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Mato Grosso do Sul
Para preservar fauna do Pantanal, grupo técnico atua em ações de fuga e aporte nutricional dos animais
Publicado em 25/07/2024 2:34 - G1MS, Semana On – Edição Semana On
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O Pantanal bateu a marca de 800 mil hectares queimados pelo fogo neste ano. O número da área destruída é o equivalente a 800 mil campos de futebol, segundo levantamento do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LASA-UFRJ).
Foram 802.875 hectares queimados no Pantanal de 1º de janeiro a 23 de julho de 2024. Se comparado com o mesmo período do ano passado, quando 32 mil hectares foram queimados, o número de 2024 é 2.362% maior.
As queimadas no Pantanal em 2024 também superaram o ano recorde de queimadas no bioma, segundo a série histórica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Em 2020, de janeiro a julho, foram destruídos 395.075 hectares. Se comparados os dois períodos, o aumento em 2024 é de 103%.
O fogo é esperado anualmente no Pantanal, entre o fim de julho e o mês de agosto. Entretanto, os eventos climáticos extremos, seca severa e a ação humana fizeram com que a temporada das chamas fosse antecipada neste ano, começando ainda em junho.
Seca e calor ainda são preocupações
Conforme previsão da Climatempo, os próximos meses devem ser mais secos e de muito calor em boa parte do Brasil. Um forte bloqueio atmosférico vem desviando frentes frias para alto mar, o que mantém uma grande massa de ar seco sobre a região Centro-Oeste, onde fica o Pantanal.
Com a alta temperatura e baixa umidade, o cenário fica muito mais propício ao fogo no bioma. Após duas semanas de frio, baixas temperaturas e zerar os focos de incêndio na região pantaneira, as chamas voltaram ao bioma por causa das condições climáticas no início desta semana.
O presidente do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), Angelo Rabelo, vê com preocupação as previsões para os próximos meses. “As previsões sugerem um cenário muito preocupante. O período mais seco ainda está por vir, conforme o histórico que temos. É por isso que não é o momento de desmobilização. O cenário preocupante segue até o final do ano”.
“Esses incêndios que voltaram agora estavam previstos. Sabíamos que, após a frente fria, a reignição aconteceria. […] As condições estão muito críticas, inclusive até piores do que 2020, para queimar. O que vai fazer diferença esse ano é essa resposta rápida do poder público e da sociedade civil a esses incêndios”, explica Gustavo Figueirôa, biólogo e representante da ONG SOS Pantanal.
No fim de junho, o Lasa alertou sobre o cenário de seca histórico no bioma. A região do Pantanal está sob regime de “seca persistente de intensidade extrema a moderada pelo menos nos últimos 12 meses”. Os fatores que contribuem para as condições críticas do Pantanal são:
– Aumento expressivo das temperaturas;
– Menos contraste entre o período seco e chuvoso na região.
Além do calor, umidade baixa e seca, o fogo subterrâneo também é uma preocupação dos brigadistas. Chamada de turfa, a matéria orgânica é resultante da decomposição da vegetação que se acumula no solo e pode alcançar vários metros de profundidade, tornando-se altamente inflamável.
Frente às diversas preocupações, o biólogo da SOS Pantanal afirma que a resposta rápida contra o fogo é a melhor forma de controle aos incêndios. “É importante essa mobilização que continua no Pantanal, de brigadistas. Essa mobilização tem que oferecer uma resposta rápida aos focos. É difícil evitar focos novos, isso depende muito das pessoas, mas a melhor estratégia é responder rápido a esses focos”.
“É muito importante que essa mobilização continue para evitar um desastre como o que a gente viu em 2020”, destaca Gustavo Figueirôa.
Perdas de fauna e flora
Os incêndios que atingem o Pantanal há mais de 100 dias fizeram com que o bioma se tornasse um grande cemitério a céu aberto. De acordo com o Grupo de Resgate Técnico Animal Cerrado Pantanal (Gretap), cobras, jacarés e anfíbios são a maioria entre os animais encontrados mortos pelo fogo.
