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Mato Grosso do Sul

MS tem 3ª maior taxa de feminicídio do país

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta 181 assassinatos de mulheres em cinco anos

Publicado em 05/03/2026 11:33 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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Mato Grosso do Sul figura entre os estados mais violentos do país para mulheres. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que o estado registrou 181 feminicídios entre 2021 e 2025, mantendo-se de forma constante entre os cinco piores indicadores nacionais durante todo o período analisado. Com 2,7 assassinatos por 100 mil mulheres, MS ocupa a terceira maior taxa do Brasil, atrás apenas de Acre e Rondônia.

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Os dados fazem parte do relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, divulgado nesta semana pelo FBSP. O estudo indica que 2022 foi o ano mais violento da série, com 44 mulheres assassinadas em crimes motivados por gênero no estado.

A persistência das taxas elevadas reforça um padrão preocupante. Mesmo com avanços legislativos e maior visibilidade pública do tema, Mato Grosso do Sul segue figurando entre os estados mais críticos do país quando o assunto é violência letal contra mulheres.

Violência dentro de casa

A análise do relatório revela que a maior parte dos feminicídios ocorre dentro do ambiente doméstico, frequentemente cometida por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. Trata-se de um padrão recorrente em todo o país.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o feminicídio é a etapa final de ciclos prolongados de violência doméstica. A socióloga Juliana Martins, pesquisadora do tema no próprio FBSP, afirma que esses crimes raramente surgem de forma isolada.

“O feminicídio normalmente é o desfecho de uma trajetória de violência. Antes do assassinato, muitas mulheres já passaram por agressões físicas, psicológicas e ameaças”, aponta o relatório Retrato dos Feminicídios no Brasil.

A definição jurídica do crime no Brasil passou a existir em 2015, quando a Lei nº 13.104 incluiu o feminicídio no Código Penal como circunstância qualificadora do homicídio. Desde então, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas por razões relacionadas ao gênero no país, segundo o levantamento.

Crescimento recente preocupa

Nos últimos anos, os registros em Mato Grosso do Sul voltaram a crescer. Somente em 2025 foram contabilizados 39 feminicídios, número superior ao do ano anterior. A taxa chegou a 2,6 mortes por 100 mil mulheres, uma das mais altas do país.

Considerando os últimos cinco anos, os casos aumentaram mais de 14% no estado.

Para pesquisadores da área de segurança pública, o aumento revela falhas na capacidade de interromper ciclos de violência antes que se tornem fatais. O estudo aponta que diversas vítimas haviam procurado ajuda anteriormente, solicitado medidas protetivas ou denunciado os agressores.

A criminóloga Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), observa que a existência de leis não é suficiente sem políticas eficazes de prevenção.

“A legislação brasileira é considerada avançada, mas o grande desafio está na implementação e na capacidade do Estado de proteger efetivamente as mulheres em situação de risco”, afirma Ramos em entrevista ao relatório Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil.

Órfãos da violência

Além das vítimas diretas, os feminicídios deixam uma marca profunda nas famílias. Dados do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) mostram que dezenas de crianças e adolescentes ficaram órfãos após os crimes.

Os números revelam a dimensão social do problema:

2024: 24 crianças, 14 adolescentes e 33 maiores de 18 anos — 71 órfãos

2025: 29 crianças, 12 adolescentes e 33 maiores de 18 anos — 74 órfãos

2026: 2 órfãos maiores de 18 anos

Pela legislação brasileira, condenados por feminicídio perdem automaticamente o poder familiar sobre os filhos, conforme prevê o artigo 92 do Código Penal.

Outra medida recente foi estabelecida pela Lei nº 14.713/2023, que proíbe a guarda compartilhada quando há risco de violência doméstica ou familiar.

Quando não existem familiares aptos a assumir a responsabilidade pelas crianças, o Conselho Tutelar pode determinar o acolhimento institucional temporário, até que seja possível a reintegração familiar ou encaminhamento para uma nova família.

Suspeitos foragidos

A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (PCMS) informou que dois homens são considerados foragidos da Justiça por crimes relacionados à violência contra mulheres:

Flávio Saad, 51 anos, procurado por feminicídio

Marcelo Vitor Ferreira da Costa, 39 anos, procurado por tentativa de feminicídio

Informações sobre o paradeiro dos suspeitos podem ser repassadas pelo telefone (67) 9 9219-4380, com garantia de sigilo.

Assédio no trabalho também cresce

A violência de gênero no estado também se manifesta em ambientes profissionais. Dados divulgados pelo Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região (TRT-MS) apontam aumento significativo nas ações judiciais envolvendo assédio.

Em 2025, foram registradas 125 novas ações de assédio sexual no trabalho, contra 75 em 2024 — um crescimento de 66,7%.

Os casos de assédio moral também cresceram de forma expressiva:

2024: 799 processos

2025: 1.116 ações — aumento de 40%.

O cenário acompanha a tendência nacional. Em todo o país, 12.813 novas ações por assédio sexual foram registradas em 2025, alta de 40% em relação ao ano anterior. Já as ações por assédio moral somaram 142.828 processos, crescimento de 22%.

O assédio sexual no trabalho é crime, tipificado no artigo 216-A do Código Penal, e pode envolver condutas verbais, gestos ou contatos físicos com conotação sexual praticados contra a vontade da vítima, criando ambiente intimidatório, hostil ou humilhante.

Prevenção ainda é desafio

Para especialistas, o crescimento dos registros pode indicar tanto aumento real das ocorrências quanto maior disposição das vítimas em denunciar.

A Justiça do Trabalho passou a adotar medidas preventivas, como a publicação do “Guia para Prevenir e Enfrentar o Assédio, a Violência e a Discriminação”, elaborado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) e pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT).

Entre as recomendações estão:

– realização de palestras e cursos sobre violência e assédio

– promoção de ambientes de trabalho baseados no respeito e na diversidade

– criação de políticas institucionais de prevenção e enfrentamento.

Mesmo assim, especialistas alertam que a violência de gênero — seja doméstica ou no ambiente profissional — ainda enfrenta barreiras estruturais.

Como observa a filósofa Judith Butler, uma das principais teóricas contemporâneas sobre violência de gênero: “A violência contra as mulheres não é um fenômeno isolado, mas parte de estruturas sociais que naturalizam desigualdades e vulnerabilidades”.

Como denunciar

Violência contra a mulher é crime e pode ser denunciada de forma segura e sigilosa.

Emergência: 190

Central de Atendimento à Mulher: 180 (24h)

WhatsApp nacional: (61) 9610-0180

WhatsApp em MS: (67) 99180-0542

Denunciar é uma das principais ferramentas para interromper ciclos de violência e evitar que eles terminem em tragédia.

Programa MS Supera está com inscrições abertas até o dia 11


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