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Mato Grosso do Sul
Fronteiras internacionais transformam o Estado em uma das principais portas de entrada de trabalhadores estrangeiros submetidos à exploração
Publicado em 08/06/2026 9:24 - Semana On
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A condição fronteiriça de Mato Grosso do Sul consolidou o Estado como uma das principais rotas de entrada de trabalhadores migrantes que acabam submetidos a condições análogas à escravidão no Brasil. Dados analisados pela organização Repórter Brasil, com base em informações do Ministério Público do Trabalho (MPT), revelam que, entre 2010 e 2024, o Estado registrou o segundo maior número de trabalhadores estrangeiros resgatados dessa situação no país.
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Foram 143 migrantes libertados de condições de exploração laboral no período, número inferior apenas ao de São Paulo, que contabilizou 548 resgates. Todos os trabalhadores estrangeiros identificados em Mato Grosso do Sul eram homens oriundos do Paraguai. Do total, 61% se autodeclararam pardos, enquanto os principais setores econômicos envolvidos nos casos foram a pecuária, responsável por 39% dos registros, e as atividades agrícolas, que concentraram outros 32%.
Os números reforçam o papel estratégico do Estado na dinâmica migratória regional. Localizado em uma extensa faixa de fronteira com Paraguai e Bolívia, Mato Grosso do Sul se tornou um dos principais pontos de passagem para trabalhadores que chegam ao Brasil em busca de oportunidades de emprego, mas que, em muitos casos, acabam expostos a condições degradantes de trabalho.
A relevância do problema também aparece na série histórica nacional. Entre 1995 e 2024, Mato Grosso do Sul ocupou a sétima posição entre os estados brasileiros com maior incidência de trabalho escravo contemporâneo. Nesse intervalo, foram registrados 126 flagrantes e resgatados 3.243 trabalhadores, volume equivalente a cerca de 5% de todos os resgates realizados no país.
A exploração esteve fortemente associada às atividades rurais. Aproximadamente 65% dos trabalhadores resgatados no Estado atuavam no cultivo de cana-de-açúcar, setor que historicamente concentra ocorrências relacionadas à violação de direitos trabalhistas.
Lista de empresas que se utilizam da mão de obra escrava.
Indígenas representam quase metade das vítimas resgatadas
O perfil social dos trabalhadores libertados evidencia um cenário de elevada vulnerabilidade. Dados referentes ao período entre 2003 e 2025 mostram que 47% dos resgatados em Mato Grosso do Sul eram indígenas.
A análise também aponta fatores que ampliam os riscos de exploração. Mais de um terço dessas vítimas tinha até 24 anos de idade e quase metade era analfabeta, combinação que evidencia barreiras de acesso à informação, oportunidades de trabalho formal e mecanismos de proteção social.
O trabalho escravo contemporâneo no Estado afeta principalmente populações vulneráveis, entre elas comunidades indígenas e trabalhadores migrantes paraguaios, frequentemente atraídos por promessas de emprego no campo e em atividades ligadas ao agronegócio.
Corumbá lidera ranking nacional de portas de entrada para migrantes explorados
A importância de Mato Grosso do Sul nas rotas migratórias associadas ao trabalho escravo também aparece nos dados do SmartLab Trabalho Escravo, plataforma desenvolvida pelo Ministério Público do Trabalho e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) Brasil, em parceria com órgãos federais.
Entre 2003 e 2022, Corumbá apareceu como o principal município brasileiro de ingresso de trabalhadores estrangeiros posteriormente identificados em condições análogas à escravidão. A cidade, localizada na fronteira com a Bolívia, respondeu por 29,1% dos registros nacionais.
Outra cidade sul-mato-grossense também figura entre os principais pontos de entrada. Ponta Porã, situada na fronteira seca com o Paraguai e integrada a Pedro Juan Caballero, ocupou a quinta posição nacional, concentrando 8,25% dos casos registrados.
À frente de Ponta Porã aparecem apenas Epitaciolândia, no Acre, com 14,6%; Pacaraima, em Roraima, com 12,1%; e Foz do Iguaçu, no Paraná, com 9,47%.
Segundo o observatório, o fluxo predominante em Corumbá envolve trabalhadores bolivianos que seguem principalmente para São Paulo e municípios do interior paulista. Já em Ponta Porã, a rota mais frequente é formada por paraguaios que atravessam a fronteira rumo a cidades do interior sul-mato-grossense, com destaque para Bela Vista.
Os dados demonstram como a localização geográfica de Mato Grosso do Sul o transformou em corredor estratégico para migrações internacionais, criando condições que podem ser exploradas por redes de aliciamento de mão de obra.
Mais de 3,2 mil trabalhadores foram resgatados no Estado
Os registros do SmartLab apontam que, entre 2003 e 2022, Mato Grosso do Sul contabilizou 3.215 trabalhadores resgatados em situações caracterizadas como trabalho escravo contemporâneo.
Brasilândia lidera o ranking estadual de resgates, com 1.011 trabalhadores libertados no período. Em seguida aparecem Iguatemi, com 668 casos, e Naviraí, com 413.
Quando considerada a série histórica ampliada, entre 1995 e 2024, o número total de trabalhadores resgatados chega a 3.243, consolidando Mato Grosso do Sul entre os estados com maior incidência desse tipo de crime no país.
Em âmbito nacional, o SmartLab registra 65,5 mil pessoas libertadas de condições análogas à escravidão entre 1995 e 2024.
Formação busca ampliar combate ao trabalho escravo em Mato Grosso do Sul
Diante desse cenário, a organização Repórter Brasil iniciou uma nova edição do programa Escravo, nem pensar! em Mato Grosso do Sul, voltada à capacitação de profissionais da Assistência Social para prevenção e enfrentamento do trabalho escravo.
A iniciativa será desenvolvida em 19 municípios do Estado e tem como objetivo qualificar servidores e equipes técnicas para identificar indícios de exploração laboral, encaminhar denúncias e fortalecer redes locais de proteção.
O projeto é realizado em parceria com a Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos de Mato Grosso do Sul (SEAD-MS), com apoio do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso do Sul (MPT-MS), da Comissão Estadual para a Erradicação do Trabalho Escravo de Mato Grosso do Sul (Coetrae-MS) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
A formação contempla três módulos destinados a profissionais das secretarias municipais responsáveis pelo Sistema Único de Assistência Social (SUAS), além de equipes que atuam em unidades como Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e centros de acolhimento.
O primeiro encontro ocorreu presencialmente em Campo Grande, em 6 de maio de 2025, reunindo 75 representantes dos 19 municípios participantes. Durante a atividade, os profissionais receberam orientações sobre os conceitos relacionados ao trabalho escravo contemporâneo e sobre o papel da rede socioassistencial no enfrentamento dessa violação de direitos humanos.
Os próximos módulos abordarão metodologias para identificação de indicadores de exploração durante atendimentos sociais, além de estratégias para multiplicação dos conteúdos nos municípios participantes. A programação também prevê discussões sobre violações associadas ao trabalho escravo, entre elas tráfico de pessoas e trabalho infantil.
A expectativa é fortalecer a capacidade de resposta da rede de assistência social, considerada uma das principais portas de entrada para identificação de vítimas e prevenção de novos casos de exploração laboral.
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