A médica veterinária e bióloga Paula Helena Santa Rita está em Corumbá (MS), cidade com maior número de focos de incêndio do Brasil, e relata que muitos animais morreram incinerados ou por hipertermia devido aos incêndios florestais.
“Os animais que mais encontramos mortos foram répteis, como serpentes e jacarés, e anfíbios de forma geral, incinerados ou mortos por hipertermia. Notamos que animais tentam fugir, mas o extremo de temperatura causa a morte”.
Gustavo Figueirôa explica que muitas áreas queimadas neste ano já sofreram com o fogo em outros períodos. Isso faz com que a fauna e flora do bioma não se recomponham das maneiras adequadas.
“Perde-se muita biodiversidade, o que sobrou de biodiversidade lá. O que está tentando se recuperar, sofre mais uma vez com os impactos. Perdemos espécies da fauna, espécies da flora, que são super importantes. Estão perdendo a capacidade de procriar, de habitar esse ambiente que está sendo impactado pelo fogo ano após ano”.
O fogo deste ano consumiu um pouco mais de 5% do bioma. Angelo Rabelo, representante do IHP, reforça a necessidade da rápida resposta contra o fogo e a concentração de esforços dos brigadistas para oferecer agilidade aos combates. “Um grande problema é a perda do habitat, ameaça para diversas espécies, e um impacto transversal potencial para atividades socioeconômicas, devido ao ecoturismo”, explicou Rabelo.
Um estudo feito pelo IHP mostrou os impactos dos incêndios de 2020 na fauna do Pantanal. “Os incêndios de 2020 reduziram mais de 82% a ocupação do tatu-canastra, que é conhecido como o ‘engenheiro do ecossistema’ e ajuda a criar áreas de proteção para mais de duas dezenas de outras espécies com suas escavações. também houve impacto de 23,35% na redução do habitat das queixadas. A anta, espécie que regula a diversidade de plantas em uma região, sofreu redução de quase 10%”, detalhou o representante do IHP.
Brigadistas do PrevFogo, Corpo de Bombeiros, Exército e militares enviados pela Força Nacional atuam no combate às chamas no Pantanal.
São mais de 500 profissionais, e 11 aeronaves usadas no combate ao fogo, incluindo Air Tractors, helicópteros e o cargueiro KC-390. A estrutura ainda conta com 39 veículos, entre caminhonetes, caminhões e lanchas.
Ao todo, 12 cidades de Mato Grosso do Sul seguem em situação de emergência, após decreto do governo estadual. Veja quais são os municípios na lista abaixo:
Para preservar fauna do Pantanal, grupo técnico atua em ações de fuga e aporte nutricional dos animais
As ações de combate aos incêndios florestais no Pantanal, iniciadas em abril deste ano em Mato Grosso do Sul, envolvem mais de 1 mil bombeiros e outros militares, além de brigadistas, e ganha reforço constante de estados parceiros.
E além da atuação no controle e extinção do fogo, é realizado o trabalho para garantir a sobrevivência da fauna, por meio dos voluntários do Gretap (Grupo de Resgate Técnico Animal Cerrado Pantanal) que fazem ações específicas para o afugentamento dos animais de locais de risco e também o aporte nutricional em diferentes áreas atingidas pelas chamas.
“Essa é uma das nossas agendas prioritárias. O Gretap foi criado em 2020 em decorrência dos grandes incêndios florestais. E hoje a atuação acontece em duas grandes frentes, uma delas é o aporte nutricional e o afugentamento de fauna”, explicou o secretário-executivo de Meio Ambiente da Semadesc (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Arthur Falcette.
Para garantir a fuga dos animais para áreas seguras a equipe acompanha a progressão do fogo e cria rotas de saída. O trabalho é potencializado com o uso dos aceiros, que são faixas sem vegetação, confeccionados de forma preventiva – e também para confinar e isolar os incêndios –, inclusive pelos fazendeiros.
