costa – UOL
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A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam a morte de Paulo Amaro Freire, ex-membro da congregação das Testemunhas de Jeová, em Bataguassu (MS). Segundo a família, Paulo era diagnosticado com esquizofrenia e foi vítima de trabalho escravo, maus-tratos, privação de alimentação e medicação, além de intensa pressão psicológica. Ele cometeu suicídio em 19 de dezembro de 2023, aos 53 anos, dias após ter sido submetido, segundo os familiares, a mais de dez dias de trabalho forçado em uma fazenda pertencente a líderes religiosos da igreja.
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A declaração oficial da família foi registrada em cartório, por meio de uma ata notarial (documento público, lavrado por um tabelião de notas, que serve para comprovar a existência de um fato), e serviu como base para o MPF reabrir o caso, que anteriormente havia sido arquivado. O novo despacho foi emitido após petição de Enio Martins Murad, advogado da família, que apresentou novos elementos indicando que Paulo teria sido vítima das lideranças da congregação das Testemunhas de Jeová. O MPF determinou a remessa dos autos à Polícia Federal de Três Lagoas (MS).
“Após análise destes autos, entendo que é caso de reconsiderar a promoção de arquivamento”, diz o MPF no documento de 28 de maio, que também afirma a “abertura de investigação criminal para realização de diligências para melhor elucidação” do que foi informado pela defesa da família de Paulo Amaro Freire.
Procurado pela reportagem, o Ministério Público Federal informou que a investigação está em curso e, por isso, não comentará o caso neste momento.
A Polícia Federal confirmou que instaurou procedimento investigatório preliminar por requisição do MPF e que as diligências estão em andamento.
O UOL entrou em contato com as Testemunhas de Jeová por email nos dias 2 e 16 de julho e também por ligação telefônica. Além disso, foram feitas ligações para representantes da congregação nos dias 2 e 4 de julho. A congregação informou que responderia aos questionamentos, o que não ocorreu até o momento. Caso haja retorno, a matéria será atualizada.
‘Levaram ele para morrer’: o relato da família
Enio Martins Murad, advogado da família, afirma que Paulinho, como era conhecido, ingressou na congregação em 2017. Segundo ele, o homem era considerado ‘semi-imputável’ por uma junta médica oficial e estava sob a curatela da irmã. Ainda assim, era frequentemente buscado em casa por membros da igreja, muitas vezes de madrugada, e levado para realizar atividades pesadas em propriedades rurais e oficinas, sob a justificativa de que estaria ‘trabalhando para Jeová’.”
Em uma das últimas ocasiões, foi levado para a fazenda Avaré, localizada em Santa Rita do Pardo (MS), onde teria permanecido por mais de dez dias sem tomar medicação, realizando atividades físicas intensas e se alimentando apenas de pão e água. Ao voltar para casa, segundo a família, Paulo apresentava sinais de desnutrição, confusão mental e havia perdido treze quilos.
“Eles colocavam Paulo para fazer serviços que ele nunca tinha feito, por exemplo, fazer cerca, cavar terra no sol quente”, disse a família na ata notarial enviada ao MPF. No documento, a família afirmou ainda que, a cada vez que Paulo voltava da fazenda, estava sempre mais fraco. “Sua voz era um sussurro. Foram assim seus últimos dias. Enfraquecido.”
De acordo com os familiares, a liderança da igreja se aproveitava da doença de Paulo para explorá-lo. Também na ata notarial, relataram que tentaram contato com os líderes diversas vezes, mas eram ignorados. Segundo a família, nos trabalhos forçados na fazenda, Paulo dizia que sua alimentação era apenas “pão e água”. No mesmo documento, afirmam que “outros fatos provocaram o seu enfraquecimento físico e mental, como alucinações e devaneios logo após ter sido entregue à sua família, e exatamente nesse interim ele praticou o suicídio, tomado por perturbações de tais explorações praticadas por membros da seita.”
Horas após uma visita de anciãos da igreja à casa de Paulo — ocasião em que algo teria sido dito a ele sobre sua expulsão da congregação —, ele cometeu suicídio. O conteúdo daquela conversa nunca foi esclarecido à família.
De acordo com o advogado da família, “sobre os trabalhos forçados e a má condição de alimentação, existem testemunhos sobre os fatos que estão sendo ouvidos neste momento pela Polícia Federal”.
A irmã curadora, Maria de Fátima Freire, afirmou na ata notarial que procurou repetidamente os líderes da igreja e a delegacia de polícia de Bataguassu antes da morte, denunciando o que classificou como “exploração de pessoa incapaz”. No entanto, segundo ela, as autoridades locais não registraram boletim de ocorrência e não deram seguimento à denúncia.
Diagnóstico ignorado
Paulo havia sido diagnosticado com esquizofrenia ainda na juventude. Ao longo da vida, passou por tratamentos, internações em clínicas psiquiátricas e acompanhamento médico. Foi declarado incapaz para o trabalho por junta médica oficial e recebia aposentadoria por invalidez.
Apesar disso, a família afirma que os líderes religiosos ignoravam os laudos e se aproveitavam do fato de que, mesmo com a doença, Paulo possuía habilidades técnicas, como soldagem e mecânica.
“Ele estava sempre pronto a ajudar. Mas nada que o cansasse ou o estressasse, pois assim orientou o psiquiatra”, consta no relato da ata notarial. “Claramente eles subestimavam o laudo de Paulo, ignorando que lidavam com uma pessoa doente.”
“Nos últimos dias de Paulo, ele manifestava um comportamento estranho. Ele dizia constantemente: ‘Eu estou errado, eu errei’, e coisas semelhantes”, relatou a família.
O advogado afirma também que, no caso da fazenda Avaré, Paulo “chegou a passar mais de dez dias proibido de tomar sua medicação pelos líderes da igreja”.
Desassociação e alienação religiosa
Para a família, o que acelerou a tragédia foi o isolamento promovido pela doutrina após a exclusão. Segundo o advogado, essa prática — comum na estrutura das Testemunhas de Jeová — torna o ex-membro alvo de rejeição e hostilidade por parte da comunidade religiosa e até de familiares que seguem a fé.
“Essa desassociação foi o empurrão final ao suicídio. Afinal, Paulo supostamente estaria sem medicação, desnutrido, emocionalmente abalado e ainda foi isolado por quem ele considerava irmãos de fé. A família acredita que foi um processo de alienação mental e parental”, diz Enio Martins Murad, advogado da família.
A ata notarial também revela que Paulo havia registrado, sem o conhecimento da curadora legal, um documento em cartório nomeando um dos anciãos da igreja como procurador, com a finalidade de impedir transfusão de sangue em caso de emergência médica — prática alinhada às doutrinas da congregação.
A família de Paulo ainda não ingressou com ação cível. “O objetivo da família, agora, é que os responsáveis sejam punidos [na esfera criminal] e que a sociedade fique sabendo exatamente o que é a seita de Testemunha de Jeová”, afirmou.
Procure ajuda
Caso você tenha pensamentos suicidas, procure ajuda especializada como o CVV (www.cvv.org.br) e os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) da sua cidade.
O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por email https://cvv.org.br/e-mail/, chat (https://cvv.org.br/chat/) e pessoalmente (https://cvv.org.br/postos-de-atendimento/). São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.
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