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Mato Grosso do Sul

MS vira centro logístico do PCC com fachada empresarial e rota de tráfico

Iguatemi, Dourados e Campo Grande estão no centro de operação contra o crime organizado

Publicado em 03/09/2025 9:00 - Semana On

Divulgação Gov MS

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Mato Grosso do Sul tornou-se uma das principais bases operacionais do Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo investigações da Polícia Federal (PF) e do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). A estrutura montada pela facção no estado inclui lavagem de dinheiro em escala industrial, fachada empresarial no setor de combustíveis e uso estratégico de rotas logísticas ligadas ao tráfico internacional. Os dados constam na maior operação já realizada contra o crime organizado no Brasil, revelando um sistema que movimentou mais de R$ 8 bilhões nos últimos anos.

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A presença do PCC no estado se consolidou entre 2020 e 2021, com foco em cidades-chave como Campo Grande, Iguatemi e Dourados. Em Campo Grande, bairros nobres abrigaram a estrutura de lavagem de dinheiro da facção, conectada diretamente às operações em Iguatemi — onde oito empresas do setor de combustíveis funcionavam em um único endereço, com capital social estimado em R$ 36 milhões. Dourados, por sua vez, apareceu em rotas fiscais fraudulentas de transporte de metanol, usado na adulteração de combustíveis.

A rede de empresas incluía distribuidoras como Safra Distribuidora de Petróleo S.A., presidida por Armando Hussein Ali Mourad, irmão de Mohamad Houssein Mourad, um dos chefes da organização ao lado de Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Loko. As investigações revelam conexões com empresas situadas em endereços centrais da capital sul-mato-grossense, como a Copape Produtos de Petróleo Ltda., a Gasp Participações e Investimentos S.A. e a Control Participações Ltda., com vínculos diretos às operações em Iguatemi.

No mesmo endereço em Iguatemi operavam ainda outras sete empresas — todas com capital padronizado e abertura simultânea — o que levou a PF a identificar um “condomínio de distribuidoras” usado para mascarar transações financeiras e movimentar grandes volumes de combustíveis adulterados. Entre elas, a Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool Ltda., dirigida por Daniel Dias Lopes, traficante foragido e incluído na lista da Interpol, aparece como elo entre o tráfico internacional e o braço de lavagem do dinheiro ilícito. Ele também é citado como sócio oculto da Arka Distribuidora, outra integrante do esquema.

As conexões ilícitas se estendem a agentes públicos. Um deles é o policial civil João Chaves Melchior, preso em Paulínia (SP) na última semana e apontado como provável dono de um imóvel rural em Iguatemi usado para ocultação de bens e lavagem de ativos. Mesmo agraciado com moção de congratulações pela Câmara de Paulínia, Melchior já era alvo de processo disciplinar aberto pela Corregedoria da Polícia Civil de Campinas. Os investigadores o colocam como peça estratégica na engrenagem que conecta São Paulo a Mato Grosso do Sul.

As rotas do crime não se limitam à fronteira. Decisão da Justiça de São Paulo detalha o uso da cidade de Dourados como parte da logística fraudulenta de transporte de metanol, produto químico utilizado legalmente em até 0,5% da gasolina, mas que era adicionado em até 50% nos combustíveis adulterados. A carga saía do porto de Paranaguá (PR) com destino fictício a Primavera do Leste (MT), passando por rotas que incluíam Dourados, mas, na prática, era desviada para postos clandestinos em São Paulo, como o Auto Posto Bixiga, no bairro Bela Vista.

As fraudes contavam com notas fiscais frias e culminaram no desvio de mais de 10 milhões de litros de metanol, com lucro revertido à organização criminosa por meio de instituições de pagamento e fintechs de fachada na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Iguatemi, pela proximidade com o Paraguai, cumpre papel central nessa cadeia como entreposto logístico, reforçando o que a PF classifica como um ciclo completo: produção e envio da cocaína para Europa e Estados Unidos, movimentação por empresas de fachada e posterior lavagem em setores da economia formal.

Apesar da dimensão do esquema, ainda não houve operações policiais diretas em Mato Grosso do Sul relacionadas à ação desencadeada em São Paulo, embora os documentos judiciais deixem claro o papel das cidades sul-mato-grossenses na estrutura da facção. A avaliação interna de autoridades federais e estaduais é que será inevitável expandir o raio de ação da investigação, diante da infiltração do PCC em setores estratégicos da economia e da administração pública.

Paralelamente, o Departamento de Operações de Fronteira (DOF), vinculado à Polícia Militar de MS, registra um aumento expressivo nas apreensões de drogas no estado. De janeiro a agosto de 2025, foram 141 toneladas de entorpecentes apreendidas — crescimento de 62% em relação ao mesmo período de 2024. A maior parte é maconha oriunda do Paraguai.

“Os bons resultados alcançados até agora são reflexo da integração do DOF com as demais forças de segurança pública na região de fronteira”, afirmou o tenente-coronel Wilmar Fernandes, diretor do departamento. Segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), MS já retirou de circulação quase 350 toneladas de drogas em 2025, consolidando-se como o estado que mais apreende entorpecentes no Brasil.

A maior ação individual ocorreu em 28 de agosto, na rodovia MS-386, quando o DOF apreendeu uma carreta com 15,3 toneladas de maconha camufladas em uma carga de milho. O motorista, preso em flagrante, confessou que receberia R$ 50 mil para levar a droga ao interior de Santa Catarina.

O volume crescente de apreensões confirma o papel geográfico de Mato Grosso do Sul como corredor preferencial do tráfico internacional, mas a revelação da estrutura empresarial do PCC no estado amplia o entendimento sobre a sofisticação das redes criminosas. A facção já não atua apenas na sombra: infiltra-se na economia formal com métodos empresariais, investe na corrupção sistêmica e monta redes de fachada com aparência de legalidade.

A operação da PF e do Gaeco não apenas expõe a complexidade da atuação do PCC, mas lança um alerta: combater o crime organizado exige mais do que prender traficantes e apreender drogas. É preciso desmantelar os mecanismos de poder e influência que sustentam o crime dentro das instituições e do mercado formal.

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