“É importante ressaltar a importância dos aceiros, que são feitos tanto pelo Corpo de Bombeiros, e também pelos proprietários rurais. Eles são grandes corredores que permitem que essa fauna escape, conforme o grupo vai aplicando a técnica de afugentamento”, explicou Falcette.
Além disso, em locais já atingidos pelas chamas, é realizado o aporte nutricional base. “O fogo consome toda a biomassa que existem ali e aí os animais acabam ficando com a alimentação prejudicada. Então o Gretap faz esse aporte nutricional básico para que esses animais possam continuar se alimentando até que essas áreas se regenerem e toda a dinâmica do ecossistema retorne. O que ‘aporte nutricional básico’ é muito diferente de ceva de fauna silvestre. É realizado em regiões atingidas pelo fogo, onde esses animais não têm alimento disponível, então a gente disponibiliza e monitora. A ceva de animais silvestres é crime ambiental, e não deve ser realizada. O Gretap é o único grupo oficial, criado por decreto, do Governo do Estado e também de terceiro setor, que aplica essas técnicas e faz este trabalho”, afirmou o secretário-executivo.
Após a realização do aporte, os animais são monitorados pelo grupo. Em uma ação de monitoramento foram observados cervos pantaneiros, aves e roedores que se alimentaram nos locais destinados para o atendimento da fauna.
Emergência
Os municípios de Aquidauana, Bodoquena, Bonito, Corumbá, Coxim, Deodápolis, Douradina, Dourados, Naviraí, Nioque, Porto Murtinho e Sidrolândia tiveram situação emergência decretada e reconhecida pela União, em relação aos incêndios florestais.
Na semana passada, o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, recebeu – pela segunda vez em menos de 30 dias – em Corumbá, a comitiva ministerial formada pelas ministras Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) e pelo ministro Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional), para acompanhar os trabalhos de combate aos incêndios florestais no Pantanal.
Também foi oficializado a entrega de mais recursos, de aproximadamente R$ 137,6 milhões, para manutenção dos trabalhos que podem se estender até outubro devido a temporada de forte calor e seca severa, prevista para durar todo este período no Estado, em especial na região pantaneira. Os recursos se somam aos R$ 50 milhões já aplicados pelo Governo do Estado de Mato Grosso do Sul no combate aos incêndios.
Previsão
No boletim semanal da Operação Pantanal divulgado hoje (25), durante transmissão ao vivo pela internet (clique aqui e saiba mais) foram atualizados os dados sobre o combate ao fogo, com ações concentradas na região da Nhecolândia, onde um caminhão de transporte de gado atolado pegou fogo e as chamas se propagaram.
Também foi divulgada a previsão do tempo, que segue com altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar e sem previsão de chuva. A partir desta quinta-feira até domingo (28), o tempo segue firme com sol e poucas nuvens, as temperaturas seguem estáveis e acima da média – com máximas entre 34°C e 37°C e mínima entre 21°C e 23°C –, e umidade entre 10% a 30%.
“Ontem, Corumbá registrou 14% de unidade. Então todas essas condições previstas são favoráveis para a ocorrência de incêndios florestais. O perigo de fogo, de acordo com o mapa da Lasa, está entre muito alto e extremo sendo os seus piores dias entre 27 a 28 de julho”, explicou a meteorologista Valesca Fernandes, do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima).
Em relação a previsão nos próximos dias, entre segunda e terça-feira, dias 29 e 30 de julho, há previsão de avanço em uma frente fria, que deve favorecer o aumento de nebulosidade e provocar uma leve queda nas temperaturas. Mesmo assim existe probabilidade de chuvas apenas para a região de Porto Murtinho, e as temperaturas devem ficar um pouco mais amenas, com máximas entre 27°C e 33°C.
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